Cãibras

por Luís Vilela

Quinta feira. Entra na sala já conhecida paciente de meia idade com histórico de câncer de mama, leucemia e insuficiência cardíaca bem controlada.

– Em que posso ajudar?

– Ah doutor, são 3 coisas. A primeira é que estou meio surda. A segunda que eu não consigo dormir. Nunca tive cãibras tão fortes! Tenho espasmos dolorosos no meio da noite principalmente nas pernas. E também acho que preciso de alguns exames.

– Então vamos por partes (levanto e examino o conduto auditivo preenchido por cera e um pouco besuntado). A senhora colocou alguma coisa aqui?

– Aquele óleo da farmácia. Faz uns 5 dias.

– Podemos lavar, então. É cera mesmo. Pode ser hoje à tarde? As meninas (enfermeiras) vão preparar o material.

– Pode ser doutor.

– Agora esse negócio da cãibra às vezes é difícil o diagnóstico.

– Acho que é difícil mesmo porque você já é o terceiro para quem reclamo. O oncologista e o cardiologista mandaram comer banana, verdura verde escura e nada. Não sei se eles me escutaram muito, pois era no final da consulta que eles viram outras coisas.

– Quais os remédios que a senhora está tomando?

– O do câncer de mama, da leucemia e os da pressão.

Revejo o prontuário: usava de suplemento de cálcio e vitamina D por osteopenia e pelo uso do anastrozol (medicamento para o câncer de mama que pode interferir no metabolismo do cálcio).

Coloco o aparelho de pressão em seu braço e digo que deixarei por 3 minutos para ver se desencadeia uma crise. Em cerca de 2 minutos e meio sua mão se curva em uma crise dolorosa. Sinal clínico de nome bonito, como outros tantos na medicina, este se chama Trousseau.

Trousseau

– Ai doutor! Acho que é isso que acontece.

– A senhora não está usando o cálcio?

– O meu cardiologista suspendeu. Disse que o cálcio fica nas artérias.

– As cãibras começaram após parar com o cálcio?

– Agora que o senhor falou, sim.

Deixo escapar um sorriso. Momento Doctor House no posto de saúde. Faz aquela massagem boa ego, mas a gente gosta mesmo é de gente e que me deixa mais feliz é quando o diagnóstico traz ajuda para o paciente.

– O que foi doutor?

– Eu achei que seria mais difícil, mas nós matamos a charada. Acho que a senhora tem tetania que são estes espasmos por falta de cálcio.

– Mas e agora o que eu faço?

– Volta a tomar cálcio mais vitamina D acho que teremos bons resultados.

– E o meu cardiologista. Ele meteu medo em mim.

– Olha, ele está certo quando diz que o cálcio faz parte do processo de arteriosclerose, se pensarmos só no sistema cardiovascular. Mas, se pensarmos na senhora, que não dorme por conta dos espasmos, que usa medicamento que pode contribuir para o problema e que, infelizmente, não podemos suspender até completar 5 anos do tratamento do câncer de mama, e que isso tem afetado sua qualidade de vida significativamente, acho que o benefício supera os riscos em muito. O que você acha?

– Acho que se eu ficar sem as cãibras concordo contigo.

– Então fechou: Aqui estão seus exames, e a receita de oxalato de cálcio e vitamina D para tomar 3 vezes por dia. Quando voltar para me trazer os exames me conta como foi e se melhorar significativamente podemos reduzir a dose.

A lavagem de ouvido à tarde foi um sucesso.

Ela volta 2 semanas depois:

– O senhor é um mágico! Nunca ninguém acertou tão em cheio!

Ego massageado mais uma vez… Ah vá! Quem não gosta?!

– Que bom! Aquele sorrisão, que não consegui esconder.

-A segunda noite já dormi a noite inteira. Eu estou tão bem que reduzi por conta a dose. Estou usando 1 comprimido só. Ainda estou assustada com aquele negócio que pode entupir as veias, que o cardiologista falou. Mas, mesmo assim não voltou, continuo bem.

– Sabe, o cardiologista tem um pouco de razão, muitas pessoas tomam esses suplementos sem necessidade, e correm risco desnecessário. O que não é seu caso, que tem uma prescrição médica. Eu reduziria para 2 comprimidos por dia.  Temos que pensar na osteopenia também, que deu naquele exame de densitometria que a senhora fez há algum tempo.

– Eu entendi doutor, mas ainda tenho receio.

– Tudo bem vamos observar se voltar às crises começa dois por dia. Mantemos pelo menos 1 todo dia. Mais para frente temos que repetir a tal densitometria, ela pode mudar o tratamento e a dose.

– Tudo bem! Disse com satisfação, acho que por participar da conduta.

Os exames foram vistos. As orientações feitas. E o cuidado continua.

O peso das emoções

por Luís Vilela

pesodasemoções

Quarta-feira, final de tarde, as notícias não eram animadoras no grupo do WhatsApp da unidade de urgência. O plantão estava com desfalque médico na parte da manhã e da tarde. Chego a unidade de pronto atendimento, as 19:00hs e me batem nas costas, dizendo: “boa sorte! Você vai precisar…” “Está preparado?” (Sou um cara de sorte e nasci preparado, então estou de boa) Pelo menos a noite estávamos com a escala completa. Encontro um “bolo” de fichas, o primeiro paciente que chamei tinha dado entrada às 10 da manhã (Hoje à noite vai ser longa…). Empenhado em dar dinâmica aos atendimentos chamo os pacientes o mais rápido possível e, como de costume, observo a equipe comprometida em atender aquelas pessoas que já aguardavam há tanto tempo. Perto das 21:00, leio a pré consulta da enfermagem: “vômitos, pós operatório de cirurgia bariátrica”.

Na minha mente vieram várias hipóteses de complicações decorrentes da cirurgia, (falta de vitaminas, fístula¹, estenose²). Entra em minha sala uma senhora com aproximadamente 50 anos, sem obesidade. Ela se senta e logo diz:

-Doutor, não queria incomodar, sei que hoje está muito cheio, mas eu não consigo mais aguentar. Tenho vomitado, principalmente depois que como.”

– Há quanto tempo você fez a bariátrica?

– Há um ano.

– E quantos quilos você perdeu?

– Perdi 60 quilos.

– Há quanto tempo você começou a vomitar?

– Cerca de um mês e meio.

-Isso já tinha acontecido antes, depois da cirurgia?

– Não.

– Entendo. (Tem algo há mais aí, deixa ela falar)

– Eu ando muito nervosa, a minha mãe morreu há dois meses, disse com lágrimas nos olhos. (Eu sabia)

Levanto e pego papel para enxugar suas lágrimas.

– Depois que minha mãe morreu, meu pai me escolheu para cuidar dele, hoje ele mora comigo. Meu pai dá muito trabalho, ele é dominador e fica mandando em mim o tempo todo.

– Entendo. (E o que mais?)

– Acho que eu tenho saído da dieta um pouco. (Danadinha.)

– Você tem chorado muito ultimamente?

– O tempo todo… Não tenho paciência para meu pai e suas reclamações me afetam muito.

– Quando você tem retorno com seu cirurgião?

– É daqui duas semanas. Você acha, doutor, que isso pode estar me afetando?

– Eu acho, sim.

Convido-a para deitar na maca para realizar o exame. Os dados vitais estavam normais, os olhos eram tristonhos, o excesso de pele evidenciava a grande perda de peso, o abdômen era flácido. Ela não tinha dor, não tinha náusea ou outras queixas naquele momento.

– Estou aqui pensando como posso te ajudar. Parece que está tudo bem com a cirurgia, mas a dificuldade pode estar no relacionamento com o seu pai e nas atribuições do papel de cuidadora.

– Eu preciso de uma coisa para me ajudar, não quero descontar as coisas na comida, nem posso mais. Não consigo mais.

– Não costumo iniciar alguns medicamentos aqui na urgência, mas vou abrir uma exceção no seu caso, pois, acho que vai te ajudar nos seus sintomas. Você precisará de acompanhamento com o seu médico de referência.

– Ah doutor, eu agradeço! Acho que eu preciso mesmo. Quando eu passar com meu cirurgião, também tenho consulta com a psicóloga.

– Não falte a consulta. Você tem irmãos?

– Comigo são 12 irmãos.

– Acho que você poderia conversar com seus irmãos para compartilhar os cuidados com seu pai. Se são 12, em um ano da um mês para cada. Risos.

– É verdade, doutor, disse ela sorrindo. Mas ele que me escolheu… Vou conversar com eles, não aguento mais. Muito obrigada mais uma vez.

Saiu com um semblante mais vivo e decidido. Eu respirei fundo… A porta entreaberta mostrou uma fila que serpenteava na sala de espera. Hoje a noite vai ser longa…

1 – Fístula = canal patológico que cria uma comunicação entre duas vísceras (fístula interna) ou entre uma víscera e a pele (fístula externa).

2 – Estenose = estreitamento patológico de um conduto, canal ou orifício.

Hoje não tem injeção!

por Luis Vilela

Leio a pré-consulta:
Criança de 5 anos com tosse seca  iniciado há 2 dias e 1 episódio de diarreia líquida hoje.
Chamo o paciente que começa a chorar compulsivamente.
Ele entra aos trancos e barrancos segurado firmemente pela mãe.
– Ou você se comporta ou o médico te dará uma injeção.
– NÃO POR FAVOR! EU NÃO QUERO! UhhhhhAHHH!
– Eu já falei que você vai ganhar uma injeção! Não quero ouvir mais um pio.

Eles entram. O garoto me dá uma olhada fugaz. Naquele dia estava de camisa xadrez e calça jeans e com estetoscópio no pescoço que me apresso a colocar na mesa.
Ele segurava na perna da mãe, que parecia impaciente e cansada.
Agachei ao seu lado e disse:
– Hoje não tem injeção!
– Não?
– Eu prometo que não vou fazer nada que vai te machucar. Quero te apresentar meu amigo o Senhor Palito:

Sr. Palito

O garoto ainda estava desconfiado mais o Senhor Palito o acalmou e chamou sua atenção.
– Antes de você ir embora vou te apresentar meu amigo Pica Pau. Tudo bem?

O exame ocorreu bem. O Senhor Palito me mostrou uma amígdala normal. A mãe mais aliviada me contou que o pequeno flamenguista não teve febre, não teve sangue ou muco nas fezes.
Então eu lhe apresentei meu amigo Pica Pau:

Pica Pau

– É meu?
– É seu.
– Obrigado moço.
– De nada!
A mãe agradece. Fala que não irá mais ameaça-lo com injeções.