Comunidades

qwe

Por Walter Costa

 

Na realidade

urbano-rural

de encontros

e desencontros

os desapegos

centrados

nas pessoas

(de eus e tus…)

contigenciam

fatos e relatos

em sutis narrativas

de ciclos de vida.

Em milhões de vozes

vorazes,

de sentir

e saber,

a escuta

espontânea

ou não

de uma obnubilada

resiliência

sobrepujam

medos

e anseios,

na acessibilidade

inata

de familiares

rodas de conversas.

Em multicoloridas

portas

de entradas

e saídas,

fácies

empáticas

de plurimultidões

projetam

integrais expectativas,

longitudinalmente

nas matrizes

ímpares

dos cuidados

compartilhados.

Na escuta qualificada

de singulares

olhares,

mapas,

de ruas

e artérias,

delineiam

as necessidades

solitárias

e

coletivas

de sonhos

e perspectivas

no dinamismo

migratório

de indivíduos

e comunidades.

Duca Costa

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Pelo Amor de Deus passe um remédio para dormir

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Por Arthur Fernandes
Dona I. vinha há umas consultas tentando controlar a pressão. Depois, suspeitamos de diabetes. Mora sozinha. Vez ou outra reclamava de familiares. Nunca esquecia o “remédio do doutor”. Até que esqueceu o dia de colher sangue pro exame. E os remédios naquela semana. E aí veio a dor de cabeça, além da falta de sono…
– A senhora tava bem, né, dona I.? Vinha controlando a pressão direitinho… Que será que houve?
– Preocupação, doutor.
– Eita. E com o quê?
– Ah, o senhor sabe. As coisas da vida. A cabeça da gente fica cheia de coisa.
(uma filha, atrás dela, começa: é não,
é o neto, doutor!)
– O neto, dona I.? Ele já não tinha ido morar em outro lugar?
– Eu criei esse menino desde sempre, ele sempre viveu comigo e meu velho. No dia que meu velho morreu ele disse: mulher, toma de conta desse menino, dá conselho a ele. E eu dou. Vivo dando conselho. Dou conselho de manhã, depois do almoço e antes de deitar. Mas ele não escuta!
– Tô entendendo… Aí ele não escuta, a senhora se aperreia… É por medo?
– É demais! Passo a noite pensando se no outro dia ele vai viver. Só vive com companhia errada. Já foi preso. Já teve gente querendo matar ele. Essa semana vi o galo cantar todo dia!
– E o remédio vai ajudar, será?
– Oxe, num vai fazer eu dormir?!
– Vai, vai sim. Mas não vai tirar preocupação. E não vai abrir os ouvidos do seu neto.
– Pelo menos eu prego o olho!
– Pode ser. Queria saber é se a senhora vai pregar mesmo o olho, sabendo que no outro dia vai acordar pra se aperrear do mesmo jeito. Será que vai?
– Ai, doutor. É tão difícil. Eu tive 12 filhos e nenhum nunca me deu trabalho. Já esse neto, só Jesus!
– A senhora teve 12, né? Fez tudo por eles, como mãe?
– Fiz. E na roça!
– E por que não deixar a mãe dele cuidar dele também?
– Porque eu fico pensando o tempo todo nele!
– Não tem problema. Mas vamos combinar uma coisa?
– O que é?
– Quando pensar nele, pense na mãe dele também, e como eles precisam se cuidar. E que além da senhora, tem Jesus pra cuidar e carregar eles. A senhora já carregou 12. Jesus pode carregar todos nós, né não?
– É mesmo. Jesus vai dar meus conselhos a ele. E eu vou pregar o olho!
– Coisa boa!

Um lugar cinematográfico

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O consultório do médico de família é um lugar cinematográfico..

O paciente entra com dor de cólica menstrual e sai conversando sobre o último filme do star wars…

Onde mais isso pode ocorrer? Qual outra especialidade ou espaço que o médico é além de cuidador um confidente, amigo e “responsável” por discutir coisas da vida, do dia a dia.. do que a gente quiser, como filmes e livros?

Sim, a medicina de família me encanta a cada encontro e desencontro, porque também tem cinema em consultório..

Pós operatório

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Por: Felipe Monte Cardoso*
– Hoje, doutor, o que mais preciso é um raio x de coluna. É para o pós-operatório.

Desta vez foi direto, embora eu previsse ser um encontro truncado. Domingos tem estilo sinuoso e, naquele dia, percebi a sua semelhança física com José Saramago. Ele me fascina por me incorporar à faceta sobrenatural do seu cuidado. O pós operatório, saberia em seguida, era de uma cirurgia espiritual.

   Ele percebe minha perplexidade e apenas aos poucos revela sua magia. Já me prognosticou como filho do homem da pedreira. Sua preocupação maior hoje, no entanto, coincide com a minha: uma imagem estranha e suspeita no ultrassom. Recua fazendo uma prescrição dos benefícios da terapia extramundana e se coloca à minha disposição para intermediar o contato com o além. Descreve minuciosamente a preparação para a cirurgia, a competência do responsável pelo procedimento e sua fama crescente pelo Rio de Janeiro, que desbanca nomes bastante conhecidos. Como são todos estranhos para mim, ele nota meu enfado. Domingos tenta afastar o medo de câncer com esta longa digressão, e eu tento interrompê-lo para que a consulta volte a seu curso normal.

  Ele não abdica do protagonismo e prossegue dizendo que tenho poderes e que serei um futuro cirurgião espiritual após meu passamento. Fico entre lisonjeado e desconfortável com a ideia da minha morte. Após instantes imaginando minha futura carreira de cirurgião, retomo a consulta, abrindo a porta para outras queixas sem relação aparente com o procedimento recém-realizado. Minha impaciência cresce na medida da exuberância dos seus sintomas. Então ele retoma o pedido de raio x.

   Peso os prós e contras. Por um lado, a missão de não medicalizar. Por outro lado, era inegável que já era um recurso daquele cuidado transcendental. Fantasiei que era parte do meu aprendizado para a futura carreira e decidi solicitar. O que faz a vaidade, pensei com uma ponta de remorso. Mas meditei que minha curiosidade e minha posição de antropólogo improvisado por fim justificavam o exame.

   Começou então o tiroteio, que durou poucos minutos e provocou um princípio de pânico. Neste pedaço da cidade não costumava haver tantos tiroteios, e nossa clínica nunca havia fechado até aquele dia. Domingos se manteve altivo e nos tranquilizou dizendo que estava longe.

  Após me exasperar, percebi que trabalhar me manteria no prumo, e pedi os exames que considerava necessários, além da radiografia. Cortesmente, liberei Domingos e terminava o registro da consulta quando ele retornou ao consultório me pedindo outra radiografia, desta vez para o estômago. Ele disse que sua dor de estômago atual, muito intensa, foi idêntica à úlcera, diagnosticada 40 anos antes com um raio x. Desta vez, tive êxito em despachá-lo com rapidez postergando este pedido para a próxima consulta. Estava ficando atordoado com o barulho do corredor, que fervia com uma carga extra de estudantes, além dos pacientes. Mais tiros, desta vez próximos, e duas granadas, mais distantes, foram o suficientes para provocar certo terror.

   Sentia minha cabeça girar. Dei um gole no mate e busquei me recompor, quando bateu à porta uma jovem de branco que nunca tinha visto. Ela tinha uma voz serena e pedia que a acompanhasse para a sala de observação, onde havia um paciente passando muito mal do estômago. Quando abri a porta, Domingos estava com os olhos fechados, talvez inconsciente, e muitas pessoas de branco me esperavam com grande expectativa. Não vi sinal de sangue no corredor, e ninguém soube me explicar o que acontecia.

*Felipe é médico de familia e preceptor do programa de residência médica na SMS do Rio de Janeiro.

Sabonete para Cachorro

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Por Raquel Barreto Alencar (Médica de Família e Comunidade SES-DF)

Chamo o próximo paciente.
– Que a paz de Deus esteja com você.
Assim, ele me cumprimentou.
– Bom dia! Então, Francisco, o que traz o senhor aqui hoje?
– Estou com uma coceira aqui nesse braço. Já usei uns remédios que um médico passou, mas não resolveu não.
– Você sabe quais foram os remédios que usou?
– Não lembro o nome. Será que posso usar sabonete de cachorro para curar sarna?
Não dei muita atenção para aquela pergunta, pois estava anotando as informações que ele me passava.
Passei a examiná-lo e então constatei uma mancha que sugeria sarna mesmo. E durante o exame ele insistia com a ideia do sabonete de cachorro.
– Francisco, então, parece que você está com sarna mesmo. Mas, a pele do cachorro não é igual a nossa e pode não ser adequado usar esse sabonete.
– Sabe o que é doutora? É que eu estava morando na rua, e na rua a gente é tratado como cachorro e dorme com cachorros também.
Uma sensação de tristeza me invadiu.
Ele então me disse:
– Obrigada por me lembrar que eu não sou um cachorro e fazer me sentir um pouco gente.
Quando um paciente insiste com alguma ideia, é bom a gente escutar com cuidado, pois pode ter muito mais a nos dizer do que podemos imaginar.

Dona Maria

 

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Por: Jéssica Frutuoso

 

   Conheci dona Maria 1 ano e meio após seu estupro. Após o dia que haveria de mudar sua relação consigo mesma e com os outros de uma forma devastadora. Ela não olhava nos olhos e insistia em ter alguma doença que não podia ser identificada por exames médicos. Não conseguia estar sozinha com nenhum homem e o toque masculino lhe causava um pânico desesperador, mesmo que fosse a tentativa de abraço de um irmão querido. Após alguns encontros ela me revelou o terror daquele dia. Ela estava pronta pra contar, até hoje me pergunto se eu estava pronta pra ouvir. A lembrança das suas memórias me fazem querer vomitar até hoje.

   Dona Maria se recusava a compartilhar essa história com qualquer outra pessoa, incluindo outros profissionais de saúde. Por diversas vezes me perguntei como poderia ajudá-la sozinha. Iniciamos acompanhamentos semanais e a cada encontro mais eu tinha certeza que só tinha meus ouvidos e meu abraço para acolhê-la. Em alguns momentos choramos juntas, dividíamos aquela dor que era tamanha e que transbordava, que tinha nascido numa vida cheia de preconceitos e maus tratos por ser mulher, negra e pobre, passado por violência doméstica e “terminado” no estupro por um desconhecido.

  Foram mais de 2 meses de encontros semanais até que ela conseguisse ir a um dos centros de referência em atendimento à mulher que sofre violência. Foi uma conquista que parecia quase impossível. Dona Maria finalmente conseguiu compartilhar suas histórias com outras pessoas e permitiu que o círculo de cuidados se ampliasse. Antes de ir perguntou se eu continuaria cuidando dela. Garanti que continuaríamos nossos encontros semanais até que nos sentíssemos confiantes em distanciar mais nossas conversas.

   Um dia desses conversamos sobre prazer. Ela havia começado a voltar a sentir desejos. O sono que antes era permeado de pesadelos com relação ao estupro, começou a permitir a presença de sonhos eróticos que lhe traziam bem estar. No último encontro foi bonito ver dona Maria, 52 anos, descobrir, mesmo após tanta violência, as possibilidades de prazer que o nosso corpo pode nos dar. Ver sua libertação, sua curiosidade em descobrir regiões suas que ela nunca havia se permitido tocar. Dona Maria disse que se sentia mais mulher. Estava no consultório de cabelos pintados, me olhando nos olhos, me dizendo que estava se valorizando e se sentindo valorizada, me enchendo de orgulho. Dona Maria me mostra mais uma vez o quanto o ser humano é potente. O quanto somos capazes de ressignificar até as mais terríveis violências. O quanto não posso desistir nem de mim, nem do outro nessa tentativa contínua de “ser melhor”.

   O estupro engoliu 2 anos da sua vida, vai permanecer sendo uma violência presente sempre em seu coração, mas dona Maria hoje conseguiu se fortalecer, viver e se permitir tentar ser feliz apesar dele. A violência contra mulher é real, é danosa, mata. Quando não tira a vida, mata em vida. São milhares de donas Marias espalhadas pelo mundo. Que a gente consiga estar sensível a essa causa, dispostos sempre a acolhê-las. É preciso estar atento e forte para continuar na luta contra o machismo e a favor dos direitos e da vida das mulheres.

   Hoje deixo aqui meu viva às donas Marias, às mulheres desse mundão que pra mim são o estereótipo de força e beleza que há nessa vida.

Quebra-cabeças…

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Por Lucas Gaspar Ribeiro

     A.C., paciente de 74 anos, 4 infartos agudos do miocárdio e 2 acidentes vasculares cerebrais prévios, mas pasmem… sem nenhuma sequela desse quadro! Contudo sua valvopatia começou a demonstrar sinais de complicação, fora para a mesa cirúrgica no final de agosto, às pressas, teve uma parada cardiovascular no intra-operatório, fez correção valvar e ponte safena. Ufa, saiu vivo. Dias depois, sofre novo AVC, mas agora ficou com sequelas motoras a esquerda (entrou no hospital apenas com uma dorzinha no peito e saiu acamado, o que se passa na cabeça dele??).

Mais de um mês internado, feridas operatórias complexas, infecção hospitalar, diversos antibióticos…

Volta para casa, “mudou-se” do quarto para a sala, do banheiro de dentro para um puxadinho na garagem. “É mais fácil doutor, assim a cadeira de rodas entra e sai”, conta a esposa…

A.C está cabisbaixo, fala pouco, mais deitado…. Entristecido…

– Imagino, com tudo o que ocorreu, é muito difícil voltar novo não?…

Esposa reclama – Doutor, ele não dorme, fica agitado a noite, quer levantar, fica me atrapalhando. Será que não tem um remedinho para ele sossegar. Lá no hospital eles davam um remedinho….

E eu sei bem qual é esse remedinho e como deve ser cansativo para ele, para a senhora, para todos essa agitação do novo acamado né.. De repente, está preso o A.C., sem nem poder ir ao banheiro sozinho…, sem gastar toda sua energia, sem ver outros rostos, outras pessoas, quem não perderia o sono??

Ofereço um remedinho um pouco diferente do que ela queria, que vai ajudar a acalmar quando estiver confuso, desorientado… mas não todos os dias… por favor..

A equipe olha tudo aquilo, vê e não faz nada, além de curativos e orientações.. como são técnicos, como tem o olhar pra ferida.. mas a ferida não está na pele gente, a pele apenas está mostrando algo mais a fundo…

Voltei 15 dias após, infelizmente não pude ir na semana seguinte. Já dormia melhor, estava mais, calmo, conseguia sentar na cama. Olha que beleza, mais ativo.. menos cabisbaixo.

Colocaram 2 quebra-cabeças na mesa da garagem.

Logo falo:Vamos montar, vamos treinar essa mão parada, vamos sair dessa cama… Com ajuda, aos poucos.. dia a dia.. o sorriso irá voltar… disso eu tenho certeza..

Porque montar quebra cabeças também é algo técnico, da saúde.. da recuperação, do passatempo da alegria do A.C…