Sobre o Básico e o Essencial

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Por Bruna Barreto*
1) Uma mãe que viu o filho se afundar nas drogas e ser assassinado e agora está em depressão;
2) Um senhor com seus lá 60 e poucos anos que viu umas manchinhas aparecerem pelo corpo e quer saber o que pode ser;
3)Uma trabalhadora braçal com “dor nas ancas”;
4)Outra trabalhadora braçal, com as pernas inchadas;
5)Um homem estressado no trabalho que vem à procura de um atestado por conta da terrível dor de cabeça, mas que na verdade quer uma mudança de vida;
6)Outra trabalhadora braçal, com “esporão nos pé” que dói uma dor que não passa com nadinha nadinha;
7)Uma adolescente que anda meio isolada, meio triste, sem vontade de viver, acha que podia abandonar tudo de uma vez que nem faria diferença;
8)Um senhorzinho que vem perguntar porque que o grupo de educação física não estava ali naquele dia, que precisa fazer os exercícios e na rua dele não dá por causa da criminalidade;
9)Um outro senhorzinho, diabetes descompensada, pressão alta, dificuldade pra respirar à noite, não vê efeito nos remédios;
10) Uma mulher de 27 anos que vem pedindo o check up porque a avó de 84 anos faleceu há uma semana e isso a assustou terrivelmente;
11) Uma mulher de 42 que vem pedindo a renovação da receita de antidepressivos. Tentou suicídio há uma semana, mas não era pra ninguém nem saber disso;
12)Uma mulher de 64 que veio pra conversar;
13)Um jovem, traficante, está com resfriado mas quer ser atendido antes de todos e quer todos os exames;
14) Uma mãe preocupada com a febre do filho;
15) Uma mulher grávida que vem para o acompanhamento da gestação, está feliz e realizada e sem intercorrências;
16) Outra mulher grávida, que não sabe que está grávida ainda porque sempre usou preservativos, mas acha que está com algum tipo de câncer por que a menstruação não desceu e anda meio enjoada;
17) Um homem preocupado porque acha que o filho é gay e acha que ser gay é doença;
18) Uma mulher de 37 anos que já está na segunda linha de terapia antirretroviral sem sucesso, sente-se mal e amaldiçoada;
19) Uma mulher de 24 anos, veio pois está com uma fratura. Mente pra você e pra todos os outros que foi um acidente doméstico, mas na verdade foi o namorado;
20) Uma criança com dor de ouvido, levada pelo pai preocupado que não quer perder o emprego, mas já é a quarta infecção do filho nesse ano e teve que esperar um tempão pra ser atendido – apesar do acesso avançado, apesar da escuta qualificada, apesar de tudo;
21) Um adolescente preocupado com as dores de cabeça inabituais que tem sentido;
22) Uma senhorinha que vem te entregar um pedaço de bolo e um caldo de cana, por causa daquela vez que você usou umas agulhinhas para tirar a dor de seu braço e também trouxe receitas pra renovar;
23) Um jovem que teve relações desprotegidas e está preocupado;
24) Uma senhora de 71 anos, vem renovar as receitas da polifarmácia. Está contente pois a medicação está funcionando;
25)Uma agente de saúde da unidade, que anda sentindo umas dores no peito meio estranhas quando fica muito nervosa ou faz esforços físicos;
26)Uma criança de 8 meses com falta de ar, que chega 1h30 antes do expediente acabar, mas é atendida e sai 100%, a mãe precisa de orientações quanto a outros sinais de gravidade e o que fazer e como;
27)Mais um moço que precisa de renovação de receita;
28) Uma senhora com a perna quebrada que necessita de uma carta à perícia;
29) Uma senhorinha aposentada que veio perguntar se os exames vão demorar muito. Ela vai contar, quando questionada sobre como anda a sua vida, que o neto andou batendo nela e que vai ao centro de Saúde porque ali tem apoio e se sente ouvida;
30) Outra mulher com dores nas costas;
31) Outro homem, com dor de garganta e febre há 4 dias;
32)Sua própria dor de cabeça que surgiu há duas horas e meia e só está piorando.
Nunca, JAMAIS, reduza esse dia a “32 atendimentos”. E nunca afirme que não foi complexo. Cada pessoa é um universo e lidar com gente é a coisa mais complexa que existe.
Médicos da atenção básica, vocês são essenciais!♡
* Bruna:
Oi!

Eu ainda sou estudante da graduação em medicina, mas nutro um amor imensurável pela medicina de família e de vez em quando compartilho textos que escrevo inspirados pelas minhas vivências com ela – seja em algum estágio, em alguma visita ao centro de saúde ou indiretamente, conversando com conhecidos.

Posso enviar uns textos mesmo assim?
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A importância da palavra

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Por Lucas Gaspar Ribeiro

Consulta 1

Primeira consulta de um recém-casada nascido, estava mais amarelo que a camisa da seleção brasileira. Pergunto se está tomando banho de sol? (Instrução dada na 1a consulta de enfermagem para todos os pais..)

– Está sim Dr, todos os dias, 30 minutos por dia de manhã, somente esses dois últimos dias que está chovendo que não consegui dar o banho de sol (fala do pai, reforçado pela mãe – uma bela visão de um casal jovem assumindo o cuidado juntos…).
A consulta se segue, e no meio dela, o pai pergunta.
– Mas doutor, me diz uma coisa, quando a gente dá banho de sol nele é preciso tirar a roupa dele? Porque estamos dando banho de roupinha mesmo…
Consulta 2
Primeira consulta de pré-natal, gestante que está acompanhando no hospital por complicações ma gravidez….
– Lucas, posso tirar uma dúvida com você?
– Claro, pode dizer sim..
– Eu queria entender como que meu neném vai conseguir mamar, porque ele não vai ter nariz..
– Como assim?
– Sabe o que é, quando fizeram o ultrassom nele, não acharam o ossinho do nariz dele, aí ele vai vir sem nariz né?

Água Santa

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   Último atendimento da tarde, entra para consulta pai e filho. Trazem os capacetes no braço, proteção para a descida de moto, ladeira abaixo. O pai, aponta para o filho bem moço com a sacolinha de exames:
– Veio meu responsável comigo hoje de novo… É duro, senhora, os outros num tem vindo mais… Esse aí é o único que me toma conta.
    Ele me chama de senhora todos os dias que me vê, mesmo tendo idade para sermos avô e neta. Coisas de gente antiga, ele me diz. Todos os dias também fala com tristeza da falta de união familiar, da saudade, da respiração. Tem que ficar no batente da porta pra se sentir melhor, ver as pessoas na rua e botar ar pra dentro.
    O filho responsável mostra os exames de avaliação cardíaca: insuficiência de válvula, aumento das câmaras, hipertrofia… Queixava desde o início do ano de abafamento no nariz e entupimento no cérebro. Urina solta, uma falta de vontade de comer e inchação nas pernas. Eletrocardiograma alterado, iniciamos medicação no mês passado. O cansaço do dia-a-dia permanece, mas tem conseguido capinar a frente da casa. Ainda bem, ufa! Digo que precisamos ajustar alguns remédios que vão ajudar o coração funcionar melhor.
     Hoje acha que está mais esquecido que o normal e o bendito entupimento no cérebro etá pior, desceu pro peito! Pergunto em que rua mora e em que cidade estamos. Me conta que tem saudades de Água Santa, desde que veio morar em Vila Isabel. Peço pra me dizer em que mês e dia estamos e me conta que amanhã vai fazer aniversário e, finalmente, o resto da filharada vai se encontrar. O ar tem faltado, mas amanhã vai valer o esforço…
Já que ele tem estado esquecido, falo 3 palavras e peço para ele guardar na cabeça:
– Senhora, tem coisas que a gente não esquece não…
   Deixo a triagem de demência de lado:
– E o quê que tá na cabeça do senhor?
    O olho mareja… A ex esposa que ficou lá em Água Santa.
– Nunca pedi perdão pra ela.
    Conta o que nunca tinha contado pra ninguém. Fala que o perdão é mais pra quem pede do que pra quem dá e que agora, com 85 anos, tem medo de não ter tempo mais pra nada. Tem medo do coração falhar na hora, tem medo do ar faltar, tem medo de não saber. Me pergunta se o remédio que eu mudei vai fazer ele sentir mais amor.
Eu pergunto o que ele acha de visitar Água Santa no domingo.
O filho sorri:
– O entupimento deve até melhorar…

A fórmula secreta

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Por Carol Reigada

Rio de Janeiro, Clínica da Família.

Uma jovem de 16 anos adentra o consultório com o nariz vermelho e fungando.

Médica de família e comunidade a aguarda para a última consulta da manhã, sala de espera quase vazia.

– Olá, como posso te ajudar?

– Doutora, peguei o resfriado que tá pegando todo mundo.

– Tadinha, esse resfriado tá derrubando mesmo. Que você está sentindo?

– Ah, o que todo mundo tá sentindo: corpo arriado, nariz entupido, escorrendo, dor de cabeça.

– Febre, falta de ar?

– Nada disso.

– Então temos que esperar passar e repousar. Podemos usar uns remédios pros sintomas, mas o repouso melhora isso rapidinho.

– Doutora, é que eu tô em semana de provas e acabei de começar no Jovem Aprendiz, não queria faltar, sabe?

– Entendo, mas a gente não escolhe doença, né? Eu te dou atestado pra mostrar, junto com o remédio.

– Doutora, a senhora não pode me dar… ( e aí ela se aproxima e fala num sussuro) o remédio dos médicos?

– Que remédio dos médicos?

– Você sabe, o que vocês tomam para não ficar doentes.

 

Essa me pegou. Fiquei um tempo parada, pensando. Resolvi arriscar:

 

– Seria um remédio que médico toma para não pegar as doenças de quem atende?

– Isso. Eu sei que não sou médica, mas eu estou mesmo precisando.

– Entendi. É que não existe esse remédio do médico

– Não?

– Não, a gente fica doente também. Às vezes mais que pessoas de outras profissões, porque a gente fica em contato com várias dessas doenças, tipo o resfriado.

– Eu tinha certeza que existia um remédio de médico

– Não, prometo que não. Nossos remédios são os mesmos que os seus.

Até hoje tenho dúvidas se ela acreditou em mim.

Sobre criança, teimosia emuito mais além

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Por Mônica Lima  

 Uma das coisas interessantes na Estratégia de Saúde da Família é que, a medida que a gente se aprofunda na comunidade, os casos se tornam ainda mais profundos porque nossa visão sobre ele é muito maior do que meramente clínica, de um encontro fútil de consultório, ele rasga a pele e adentra as entranhas até do relacionamento familiar e comunitário.

   E quando a mãe leva a criança para atendimento dizendo que a professora não aguenta mais pois ela é desafiadora e não leva desaforo para a casa, é você confronta a mãe e pergunta se ela esperava que fosse diferente do jeito dela mesmo de levar a vida. Sabendo que a mãe, mesmo é aquela que provoca a vizinhança, que ameaça os professores, que chama para a briga física quem olha de maneira “torta” para ela. E nessa constatação você pode, com propriedade e conhecimento, direcionar a atenção para a forma como ambas enfrentam suas dificuldades, fazer propostas de mudança de comportamento.

   Ou outra criança que na mesma semana vem com a mesma queixa porém, de uma mãe que é contida demais, porém, em seu trabalho que as pessoas têm a capacidade de achar ainda que é uma “vida fácil” traz confusão e insegurança para o filho fazendo com que ele fique agitado, agressivo e que diz que quando se sente “humilhado”, partir para cima. Me conta um exemplo de o que é ser humilhado (eu pergunto), ele responde: por exemplo quando uma amiguinha pediu para ele sair de um determinado lugar. Ele foi com chutes e pontapés sobre ela. O olhar da mãe é perplexo diante de tanta irritabilidade do menino, mas também desconhece que todo o processo da vida dela possa pesar sobre o filho de alguma forma. O menino tem pesadelos, range os dentes, é sonambulo e a mãe e a professora não entendem porque ele dorme na sala de aula. No consultório,  o momento é de trazer a luz à base desses sintomas, pegar a raiz do problema, entender os sentimentos que são a fonte desses sofrimentos, porque fatos não nos faz sofrer, o que nos faz sofrer e adoecer são os sentimentos gerados por ele.

   Penso se isto seria possível em uma consulta de 5 minutos, ou se é possível ser feito por um sistema que entende que precisa ficar mudando o profissional de lugar e impede qualquer possibilidade de vínculo e de longitudinalidade. Vê a arte da profissão em saúde como automatizada e técnica apenas. Mas, ser profissional de saúde da família vai além desses limites, além das 4 paredes, além do exame físico, ele trespassa o paciente em seu passado e presente, em seus pensamentos e sentimentos, no que o tira de uma situação de equilíbrio transitório que a gente chama de saúde para uma perturbação que a gente chama de doença.

Eu não durmo no hospital

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Por Maira Beatriz Carrozza*

Eu não trabalho no hospital 24 horas por dia, na verdade, minha carga horária dentro de um pronto socorro não ultrapassa 12 horas por semana.

Embora eu tenha sim passado algumas noites no hospital, na maioria dos dias eu durmo no conforto da minha cama.

Não quero desmerecer meus colegas que passam longas horas exaustivas no turbulento ambiente de uma emergência, na verdade tudo isso faz parte do cuidado da uma rede de saúde.

E por falar em rede de saúde, vou pedir licença a esses colegas para focar no nível de atenção primária. Para os leigos ou os não tão leigos assim, quando se fala em níveis de saúde, tem-se a divisão: atenção primária, atenção secundária, atenção terciária. De uma forma bem sucinta e prática, a atenção primária é responsável por toda parte de prevenção e cuidado integral do indivíduo, sendo ela representada pelas estratégias de saúde da família.

É numa dessas aí que eu trabalho. Aprendendo sempre que cada um que eu atendo é único. Tem seus sintomas, seus próprios entendimentos e sentimentos sobre aquele sintoma. Está inserido numa família única que faz parte de uma comunidade única, com características territoriais e epidemiológicas particulares.

E, apesar de eu não trabalhar integralmente em um hospital, muitas vezes eu vou no hospital visitar meus pacientes que precisaram ser internados. Divido com eles a angústia de sair do conforto do cantinho deles que é tão deles mesmo.

Eu não tenho uma rotina exaustiva dentro de um pronto socorro, mas em todas as minhas consultas eu falo com meus pacientes sobre a exaustão e a angústia que eles têm de se sentirem doentes.

Eu não durmo no hospitalEu, na maioria das vezes, tenho o conforto da minha cama pra dormir. E todos os dias quando deito, penso nas peculiaridades de cada um que atendi, com seus sentimentos, suas limitações, suas vontades e dificuldades… e sei, que pelo menos um pouquinho, fiz a diferença no dia de alguém. Mas eles… ah, eles fazem toda diferença pra mim!

E com todos esses pensamentos, pego no sono.

 

  • Maria Beatriz é residente do 1 ano de MFC em Puso Alegre e compartilhou com  o blog seu Causo. Caso queira também compartilhar o seu causo, envie para causosclinicos@gmail.com
  • Também estamos no Fb e no Insta!

Livro Causos

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É com grande satisfação que o Causos Clínicos lançou seu livro em outubro de 2018.

Ele está com 50 Causos selecionados pelo grupo, que representam a complexidade e a beleza da Medicina de Família e Comunidade e seus percalços como graduando, residente, médico e equipe.

O cuidar da pessoa também é cuidar da equipe, cuidar dos profissioanis, cuidar de quem cuida e o livro permite que avançemos nesse caminho.

Também é uma forma de compartilhar e alcançar a nossa especialidade outros espaços e campos, levando a mesma para o conhecimento dos mais diversos públicos.

Caso queira adquirir um livro, pode encomendar pelo e-mail, ou fazer o depóstio e enviar o comprovante para causosclinicos@sbmfc.org.br

Grupo Causos Clíncios