Sofá

Sofá

Por Ricardo Mannato, acadêmico de medicina

Chamava-se Norminha Cachaça, para que não a confundissem com a outra Norma da comunidade, a da igreja. Uma senhora baixinha, atarracada, cabelos loiros oxigenados e que acendia um cigarro no outro, depositando os restos em um cinzeiro com formato de pulmões, que há muitas camadas pretas atrás já não tinha mais sua coloração rosa.

Estava há dez anos sem sair de casa, desde que seu marido faleceu. Tinham um bar juntos e do dia pra noite ele não estava mais lá. Tão dedicados ao estabelecimento, não tiveram filhos. Sozinha no mundo, vendeu o que podia, apressadamente, e se trancou em quatro paredes. Qual graça teria a vida sem as prolongadas e sonoras risadas do companheiro? 

Era brigada com as irmãs e vizinhas, não suportava mais ter que ouvir que tinha que sair do sofá pra viver. Vivia bem ali. Olhava as crianças brincando pela janela, tomava conta do trintão que alugava um quarto dos fundos de sua casa, tinha muitos canais televisivos que a faziam companhia durante o dia e alimentava os cachorros da rua. 

Quando botava o pé fora de casa, o coração acelerava, o ar lhe faltava, as pernas ficavam bambas. Pior do que a morte é o presságio dela. Tentou, falhou, tentou, falhou, desistiu. Sempre que precisava de algo da vendinha ou da farmácia, seu locatário-amigo-filho prontamente ia lá buscar. Ou então era só dar um trocado pros meninos que jogavam bola na sua soleira. Sair pra que?

Na verdade, bem que sentia falta dos finais de semana em Petrópolis. De uma boa praia no verão, daqueles banhos de mar de lavar a alma, dos churrascos de domingo, da cachacinha com os amigos. Sair de casa tinha seu charme. Mas não conseguia nem pensar nisso: o medo rapidamente a dominava e transbordava pelos olhos. 

A longa conversa já a acalmou um pouco e, por fim, aceitou o remédio. Um mês depois, voltamos para uma nova visita e Norminha vibrava em uma onda diferente. Já caminhava em sua rua, fazia suas compras e foi até no aniversário da irmã, que morava a uns quarteirões de distância. Bateu na porta e todos se chocaram ao vê-la fora do sofá. Foi muito bom, mas não se prolongou demais. Pactuamos que a próxima consulta seria em um mês, na clínica. Ela respirou fundo, apagou o cigarro, deu umas tossidas e riu. É, acho que consigo ir até lá. 

O dia chegou e Norminha não apareceu. Antes que fossemos visitá-la, a notícia nos encontrou; elas viajam rápido, dizem por aí. Norminha cachaça faleceu como o marido: um dia estava lá, no outro não mais. Deixou no sofá a marca do corpo, no cinzeiro a marca das mágoas e em mim a marca do agora. 

Saia do sofá, enquanto ainda há tempo.”

Pan demo

Pan demo

Por Alfredo de Oliveira Neto, médico de família e comunidade

Nunca me instalaria no meio do caos

dessaturando a utopia

mas eis que preciso lavar uma pia

e estender a roupa amassada

de toda uma geração enclausurada

o pão não é nosso

e a cada dia

endurece mais o meu encantamento

chega de rimas!

saudade já foi coroada

mas arrebento

e em cima desta pedra cansada

me destroço na cidade vazia

pandemia

amanhece cristalino

de um azul-desgosto

anoitece vidro-fosco

de que vale esta tempestade de citocina?

a quarentena, todas as posturas de Yoga

o relatório do FMI

Estados Unidos e China

as modalidades psicoterápicas do enfrentamento

as lives de Paul McCartney, Rolling Stones

e Ludmilla?

de que valem os tacanhos da cloroquina

e do anti-isolamento?

se hoje

no Morro do Alemão

a aurora se pintou de sangue e tinta preta

e que ninguém se esqueça

da menina do balão amarelo

se rodopia, acaba o brinquedo

ninguém fica mais velho

ela ria

ria

ria

pandemia

(Texto escrito em 16 de maio de 2020)

Homem

Homem

Por  Douglas Thaynã Vieira de Souza, médico de família e comunidade

José*, 50 anos, com histórico de diabetes mellitus, chega à unidade de saúde solicitando uma consulta porque está com falta de ar. Neste momento de pandemia, qualquer sintoma respiratório torna-se crucial e dispneia é um dado relevante e que pode direcionar o tratamento a ser feito. Avental descartável, luvas, máscara N95, óculos de proteção, escudo facial. Astronauta Douglas reportando-se à tarefa.

Quando eu pergunto, por trás de todas as camadas, o que está acontecendo com ele, ele responde: “acho que não sou mais homem, doutor”.

Paro. Os protocolos do município não contemplam esta queixa. Os livros de semiologia e propedêutica não trazem este sintoma. E agora? Teria ele sofrido algum traumatismo na região genital? Será que estava com alguma dificuldade na relação sexual? Penso que preciso saber mais coisas e deixo a escuta (de ouvido e coração, não de estetoscópio) fazer seu papel.

José me conta que a falta de ar começou há 2 meses. “É como se fosse um aperto, uma pisada de botina que pesa e não deixa puxar o ar, como se não tivesse liberdade de respirar”. Passa na minha cabeça a beleza das narrativas e como um mesmo sintoma pode ser expresso de tantas formas. Pergunto se houve algum fator que pudesse ser relacionado ao início da falta de ar. “Começou depois que meu neto foi morar com a minha irmã”.

E José me conta que em 6 anos perdeu “as quatro mulheres de sua vida”. Uma filha, devido a um câncer de ovário. A esposa, devido a um AVC. Sua segunda filha e a neta mais velha (juntamente com seu genro) em um acidente de carro. E ele me conta que lutou muito para não desabar, e que continuou firme por todos os últimos anos.

Pergunto se ele tem alguma ideia do que pode ter contribuído para que ele não desabasse. Quando ele fala, é como se a voz ganhasse vida própria. “Não sei… acho que foi meu neto, o Pedro Henrique*… Ele me fazia ficar em pé… Daí veio essa história de vírus e ele foi morar com a minha irmã… diz que foi porque eu sou diabético e sou do grupo de risco… minha irmã fala que é pro meu bem… mas depois que fiquei sem meu neto parece que perdi o propósito… e daí fico achando que não sou mais homem”.

Pergunto o que é ser homem para ele. “Ah, um homem tem que ter um papel, um propósito na vida… eu cuidava da minha esposa, cuidei das minhas filhas e da minha neta, depois que elas foram embora eu só fiquei com o Pedro Henrique… agora nem ele eu tenho… faz dois meses que estou sem função nenhuma. Daí fico pensando nisso e me ataca essas faltas de ar e esse aperto no peito”.

José nega outros sintomas respiratórios e quaisquer outras queixas. Afiro a pressão, verifico a temperatura, ausculto pulmões e coração. O oxímetro de pulso mostra saturação de 97% em ar ambiente. Segundo os protocolos, um “caso respiratório leve”. Vejo no prontuário que os últimos exames do paciente são de 2015 (ano de falecimento de sua filha e sua neta). Pergunto se por acaso ele fez os exames fora da rede pública. Ele diz que não, “vixe, esses anos eu fiquei só em função do Pedro Henrique… nem consegui me cuidar…”.

Aí vem um dos momentos que mais gosto na relação com as pessoas que atendo. A hora do insight. Quando dá um clique dentro de cada um, o momento em que tudo fica claro. Quase uma epifania. José olha pra mim e diz: “olha aí, acho que a minha função agora é cuidar de mim mesmo um pouco, faz tempo que não me cuido… quem sabe é isso que faz falta…”.

Concordo com José. Solicito alguns exames, oriento algumas técnicas de manejo de sintomas de ansiedade e prescrevo uma medicação sintomática para uso conforme a necessidade. E ele vai embora. Eu me sinto feliz, mesmo sabendo que não resolvi nenhum problema dele. Fui apenas uma pessoa comum conversando com outra pessoa comum, por 15 minutos em um dia com vários outros atendimentos. Como tantos outros Josés que circulam por aí. E Marias, e Helenas, e Caios, e Rodrigos, e Patrícias… Porque é nas coisas comuns que se esconde a beleza.

*Nomes fictícios

Quem ajuda quem?

Quem ajuda quem?

Por Vinicius Oliveira Fernandes, residente de Medicina de Família e Comunidade

Hoje recebi uma paciente que esteve na unidade semana passada. Ela já havia recebido do médico do convênio o diagnóstico de sífilis primária. Veio na primeira consulta apenas para pegar a receita do tratamento e fazer a notificação na UBS.Veio dessa vez com o marido, a nosso pedido, para que este pudesse ser tratado tambem. Uma consulta rápida, apenas uma rápida anamnese e, ao fazer a receita, pensei em voz alta: -Nossa, já estamos em junho e nada aconteceu. Todos riram, agradeceram e rapidamente foram embora. Voltei iimediatamente para a rotina, renovando as receitas dos pacientes que não poderiam vir a unidade, e pra minha surpresa, alguns segundos depois S. retornou para a sala.- Doutor, eu fiquei agora pensando nisso que o senhor disse sobre não ter acontecido nada. Queria dizer pra você não pensar assim; você está aqui conosco, ajudando todos os dias pessoas que precisam muito de você. E sei que você está fazendo muita diferença pra essas pessoas. Nada até agora foi em vão. Você ajuda muitas pessoas apenas estando aqui.Mesmo de mascara, eu conseguia ver seu sorriso.Não estava preparado pra isso. Imediatamente mudei minha atitude- Você tem razão S. Tudo acontece por um motivo.Agradeci pelas palavras. Apesar de não nos abraçamos, pude sentir o carinho que ela direcionou a mim naquele momento.Mal sabia S. que quem estava me ajudando era ela.

Masculinidade viral

Masculinidade viral

Por Geferson Pelegrini, residente de Medicina de Família e Comunidade

— Bom dia, tudo bem? Aqui quem fala é o Residente em Medicina de Família e Comunidade da sua Equipe de Saúde aqui da Unidade. — Dessa forma iniciava mais uma teleconsulta na UBS Santa Cecília, em meados de maio de 2020, durante a pandemia de COVID-19, em Porto Alegre. Objetivo primário da ligação: reavaliar a resposta ao uso de Zolpidem devido à insônia inicial.

— Tudo bem, doutor! É, na verdade… hum, pensando bem, o último médico que me atendeu orientou retirar aos pouquinhos o remédio pra dormir: um dia sim, outro não. Só que ontem era o primeiro dia em que não tomaria e acredito que a insônia piorou por eu saber que não posso usar. Meu dia se resumiu a isso. Acabei tomando e pedi outro teleatendimento. — Disse Leandro, um pouco ofegante ao telefone. Estranhei a franqueza. Pensei: o que se passa na mente desse homem, com cerca de 40 anos e sem outras doenças descritas em seu prontuário?

Que informações o prontuário me traz? “Mudou-se para Porto Alegre para facilitar o acesso de sua esposa Silvia, de idade correspondente, ao serviço de transplante pulmonar em um dos hospitais terciários do município.” Impressão transmitida: homem solidário com a esposa, na verdade, acima da normalidade. Outro adendo descrito sobre tela: “Desempregado, trabalhava como analista de sistemas.” Minha mente imaginativa e empolgada já conjecturava a hipótese de que tivesse deixado sua cidade natal e seu trabalho para cuidar de sua amada na capital. Porém, não estaria eu tendo fé demais na humanidade? Se fosse a mulher, seria o contexto usual…

— Leandro, “okay”, vamos reavaliar o uso. Por enquanto, não se preocupe com isso. Gostaria que você me contasse o que mais te incomoda além da insônia! — Nesse momento, minha mente poderia ser ouvida borbulhar por uma colega que estivesse passando por perto: o que posso desencadear nesse homem com tal pergunta? É adequado rastrear sintomas depressivos por telefone? E se ele relatar ideação suicida, o que eu faço? Será que ele vai se abrir comigo? Com frequência, nem presencialmente isso ocorre… “shhhhh”, cérebro, agora vou me concentrar nas palavras de Leandro.

— Então, obrigado por se preocupar! — disse o usuário, com misto de surpresa e alívio na voz. — Você deve ter lido aí que minha esposa espera por um transplante de pulmão, certo? A pandemia tem me afetado muito. Eu só saio para ir ao mercado e aquele cenário com pessoas mascaradas, buscando ficar longe uma das outras, usando luvas… isso tem me levado à loucura! Sinto que sou uma ameaça à Silvia. Chego em casa e lavo item por item das compras, passo álcool em gel repetidas vezes. Só que nunca acho que é suficiente! — desabafou.

— Entendo, Leandro, esse momento é único, nunca vivenciamos isso, você entende? É totalmente compreensível sua preocupação! Vejo que você é um homem muito preocupado com sua esposa, mas o que você tem feito para cuidar de si? — Naquele momento da conversa, eu enxergava um ser humano se doando a outro. Um homem do interior do Rio Grande do Sul (estado famoso pelo machismo), sofrendo durante a pandemia, emanando solidariedade, despido do estereótipo provedor masculino e alternando seu papel ao de cuidador: historicamente designado às mulheres.

— Eu gosto de ouvir minha vitrola, mas ela quebrou e tenho medo levar ao conserto, embora o governador já tenha flexibilizado o isolamento social, né? Sabe o Brique da Redenção? Meu “hobby” é ir lá aos domingos ver uns discos antigos e nem isso eu posso fazer. Às vezes, eu tenho vontade de abrir a porta de casa e sair a caminhar sem rumo. — Para mim, não faltava mais nada, o diagnóstico já estava nítido. Não precisava ele ter dito que chorava facilmente, nem que um de seus prazeres – cozinhar à esposa – havia diminuído ou que, periodicamente, apresentava sensação de sufocamento e precisava abrir as janelas para conseguir respirar.

Alteramos Zolpidem para Imipramina e aumentamos a dose paulatinamente. Leandro referiu estar melhor, na última ligação.  Porém, acredito veementemente que o fator essencial à atenuação dos sintomas depressivos e ansiosos foi eu ter perguntado se ele se enxergava como um homem solidário. Se ele conseguia compreender que todas as medidas preventivas à pandemia que relatou estavam absolutamente corretas, a ponto de eu não fazer adendos. Ou se ele concordava que poucos homens deixariam sua vida previamente estabelecida em uma pequena cidade pelo desconhecido em um centro urbano muitas vezes inóspito, com o objetivo altruísta de, para além de curar, cuidar de sua amada. Ou, mesmo de encontro ao que pregava eu religiosamente, porque orientei que ele poderia realizar caminhadas matinais cuidadosas pelos meandros dos bairros, evitando avenidas movimentadas e tocar superfícies.

Desfechos: Leandro consertou sua vitrola. Disse que tem aproveitado e enxergado sua ida ao super (como chamam os porto-alegrenses) com mais vida. Ele me agradeceu. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. A telemedicina foi exitosa nesse caso. O acesso e a longitudinalidade do cuidado foram garantidos. Ligarei para ele na próxima semana, mas o que eu queria mesmo era ver seu rosto ou até um abraço. Imagine um telefone tocando. A linha telefônica se constitui também em linha de frente contra o vírus. Tenho imaginado um mundo em que a face da masculinidade apresentada por esse homem poderia se tornar viral. Leandro é real, bem como sua história, mas seu nome é outro.

A vida rompeu o asfalto

A vida rompeu o asfalto

Por Alfredo de Oliveira Neto, médico de família e comunidade

Ela entrou e não conseguia falar, sua filha cortou o clima: meu irmão morreu domingo passado.

Na semana anterior havíamos pactuado o retorno ao antidepressivo que não usava há 15 anos. Uma consulta longa, a segunda, muitas ideações suicidas. Semana retrasada a colega médica da equipe tinha acolhido e registrado inúmeros parágrafos no campo subjetivo do E-SUS. Abuso infantil, 12 tentativas de suicídio, um casamento morto-vivo, a sensação de que a vida zuniu pela janela enquanto lavava pratos e arrumava os filhos para a escola. Chegou a concluir curso universitário, mas jogou a toalha no ringue dos sonhos. No entanto, agarrou-se ao último joule de energia e tentou pela enésima vez sair da inércia. Aplausos em pé.

Durante a pandemia, meu turno de “consultório normal” me relembra que a vida não está em isolamento, a mordida do cachorro de rua, o terrível peso de uma investigação de câncer, o aperto nos olhos por um sorriso escondido pela máscara da mãe, deitada na maca, ao ouvir as batidas do coração do primeiro filho, o barraco na sala de espera, um pneumotórax espontâneo num jovem fã de Legião Urbana, o corrimento vaginal que a envergonha pelo fato de precisar ficar de quarentena com o namorado novo, o início da insulinoterapia com a melhora dos níveis glicêmicos mesmo se empanturrando de pão. Essas e outras me desconectam da ficção científica trágica que nos metemos em 2020, mas a roda da vida, repito, definitivamente está furando a quarentena.

24 anos, diabético tipo 1 descoberto na infância, funcionário de um fast-food, e fã do batidão carioca havia deitado na cama da mãe na tarde de um domingo e soltado o verbo sobre planos e sonhos como há muito não fazia. Sem sintomas respiratórios. Como grande parte dos jovens, tinha uma péssima relação com a doença crônica, negação e aposta no poder curativo da juventude. Se para os idosos é dificílimo, para os jovens são insuportáveis a disciplina com a alimentação, exercício físico e medicações, os efeitos colaterais, os exames e consultas de rotina. Já no trabalho noturno na lanchonete durante a folga falou ao colega que iria relaxar no quartinho dos funcionários e nunca mais voltou. A mãe foi a primeira da família a chegar no local, “doutor, ele estava no chão feito um pacote jogado”, assim que recebeu o telefonema do gerente, ela sentiu que não era apenas mais uma hipoglicemia, assim como várias outras vezes.

Estou aqui para lhe ouvir, a senhora quer falar alguma coisa? “Ele não me deu tchau”. Foi uma das consultas mais tristes que já tive, e olhe que já tive muitas desde o meu início como médico em 2006. Todavia o motivo desta crônica não foi a maior tragédia do mundo, a de perder um filho no meio de uma pandemia e sim a reação desta mãe com alto risco de suicídio. Claro que em nenhum momento da consulta eu sondei como estava este risco, apesar de ser recomendado, foquei no que ela e a filha falavam, “a minha vontade é de gritar e socar e parede”. Quase prescrevi de tanto ter repetido que ela precisaria gritar muito e esmurrar o colchão, que quanto mais fizesse isso no começo, melhor, mas à medida que a consulta andava ela entendia o que eu queria saber sem ter perguntado e do nada diz: “fique tranquilo, doutor, não quero mais saber de morrer, a mensagem da morte dele para mim foi: viva, minha mãe!”. Marujei atrás da máscara e me segurei muito para não abraçá-la, falei que a minha vontade era esta.

Ela retornou na semana seguinte, dormindo demais e comendo de menos, a filha reclamando que a mãe precisa respeitar a maneira de encarar o seu luto, que é faxinar obsessivamente a casa. O pai, apático, catando os escombros no trabalho de jornaleiro, a outra irmã sofrendo pois havia brigado com ele antes de sua morte, suplicou à namorada do irmão, detentora da senha do seu celular, que apagasse sem ler as conversas de zap entre eles. E ela, a mãe, ainda firme, com planos de arrumar o quarto do filho com prazo determinado para cada item, “só o travesseiro, doutor, vai ficar comigo, ele deve ter chorado e sonhado muito nele”.

Ao sair da consulta me pede que nossos encontros fiquem mais espaçados, de 15 em 15 dias, olho para a filha, que me faz um ok com os olhos.

Será que é apenas uma reação inicial e em breve ela desmoronará e cometerá um suicídio de fato, ou será que esta morte ressignificou os sentidos da sua vida e a isso ela se abraçará até o fim? Não sabemos, mas o fato é que, pelo menos neste início, parafraseando Drummond, no meio da morte, a vida nasceu na rua, rompeu o asfalto.    

Uma das várias vezes quando me vi na outra

Uma das várias vezes quando me vi na outra

Por Raquel Ferreira, médica de família e comunidade

Eram cerca de 2 semanas após o decreto de transmissão comunitária do SARS-nCOV-2, o novo coronavírus. Uma paciente entrou no consultório com queixa de tristeza e transtorno depressivo há longa data, já com ajuste das medicações por outro médico fazia 5 dias. Era operadora de caixa em um supermercado e relatava que tinha tido uma crise de aflição e choro intenso no trabalho. A ansiedade tinha piorado por conta da possibilidade de se contaminar e contrair a COVID-19. Tinha visto alguns colegas do trabalho se afastando por razões médicas e sentia que aquela situação estava cada vez mais próxima a sua realidade. 

Estava com medo. No lar, moravam ela e um casal de filhos, ainda crianças de 8 e 10 anos, mas naquela ocasião já fazia 2 semanas que não os via, pois tinha preferido deixá-los na casa do ex-marido e dos avós paternos por medo de contrair e de contaminá-los com a temerosa doença. 

Estava ansiosa. Há 2 semanas sem a companhia dos filhos, trabalhando e, quando voltava para casa, permanecia em isolamento social. Ligações para familiares já não eram suficientes, o choro sempre vinha, mas com os filhos, se segurava: Tentava falar pouco sobre seus sentimentos para não deixá-los preocupados. 

O choro apresentou-se intenso e a história de um estupro prévio veio à tona. Estava triste. Não era mais a mesma desde aquela situação, sentia medo de sair de casa, não confiava nas pessoas e, naquele momento, estava sozinha, longe do colo dos filhos. 

Naquele olhar jovem e cheios de lágrimas me vi, a emoção veio e respirei profundamente para não embargar a voz… Mãe tem dessas coisas, se vê e se sente na dor da outra. 

Não consegui, mantive distância segura, mas pedi licença para retirar a máscara. Nenhuma de nós tínhamos sintomas gripais, mas nós duas estávamos em risco de contaminação em decorrência do trabalho com o público. Nós duas gostaríamos de estar em casa, cuidando e protegendo nossas crias daquela situação, mas precisávamos trabalhar, fazíamos parte do grupo de trabalhadores que movem os serviços essenciais. 

Conversamos, ajustamos o tratamento: fizemos acordos de autocuidados. Sugeri que levasse os filhos de volta para casa: a separação estava causando maior doença do que o abraço protegido lhes causariam. Reforcei que mantivesse roupa de trabalho no trabalho e as colocasse em saco plástico até lavá-las; higienizasse bem as mãos várias vezes ao dia, evitando tocar o rosto; retirasse os sapatos e se encaminhasse ao banho ao chegar em casa, entre outros cuidados, que eu também, mãe, já estava tomado diariamente para manter minha família livre da COVID-19. 

Ela respirou fundo, se disse mais aliviada após ter jogado para fora aquilo que a sufocava e sentiu-se acalmada com a possibilidade de ter os filhos novamente em casa. Ao nos despedirmos, me agradeceu pela escuta, abriu um sorriso e nos abraçamos com o olhar… 

Eu também respirei fundo, tomei alguns minutos para terminar de processar aqueles sentimentos, coloquei novamente a máscara e voltei aos atendimentos. 


Desperta dor

Desperta dor

Por Gabriela dos Santos Marques, residente de Medicina de Família e Comunidade

Chegou cedo. Devagarzinho, entrou, sentou-se e disse assim: “eu preciso de ajuda (me inclino e escuto)… para dormir.”
Recuo, me reposiciono: a típica queixa que te divide, entre compaixão e cansaço. Uma repetição diária, vezes embutida, quase dessensibilizada. Um sintoma que, assim, central e sob o holofote, mais refletido, deverá ser dos mais graves que há na experiência humana. Não dormir. Imagina só!
“Fecho os olhos. espero muito… a minha mente não desliga: ele não vem! Pensei: preciso procurar o médico.”
Nessa hora, do lado de cá, sobe e desce na garganta, certa antipatia do recorde de prescrições a serem replicadas: Clonazepam, o tal do Rivotril. O TAL: planejado como ferramenta de crises, pretendente a salvação imediata – 2mg de artilharia potente. Na vida real, tantas vezes domesticado, adestrado e convertido a mascote de anos a fio. Aquele da receitinha azul, sabe? Esse mesmo, o cobiçado. O emprestado. O da barganha… O pivô da disputa.
Mas o caso nem era desses. A senhorinha de olhos tristes, boca seca, mal estar e medo, não veio por ele. Estava pronta a aceitar qualquer remédio. O comprimidinho que eu oferecesse. Quiçá outra apresentação. Ela foi clara, desde o princípio: queria ajuda!
Há pouco, houve uma outra – também mulher, também periférica, também hiper-tensa – que me disse assim: “Dormir? Depois de certa idade, não existe mais sono natural, não, minha filha!”
Nesse ponto, entre dúvidas, a mente retorna a paciente atual. Nó na garganta – perco qualquer diagnóstico quando ela emenda: “A coisa tá difícil com a pandemia. Somos eu, meu velho e três filhos grandes. A menina era Uber, não consegue mais trabalhar. Os outros moços, também sem dinheiro. Mandaram embora faz pouco… É a minha aposentadoria, com a dele e só. Ainda descontam do empréstimo direto no banco: o que chega é bem pouquinho. O negócio apertou.”
Os olhos cansados marejam. Para bom entendedor, em tempos mascarados, meia expressão facial basta.
E eu, engulo a seco, examinando mentalmente se há algo a prescrever. Vasculho gavetas e me pergunto se a medicina me ensinou o que fazer. Se já há protocolo para lidar com a falta. Com o medo e com a dor. Com a cotidiana maternidade prolongada de avós que não podem cozinhar aos domingos e depois descansar. Avós que são para sempre mães, porque nunca pararam de sustentar. Alicerces antigos de construções que só crescem.
Com fissuras: aos trancos e barrancos, ou barracos.
Penso se, na dificuldade de prescrever, ao menos, eu consigo descrever. Transformar a minha angústia em palavras: assim, essa tristeza acumulada, de passar a semana toda escutando mulheres preocupadas, insones e abaladas. Com suas doenças físicas exacerbadas, listas de medicamentos alongadas e aposentadorias curtas.
Para assim, quem sabe, não ser eu a perder o sono hoje a noite.  

Abraço

Abraço

Por Fabiane Bostelmann

Metade da tarde, agenda cheia. Na tela do computador, próxima paciente: Joana (nome fictício), 30 anos.

Era a terceira vez que ela consultava comigo no último mês.

No nosso primeiro encontro, final de tarde de sexta, na sala de emergência, queixava de dor nas costas que corriam para a perna, com palpitação no peito, formigamento no braço, queimação no estômago, dores de cabeça e uma tontura muito forte, olhar assustado, segurando um choro que não ia de sair tão cedo. Tento abordar as lágrimas escondidas com dificuldade naquele olhar, mas elas não queriam papo naquele fim de tarde. Medicamentos sintomáticos e um convite para voltar na próxima semana para reavaliação. 

Ela voltou, os sintomas ainda não haviam melhorado e as lágrimas coincidentemente ainda continuavam reféns daquele olhar firme e arregalado. Tento de novo conversar sobre as angústias e sofrimentos da alma que brotavam naquele corpo, formigavam os braços, queimavam o estômago e pesavam as costas, gritando naqueles olhos marejados. Mas ainda não era o momento e é preciso respeitar o tempo das marés dos olhares.

Mas ela voltou mais uma vez, estava ali na tela do meu computador. Dessa vez ela veio pronta pra falar, eu só ainda não sabia que eu é que não estava pronta para ouvir. Ela me contou mesmo assim, ninguém nunca esperou ela estar pronta, não era uma gentileza que ela devia aos meus ouvidos crus de mulher branca privilegiada. Joana era preta, nascida na Bahia, era muito feliz lá, apesar de sentir falta de amor de mãe, era criança e gostava de brincar, o que fazia muito nas terras baianas quentes.

Começou cedo a desenvolver corpo de mulher e, por consequência quase direta na nossa cultura, a chamar atenção dos homens, mesmo sem querer, ela queria mesmo era brincar com as outras crianças. Com apenas 5 anos começou a sofrer abusos do padrasto que lhe espremia os brotos mamários que mal haviam surgido. Os abusos só foram aumentando, à sombra do olhar da mãe – provavelmente outra vítima, o irmão do padrasto também entrou no jogo hediondo. O padrasto a obrigava a ouvir o que ele e a mãe faziam no quarto, lembrando que era o que queria fazer com ela quando fosse maior. Ele a acompanhava quando ia ao banheiro para avaliar a espessura das fezes e tirar conclusões na sua mente doentia, as quais fazia questão de compartilhar com a pequena. 

A família mudou-se para o Sul e mais dois namorados da mãe assumiram o protagonismo da cena bárbara até  os 13 anos.

Ela foi me contando com mais alguns detalhes sobre tudo que viveu até ali, ela não entendia o porque tudo isso tinha vindo a tona agora, ela acreditava já tinha dado conta de bloquear tudo aquilo muito bem nos últimos anos. Sem saber bem o que dizer, fiz o que pude, ouvi com toda a atenção e concentração para segurar a minha repulsa dentro do meu estômago, levantei da cadeira e com meus braços formigantes a abracei enquanto a maré dos meus olhos se transformavam em ressaca e as lágrimas rolavam sem censura. Quem olhasse de fora iria ver do meu lado do abraço uma mulher branca crescida num mundo de privilégios e do lado dela, uma mulher preta com uma infância sofrida que ela insistia em dizer ser feliz. Mas em verdade que aquele abraço não tinha lado, era uma coisa só se somando ao choro compartilhado simbolizando o início da cura de um feminino muito maltratado. Naquele abraço tinham muitas mulheres, sem cor, sem corpo, sem médica, sem paciente, só feminino, um feminino ferido ansiando por cura.

Hoje aos 30, ela rejeita suas curvas de mulher, tão cobiçadas para muitas na sociedade, é o seu carma. Ao fim da consulta, depois de pactuado que seria importante a terapia, Joana me fez um pedido cruciante (o qual me repetiu várias vezes nas consultas seguintes): ela queria uma cirurgia para retirar as mamas, queria tirar a fisionomia feminina das próprias mamas que só lhe trouxeram dor e sofrimento. Ela ansiava por uma mutilação na esperança que a cirurgia levasse a dor de um passado duradouramente amargo e lhe garantisse um futuro menos desgraçado. Eu só queria conseguir fazer a Joana entender que o problema nunca foram suas mamas precoces. Que mastectomia nenhuma é capaz de curar uma sociedade doente do nordeste ao sul. 

Há 2 anos não vejo mais Joana, mas ainda torço por marés melhores, daquelas que esvaziam olhos sofridos e enchem olhares alegres, para ela e para todas as outras Joanas que senti chorarem juntas naquele abraço