Educação Permanente também cabe Causo…

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    Estava há 4 semanas já na unidade nova. Assumi o lugar de uma médica de família fantástica que deu todo seu carinho por ali, mas escolhera um novo destino para si e assim também escolhi um novo destinto para mim (isso vai ser outro causo, assim que assentar tudo que vivi…).
     Nas últimas semanas estava percebendo “no ar” discursos que não condiziam com minhas crenças, o que eu gostava, o que eu acreditava, sendo que na semana anterior na educação permanente tive uma “oportunidade” de falar que saúde é equipe, saúde da família é equipe, é comunidade, é rede de cuidado e que precisávamos falar mais sobre saúde da família, sobre o que estávamos fazendo ali….
   Não podia ser mais difícil, gostoso, tocante quanto foi…
Para tal preparei com carinho uma “releitura de Causos”, escolhendo 4 para me auxiliarem, para servirem de apoio na conversa, na discussão, em trazer a minha vida (mesmo que os Causos sejam de outros)

 

   Logicamente, que no meio desses Causos todos, ainda resolvi mostrar o que é ser o médico de família através de uma fala que eu me encontro em cada palavra.. (Luiza, me desculpe mas vou te expor mais um pouquinho…)

 

 

    Ao final de toda essa emoção, toda essa realidade, todo esse amor pelas nossas escolhas ganhei o maior presente de todos. Uma Agente Comunitária de Saúde falou a todos.

 

– Gente, todos vão ouvir mas as minhas palavras são direcionadas apenas ao Lucas, porque acho que ele que tem que ouvir isso. Lucas muito obrigado por essa manhã, por essas palavras. Hoje você conseguiu mostrar pra mim que a gente não precisa trabalhar com a cabeça, mas com amor e com o coração.

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Café com Biscoito

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Por Maria Carolina Falcão

 

        “Ô Carol, depois dá uma passadinha aqui em casa pra tomar um café!”, primeira coisa que ouço quando chego à comunidade para uma visita domiciliar. Quem chama da janela do segundo andar do conjunto habitacional é uma senhora que recentemente teve alta de seu tratamento para câncer de mama. A conheci no meio de seu tratamento e passamos por algumas consultas, onde aprendi com ela muito sobre resiliência e fé. Aceno com a mão, aviso que estou indo visitar uma pessoa e fecho a porta do carro, cuidadosamente estacionado entre o monte de areia para construção eterna das casas na ladeira e a tábua de madeira que serve como ponto de encontro para a Kombi que leva os moradores da comunidade até o asfalto.

     Cada dia de visita traz uma surpresa diferente, mas todos os dias trazem os mesmos convites: acenos da janela, cumprimentos com a cabeça e café com biscoito. Lá de cima, acima dos arranha-céus, acima da turbulência da cidade, parecemos estar numa cidadezinha do interior. A imensa porca largada sonolenta próximo à escada da pracinha só faz reforçar essa impressão. Passamos por ela, a Agente de Saúde e eu, evitando as poças d’água da manhã chuvosa. A comunidade ainda acorda: janelas fechadas, pessoas saindo pra o trabalho, pessoas voltando cansadas. Já conheço a maioria pelo nome, sobrenome e histórico familiar. Um deles está na porta de casa, de pijama surrado e chinelo de dedos, com uma caneca de ágata numa mão, coçando a cabeça de seu cachorro com a outra: “O que que o senhor arrumou aí nesse olho?!” “Eu caí, menina! Logo ali no portão de casa…” me aponta com a caneca o umbral do portão, onde tropeçou. Primeira consulta do dia, ali mesmo, na calçada. Segundo convite para tomar café com biscoito.

      Mais adiante cruzamos com uma gestante que faltou a última consulta agendada, com cara de moleca risonha já dizendo que descobriu o sexo do bebê. A Agente de Saúde a lembra do retorno e conversam sobre levar o companheiro para uma avaliação do “pré-natal do parceiro”. Paro para olhar as anotações do dia e passa por mim uma bola de futebol, seguida de uma dupla de irmãos: “Oi médica! Você veio dar injeção hoje de novo?” Se referiam à campanha de vacinação do último mês, onde a nossa equipe de saúde ofereceu aplicação das vacinas na escola municipal onde estudam. A avó deles está observando do portão, chamando para os meninos saírem da chuva. Aceno pra ela, aviso que tinha saído a marcação do exame que tanto aguardávamos. Ela me sorri de volta, perguntando se não tínhamos tempo para lanchar, um bolo, um cafezinho, suco, pão com manteiga, iogurte… Coisas de avó matriarca.

       Chegando na casa da paciente em questão, já estavam nos esperando. Olhos ainda um pouco grudados pelo sono, mas a dispostos a passar pelo atendimento e pelas perguntas exigidas para realização de investigação de óbito. Se tratava de uma visita para abordar o luto de uma pessoa querida, que se foi rápido demais. Ouvidos atentos, olhos marejados, sofremos juntos com a família. Aproveitamos para recordar dos bons momentos vividos e da lembrança boa que ficou. A melhor coisa do dia de visita domiciliar é que você já não se sente como visita: senta na beira da cama, olha nos olhos, ajuda a encontrar os documentos na pastinha de exames. Fazemos exame físico ali no próprio leito da pessoa, o lugar mais confortável do mundo. A simplicidade de fazer parte fortalece vínculo e aumenta a autonomia das pessoas, que nos retribuem com confiança e amor.

          Quando descemos do quarto para ir embora, tem café com biscoito doce em cima da mesa. Tem também satisfação e ternura nos rostos de cada um, por aceitarmos o convite dessa vez, bem rapidinho, pois ainda temos que voltar pra clínica. “Dá próxima vocês vêm com mais calma, que ele prepara uma tapioca boa daquelas, viu?”

      Fico me perguntando: quem cuida de quem, nas visitas domiciliares? É a melhor parte de ser Médico de Família.

Protocolos

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Por Carol Reigada

Dra, é verdade que eu não posso mais colher preventivo, por causa do protocolo?
É porque, depois de estudar, vimos que não vale a pena colher depois dos 64 anos, se todos os preventivos até aí foram normais. A senhora está com quantos anos?
Na identidade diz 63.
Mas não é 63?
É que na roça onde eu morava não tinha cartório, aí meu pai esperava juntar alguns filhos pra ir na cidade registrar todos. Pro meu irmão vir depois demorou, aí meu pai só me registrou com mais idade. Demorou tanto que ninguém tinha certeza quantos anos eu tinha. Nem eu. E agora?”
São dessas realidades que não cabem no protocolo.
Mande seu Causo também..
Insta: causosclinicos (#causosclinicos)
Fb: Causos Clínicos (@causosclinicos)
E-mail: causosclinicos@gmail.com

Sobre o Básico e o Essencial

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Por Bruna Barreto*
1) Uma mãe que viu o filho se afundar nas drogas e ser assassinado e agora está em depressão;
2) Um senhor com seus lá 60 e poucos anos que viu umas manchinhas aparecerem pelo corpo e quer saber o que pode ser;
3)Uma trabalhadora braçal com “dor nas ancas”;
4)Outra trabalhadora braçal, com as pernas inchadas;
5)Um homem estressado no trabalho que vem à procura de um atestado por conta da terrível dor de cabeça, mas que na verdade quer uma mudança de vida;
6)Outra trabalhadora braçal, com “esporão nos pé” que dói uma dor que não passa com nadinha nadinha;
7)Uma adolescente que anda meio isolada, meio triste, sem vontade de viver, acha que podia abandonar tudo de uma vez que nem faria diferença;
8)Um senhorzinho que vem perguntar porque que o grupo de educação física não estava ali naquele dia, que precisa fazer os exercícios e na rua dele não dá por causa da criminalidade;
9)Um outro senhorzinho, diabetes descompensada, pressão alta, dificuldade pra respirar à noite, não vê efeito nos remédios;
10) Uma mulher de 27 anos que vem pedindo o check up porque a avó de 84 anos faleceu há uma semana e isso a assustou terrivelmente;
11) Uma mulher de 42 que vem pedindo a renovação da receita de antidepressivos. Tentou suicídio há uma semana, mas não era pra ninguém nem saber disso;
12)Uma mulher de 64 que veio pra conversar;
13)Um jovem, traficante, está com resfriado mas quer ser atendido antes de todos e quer todos os exames;
14) Uma mãe preocupada com a febre do filho;
15) Uma mulher grávida que vem para o acompanhamento da gestação, está feliz e realizada e sem intercorrências;
16) Outra mulher grávida, que não sabe que está grávida ainda porque sempre usou preservativos, mas acha que está com algum tipo de câncer por que a menstruação não desceu e anda meio enjoada;
17) Um homem preocupado porque acha que o filho é gay e acha que ser gay é doença;
18) Uma mulher de 37 anos que já está na segunda linha de terapia antirretroviral sem sucesso, sente-se mal e amaldiçoada;
19) Uma mulher de 24 anos, veio pois está com uma fratura. Mente pra você e pra todos os outros que foi um acidente doméstico, mas na verdade foi o namorado;
20) Uma criança com dor de ouvido, levada pelo pai preocupado que não quer perder o emprego, mas já é a quarta infecção do filho nesse ano e teve que esperar um tempão pra ser atendido – apesar do acesso avançado, apesar da escuta qualificada, apesar de tudo;
21) Um adolescente preocupado com as dores de cabeça inabituais que tem sentido;
22) Uma senhorinha que vem te entregar um pedaço de bolo e um caldo de cana, por causa daquela vez que você usou umas agulhinhas para tirar a dor de seu braço e também trouxe receitas pra renovar;
23) Um jovem que teve relações desprotegidas e está preocupado;
24) Uma senhora de 71 anos, vem renovar as receitas da polifarmácia. Está contente pois a medicação está funcionando;
25)Uma agente de saúde da unidade, que anda sentindo umas dores no peito meio estranhas quando fica muito nervosa ou faz esforços físicos;
26)Uma criança de 8 meses com falta de ar, que chega 1h30 antes do expediente acabar, mas é atendida e sai 100%, a mãe precisa de orientações quanto a outros sinais de gravidade e o que fazer e como;
27)Mais um moço que precisa de renovação de receita;
28) Uma senhora com a perna quebrada que necessita de uma carta à perícia;
29) Uma senhorinha aposentada que veio perguntar se os exames vão demorar muito. Ela vai contar, quando questionada sobre como anda a sua vida, que o neto andou batendo nela e que vai ao centro de Saúde porque ali tem apoio e se sente ouvida;
30) Outra mulher com dores nas costas;
31) Outro homem, com dor de garganta e febre há 4 dias;
32)Sua própria dor de cabeça que surgiu há duas horas e meia e só está piorando.
Nunca, JAMAIS, reduza esse dia a “32 atendimentos”. E nunca afirme que não foi complexo. Cada pessoa é um universo e lidar com gente é a coisa mais complexa que existe.
Médicos da atenção básica, vocês são essenciais!♡
* Bruna:
Oi!

Eu ainda sou estudante da graduação em medicina, mas nutro um amor imensurável pela medicina de família e de vez em quando compartilho textos que escrevo inspirados pelas minhas vivências com ela – seja em algum estágio, em alguma visita ao centro de saúde ou indiretamente, conversando com conhecidos.

Posso enviar uns textos mesmo assim?
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Quer enviar o seu também?
causosclinicos@gmail.com
Fb: causoslinicos
Instagram: Causos clinicos

A importância da palavra

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Por Lucas Gaspar Ribeiro

Consulta 1

Primeira consulta de um recém-casada nascido, estava mais amarelo que a camisa da seleção brasileira. Pergunto se está tomando banho de sol? (Instrução dada na 1a consulta de enfermagem para todos os pais..)

– Está sim Dr, todos os dias, 30 minutos por dia de manhã, somente esses dois últimos dias que está chovendo que não consegui dar o banho de sol (fala do pai, reforçado pela mãe – uma bela visão de um casal jovem assumindo o cuidado juntos…).
A consulta se segue, e no meio dela, o pai pergunta.
– Mas doutor, me diz uma coisa, quando a gente dá banho de sol nele é preciso tirar a roupa dele? Porque estamos dando banho de roupinha mesmo…
Consulta 2
Primeira consulta de pré-natal, gestante que está acompanhando no hospital por complicações ma gravidez….
– Lucas, posso tirar uma dúvida com você?
– Claro, pode dizer sim..
– Eu queria entender como que meu neném vai conseguir mamar, porque ele não vai ter nariz..
– Como assim?
– Sabe o que é, quando fizeram o ultrassom nele, não acharam o ossinho do nariz dele, aí ele vai vir sem nariz né?

Água Santa

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   Último atendimento da tarde, entra para consulta pai e filho. Trazem os capacetes no braço, proteção para a descida de moto, ladeira abaixo. O pai, aponta para o filho bem moço com a sacolinha de exames:
– Veio meu responsável comigo hoje de novo… É duro, senhora, os outros num tem vindo mais… Esse aí é o único que me toma conta.
    Ele me chama de senhora todos os dias que me vê, mesmo tendo idade para sermos avô e neta. Coisas de gente antiga, ele me diz. Todos os dias também fala com tristeza da falta de união familiar, da saudade, da respiração. Tem que ficar no batente da porta pra se sentir melhor, ver as pessoas na rua e botar ar pra dentro.
    O filho responsável mostra os exames de avaliação cardíaca: insuficiência de válvula, aumento das câmaras, hipertrofia… Queixava desde o início do ano de abafamento no nariz e entupimento no cérebro. Urina solta, uma falta de vontade de comer e inchação nas pernas. Eletrocardiograma alterado, iniciamos medicação no mês passado. O cansaço do dia-a-dia permanece, mas tem conseguido capinar a frente da casa. Ainda bem, ufa! Digo que precisamos ajustar alguns remédios que vão ajudar o coração funcionar melhor.
     Hoje acha que está mais esquecido que o normal e o bendito entupimento no cérebro etá pior, desceu pro peito! Pergunto em que rua mora e em que cidade estamos. Me conta que tem saudades de Água Santa, desde que veio morar em Vila Isabel. Peço pra me dizer em que mês e dia estamos e me conta que amanhã vai fazer aniversário e, finalmente, o resto da filharada vai se encontrar. O ar tem faltado, mas amanhã vai valer o esforço…
Já que ele tem estado esquecido, falo 3 palavras e peço para ele guardar na cabeça:
– Senhora, tem coisas que a gente não esquece não…
   Deixo a triagem de demência de lado:
– E o quê que tá na cabeça do senhor?
    O olho mareja… A ex esposa que ficou lá em Água Santa.
– Nunca pedi perdão pra ela.
    Conta o que nunca tinha contado pra ninguém. Fala que o perdão é mais pra quem pede do que pra quem dá e que agora, com 85 anos, tem medo de não ter tempo mais pra nada. Tem medo do coração falhar na hora, tem medo do ar faltar, tem medo de não saber. Me pergunta se o remédio que eu mudei vai fazer ele sentir mais amor.
Eu pergunto o que ele acha de visitar Água Santa no domingo.
O filho sorri:
– O entupimento deve até melhorar…

A fórmula secreta

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Por Carol Reigada

Rio de Janeiro, Clínica da Família.

Uma jovem de 16 anos adentra o consultório com o nariz vermelho e fungando.

Médica de família e comunidade a aguarda para a última consulta da manhã, sala de espera quase vazia.

– Olá, como posso te ajudar?

– Doutora, peguei o resfriado que tá pegando todo mundo.

– Tadinha, esse resfriado tá derrubando mesmo. Que você está sentindo?

– Ah, o que todo mundo tá sentindo: corpo arriado, nariz entupido, escorrendo, dor de cabeça.

– Febre, falta de ar?

– Nada disso.

– Então temos que esperar passar e repousar. Podemos usar uns remédios pros sintomas, mas o repouso melhora isso rapidinho.

– Doutora, é que eu tô em semana de provas e acabei de começar no Jovem Aprendiz, não queria faltar, sabe?

– Entendo, mas a gente não escolhe doença, né? Eu te dou atestado pra mostrar, junto com o remédio.

– Doutora, a senhora não pode me dar… ( e aí ela se aproxima e fala num sussuro) o remédio dos médicos?

– Que remédio dos médicos?

– Você sabe, o que vocês tomam para não ficar doentes.

 

Essa me pegou. Fiquei um tempo parada, pensando. Resolvi arriscar:

 

– Seria um remédio que médico toma para não pegar as doenças de quem atende?

– Isso. Eu sei que não sou médica, mas eu estou mesmo precisando.

– Entendi. É que não existe esse remédio do médico

– Não?

– Não, a gente fica doente também. Às vezes mais que pessoas de outras profissões, porque a gente fica em contato com várias dessas doenças, tipo o resfriado.

– Eu tinha certeza que existia um remédio de médico

– Não, prometo que não. Nossos remédios são os mesmos que os seus.

Até hoje tenho dúvidas se ela acreditou em mim.