Claudete

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Por Marina Galhardo

    Falava sem parar, ansiosa de si e do outro. As dores no corpo todo lhe afligem mais por não ter explicação, nem perspectiva.
   Alguém disse que um tipo tal do seu colesterol estava alto demais e que aquilo era grave e ela podia ter outra parada cardíaca se não tomasse o tal remédio, que ela não podia comprar. Agarrou na esperança de uma nova opinião.
   A verdade é que não tinha dinheiro, nenhum ou muito pouco. Pôs-se a falar dos porquês de sua recente miséria. O marido tinha câncer. É, a vida era cheia de atropelamentos e emaranhamentos que mal sabia contar.
   Os olhos arregalavam sozinhos com frequência de um tique-taque, eu fingia não notar. Era um tique que se exacerbava na ânsia de ser ouvida, como nunca antes.
   Falei suave e baixo, bem devagar, para diminuir a ansiedade dela e não tomá-la para mim. É um controle imenso isso. Não Dona Claudete, a senhora não vai precisar tomar esse remédio, não.
   O tique diminuiu um pouco, ela se justificou novamente, como se pedisse perdão por não ter dinheiro. E a gente fica nesses momentos pensando o que é que faz com essa pobreza tão pobrezinha, que nem sabe que a culpa não é dela exatamente.
   Insisti, não precisa não, não vai adiantar de nada, vou só te explicar algumas coisas da alimentação para que isso melhore, e a senhora vai fazendo como der, aos pouquinhos.
Ela sorriu, aliviada. Saiu curada – e sem remédio.
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Ventos de aquecer corações

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Por  Janaína Camargo*

    Era uma noite fria em minha querida selva de pedras… Os termômetros de São Paulo
marcavam até 2ºC e cinco seres humanos, feitos de carne, sangue e sonhos, como
eu, já haviam falecido nas ruas no inverno de 2016.
Foi na ponte à sombra do MASP, no Coração da Cidade, que nossos olhos se
encontraram. Eu lhe ofereci o melhor de mim: meu sorriso! … Ele aceitou.
Abaixei-me junto a ele na sarjeta recoberta de papelão. Luciano era seu nome.
Luciano Aparecido dos Santos. Deixara sua casa por ocasião de nascimento do filho:
“Por filho no mundo é responsabilidade demais, moça. Foi responsabilidade demais
pra mim!”.
Conforme ele me contava sua história, as palavras organizavam a experiência: a dele
e a minha! Aos poucos, o esforço que me demandava para compreende-lo foi sendo
substituído pela luz que fui desvendando em seus olhos. Sua luz irradiou em meu
peito, expandindo em compreensão e respeito por aquele homem.
“Muito obrigada por ter me ouvido”, disse ao final. “Sua história me tocou muito,
Luciano. Obrigada!”… “Não! É mais que isso… É que eu sei que você me ouviu!” –
Respondeu de pronto. “Sabe como sei que você me ouviu?” – Emendou. Sem
compreender, sorri levantando as sobrancelhas, buscando entendimento. “Você não
está tentando me dar a sua opinião! Quando a pessoa logo fala, é porque não estava
ouvindo… Estava pensando no que responder!”.

Texto utilizado como disparador na Roda de Conversa: Quando cuidar do corpo e da
mente já não é suficiente: o papel do Amor no Trabalho em Saúde, realizada no 14º
Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade, em 04/11/2017.

 

  • A Janaína enviou ao grupo seu causo, se quiser também compartilhar, só enviar ele para causosclincios@gmail.com

O monstro embaixo da cama

 

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Por Carol Reigada

 

Consulta por hérnia inguinal, nada mais. Havia consultado no início do ano, e estava por dentro das orientações sobre qualidade de vida, repensou o cigarro, agora quer parar de fumar. Consulta encerrando, me pergunta se pode tirar uma dúvida comigo.

“Sim?”

“Todo mundo fala que câncer a gente tem que ver cedo, né? Que não pode marcar bobeira, que se pega antes, é mais fácil de tratar, né?”

“É…geralmente, é”

“Mas também falam que câncer não dá sintoma, que é silencioso”

“Sim, no início costuma não dar sintoma mesmo”

“E tem algum exame que pega seu sangue e te diz que você não tem nenhum câncer? Ou sei lá, alguma máquina que você entra e ela te libera de qualquer tipo de câncer? Porque você vê, só o cigarro pode dar um monte de câncer”

“Não…tem alguns exames que é recomendado fazer pra procurar câncer, mas nenhum no seu caso…e nenhum que te libere de todos os tipos de câncer que existe”

“Pois é! Então bem que podiam parar de azucrinar a nossa cabeça com esse monstro de câncer, né? Só dá perturbação, não ajuda em nada!”

“Concordo plenamente com o senhor…”

Suicídio

suicidio

 

Por Carol Reigada

Setembro foi escolhido para ser pintado de amarelo e dedicado a aumentar a conscientização sobre o suicídio. Tenho pensamentos contraditórios sobre essa onda de colorir os meses com doenças. Por um lado, legal aumentar a discussão sobre o assunto, por outro, é tanta iatrogenia e tanto ganho comercial em cima disso! Por exemplo, Suécia já suspendeu as mamografias de rastreamento de câncer de mama, pois viu que mais atrapalhou que ajudou – mas a bola do último jogo da seleção brasileira (contra o Chile), era rosa, só por causa do “Outubro Rosa”. Meio ridículo, mas não é o ponto.

O ponto é o suicídio.

Médicos não lidam bem com a  “Morte”. O que é meio irracional, já que ela chega para todos nós. Mas, para os brios dos doutores, é como uma derrota. Porém, perder um paciente, um familiar, um amigo, um conhecido que se mata…Não é exatamente derrota, é um pesar que pesa desde a consciência até o coração e parece que chumba a própria alma. “Como não percebi que era tão grave? Como devia ser, sentir esse desespero e só ver a morte como saída? Eu devia ter feito alguma coisa.”

Trabalhando como médica de família e comunidade, são raras as vezes em que realmente sinto que “salvei alguém”. Afinal, não estou no serviço de emergência reanimando corações que pararam de bater, nem atendendo a acidentes pela rua, dentro de uma ambulância. Digamos que nosso “salvar” é físico e psíquico, mais a longo prazo, mais compartilhado e menos heróico, na definição “super-herói” da palavra.

Certa vez, atendemos a um senhor de 56 anos. Estava, ironicamente, com uma blusa de botão amarela, clarinha. Não era setembro, devia ser novembro. Ele veio com uma dessas queixas que te fazem respirar fundo, como “dor na ponta do dedão quando eu como alho”, ou algo assim. Mas tinha algo de profundo na forma de falar sobre sua queixa estranha, tão profundo que mereceu um olhar mais atencioso, um toque de leve na mão e a pergunta: “tem mais alguma coisa acontecendo?”.

Ah, mas tinha. Seguinte: ele ia se matar aquela noite. Comprou chumbinho e umas giletes, resolveu que se não fosse por um jeito, seria por outro. Tinha vindo uma última vez, tentar conversar. Senti o peso da responsabilidade daquela consulta. A dor na ponta do dedão, blablabla, se tornou uma tonelada na minha cabeça.

Rede social? Uma ex-mulher que ele não conseguia se livrar, um irmão que trabalha muito. Ligamos para o irmão, ele veio, conversamos. Combinamos o seguinte: o irmão foi com ele até a casa dele, e tirou tudo aquilo da casa: chumbinho, gilete, faca, corda…. Voltou com tudo para o carro dele e jogou na lixeira. Naquela noite, e em algumas seguintes, meu paciente de blusa amarela dormiu na casa do irmão.

Começamos o tratamento e as coisas foram seguindo. Ele entrou no grupo de atividade física da unidade e passava lá para “tirar a pressão” algumas vezes por semana. A vida ia correndo.

Dois meses depois, ele veio reclamar que estava rouco há uns dias, por causa de uma gripe. Duas semanas depois, e nada da rouquidão melhorar. Conseguimos uma laringoscopia que o levou direto ao INCA: câncer de laringe. A equipe ficou pra baixo, mas veja só, ele não! Consultou, tratou, operou e retornou ao grupo de atividade física. Voltou a medir a pressão de vez em quando, só pra dar um oi. Resolveu o problema com a ex-mulher. Fez novos amigos.

Esse setembro me fez pensar sobre o suicídio, e lembrei desse paciente. Foi um dos poucos que senti: “salvei”. E me fez sentir ainda mais responsável: aquele homem estava desesperado e achava que não tinha saída. Ele ia se matar. Naquele dia, não foi preciso internar, ou de uma grande tecnologia para salvá-lo. Bastou o telefone celular e a disposição do irmão. Com alguns dias, o paciente percebeu que a vida tinha mais coisas a oferecer, tinha mais saídas daquele labirinto. Nosso único trabalho foi ajuda-lo a passar por aqueles poucos dias. Para metaforizar, foi só dar a mão enquanto ele passava pelo túnel.

Pensei como teria sido se ninguém tivesse tido a sensibilidade de perguntar melhor sobre o que ele estava passando. Se ninguém tivesse ouvido. Se o irmão não tivesse intervido tão prontamente. Se ele não tivesse ido na clínica da família naquele dia.

Nós, médicos de família e comunidade, não salvamos pessoas cotidianamente. Mas não podemos nos dar ao luxo de não ter os ouvidos a postos. Nunca sabemos quando eles podem ser os heróis do dia.

O dia em que lidei com a morte pacificamente

andressaPor Andressa Paz*

“When the rain falls down / What brings it back? / Opens the resurrected cloud / From white to black / It’s a second birth / For dying skin / In my coffin…”  (My coffin – Jon Foreman)

       Estive pensando bastante sobre essa história. Talvez, para algumas pessoas, ela não seja pra lá de pacífica porque no final há uma morte. Bom, de qualquer forma, permaneço me apoiando no que o sábio falou um dia desses: “Na vida, o importante mesmo é a jornada. ”  Então, lá vou eu me aventurar na história do dia em que lidei com a morte pacificamente.

     Esse causo começa com uma jovem estudante do 4º ano de Medicina no Rio Grande do Sul indo fazer Visita Domiciliar em um pequeno município horas e horas e horas Rio Amazonas adentro. Porém, essa história não é sobre a garota (eu, prazer), mas, sobre a ocasião em que ela compreendeu o real sentido da expressão “Descanse em Paz”.

     Tudo começou com um “Olá! Bom dia, dona Chica! A gente soube lá na base que a senhora pediu para virmos até aqui ver o Seu Antônio…”, e assim começou a entrevista médica:

  • Ô, ele não tá bem. Ele nem fala mais e também não tá conseguindo andar direito. Também ele tá com fastio e não come desde o dia que ele teve aquela diarréia braba!
  • Huummm… E como foi essa diarréia, dona Chica? A senhora percebeu se ele está sofrendo ou com alguma dor? Conta um pouquinho pra gente.
  • Foi semana passada… Faz uns 5 dias desde essa vez. Ah, e era um cocô tão fedido que a gente nunca tinha visto! Só que uns dois dias atrás ele não fez mais… tá bem trancado. Olhe, mas nós tentamos alimentar esse homem… Até colocamos uma comidinha batida no canto da boca dele, usamos algodão também, mas a única coisa que ele quer é água e dormir. Estamos tentando dar os remédios que o doutor passou e umas vitaminas também. Agora ele não aparenta estar com dor, mas tamo preocupados com esse fastio.

     O Sr. Antônio, um homem idoso nos seus setenta anos, já em cuidados paliativos, estava visivelmente desidratado e desnutrido severamente… Durante o exame físico, verificamos uma hipotensão e o médico mais experiente que acompanhava a consulta constatou um Glasgow 10 ao exame neurológico. No entanto, o exame que mais chamou a atenção foi o abdominal. Quando o abdome do seu Antônio foi palpado, o rosto mostrava profunda dor. Hipótese? Provavelmente passando por um quadro de hemorragia digestiva alta. Essa hipótese se confirmava ainda mais quando olhávamos para a lista de remédios de uso contínuo dele.

     Infelizmente (ou felizmente, você decide!), a conduta médica pensada não foi totalmente aceita pela família. Primeiro, foi sugerido encaminhar seu Antônio para a próxima cidade com hospital e endoscopia disponível, onde ele poderia realizar exames confirmatórios e tratar especificamente o sangramento. Só que toda a logística de transporte e a manutenção da família junto a ele na cidade grande eram muito difíceis.

     Na verdade, mesmo se não existissem grandes problemas quanto a isso, havia um fator importante que não estávamos considerando: competência cultural. A família do senhor já havia decidido que ele teria uma morte domiciliar: “Doutores, a gente não pode mandar ele pra lá… Um tempo atrás quando ele tava melhor ele falou que se a gente ao menos tentasse mandar ele pra outro lugar que não fosse aqui ele ía vir puxar nosso pé de noite depois que ele morresse! ”

     No fim das contas, seu Antônio foi medicado com Sais de Reidratação e encaminhado, por meio de uma cartinha, ao médico da Unidade de Saúde local, nossas bem pensadas opções diante daquele cenário. Essa experiência foi bem diferente e significativa para mim. O empoderamento daquela família me chamou a atenção e comecei a pensar em como eu mesma poderia empoderar meus pais e familiares para compreender de forma tão pacífica a finitude da vida e para abraçar de vez os Cuidados Paliativos e o Home Care também. Por que, não?

     O senhor Antônio melhorou bastante no dia seguinte, após hidratação, mas depois de dois dias, durante o amanhecer, ele faleceu.

        Estive pensando bastante sobre essa história. Talvez, para algumas pessoas, ela não seja pra lá de pacífica porque no final há uma morte. Bom, de qualquer forma, permaneço me apoiando no que o sábio falou um dia desses: “Na vida, o importante mesmo é a jornada. ” Acho que a jornada do seu Antônio para a morte foi pacífica e acho também que ele não vai voltar para puxar os pés da família de noite!

Em paz,

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*Andressa Paz,

Acadêmica do 4º ano de Medicina em Lajeado – Rio Grande do Sul, co-criadora do Auscultando Estórias, um blog para compartilhar experiências em saúde, amante de Saúde Rural e futura MFC.

Pedido

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Por Rodrigo Lima

Ela tinha uns 70 e poucos anos. Chegou ao consultório pra dizer que tomava remédios para controlar a pressão, que precisava da receita deles pra poder pegar na Farmácia Popular, essas coisas. Se queixava também de dor de cabeça, sem queixas associadas, sem desencadeantes, sem fatores de alívio, aquelas dores que são apontadas na cabeça, mas parece que são na alma. Perguntei se dormia bem, se tinha uma rotina que considerava normal, se a dor atrapalhava, essas coisas. Nada de anormal.

Nessas horas eu sei que vem coisa. Sempre vem. Pedi licença pra fazer a receita dos remédios para a pressão, pra dar um tempo a ela e a mim também. Em poucos segundos ela disse:

– Doutor, tem outra coisa que eu queria lhe pedir, mas não sei se o senhor pode fazer. Se não puder, sem problemas.

É o tipo do prenúncio de um pedido de remédio pra dormir pra irmã, ou coisa do tipo. Eu sempre nego, mas me toma um tempo, e se a negativa não for cuidadosa compromete o vínculo. Não é meu momento predileto, mas tento ser atencioso ao mesmo tempo que desencorajo pedidos mais abusivos. A gente cria nossas maneiras de se defender…

– Dona Maria, se eu puder fazer considere feito. Mas tem muita coisa que eu não posso…do que a senhora tá precisando?
– É o seguinte, doutor. Meu marido faleceu há 5 meses. Completou semana passada. Ele era muito doente, sabe? Sempre bebeu muito, comia de tudo, vivia como queria. Há uns anos teve um derrame e ficou acamado. Eu que cuidava dele. Não faltava nada pra aquele homem, doutor. Só que um dia ele passou muito mal e morreu. Eu não sei direito o que aconteceu, ele desmaiou e teve uma convulsão, a gente chamou o SAMU, levamos ele pra UPA, já era noite. No outro dia de manhã ele morreu. Me deram o atestado de óbito, tinha lá “pancicitopia” e “hiperpotassia”, mas eu não sei o que é isso, e eu nunca soube de que ele morreu.
– Certo. A senhora quer então que eu olhe o prontuário dele pra lhe dizer algo?
– Se o senhor puder…porque eu fui perguntar lá na UPA mas disseram que não podiam me dar a ficha dele, que eu teria que falar com o diretor mas que ele só ia me dar se fosse pedido de um juiz.
– Bem, eu não posso te dar a ficha dele, dona Maria. Mas eu posso tentar olhar aqui no sistema e dizer alguma coisa à senhora, pode ser?
– Ah doutor, se puder eu agradeço.

Peguei os dados do marido e fui ver o prontuário dele. Bendito prontuário eletrônico integrado. Deu pra ver que ele tinha dado entrada na UPA com a glicose muito baixa, em torno de 30, o que provavelmente provocou as convulsões. Teve paradas cardíacas, foi reanimado, e ficou em estado grave aguardando resultados de exames e vaga em UTI. Os exames mostravam as alterações que foram colocadas na declaração de óbito: pancitopenia grave e hiperpotassemia. Se ele saísse daquele quadro grave provavelmente iriam investigar doenças da medula óssea, até uma leucemia era possível naquele quadro. Só que com pouco mais de 18 horas de internação teve a quarta parada cardíaca, e essa não foi revertida. Faleceu ali.

Olhei de volta pra dona Maria. Não sei que cara fiz, tentava ser solidário, mas ela sorriu tímida, acho que mais pra ser simpática. Deve ter percebido que eu tinha algo pra falar que interessava a ela.

– Dona Maria…então: acabei de olhar aqui. Enquanto lia, tava pensando no motivo da senhora estar tão angustiada com isso tudo. Claro que perder o marido é difícil, e ainda mais quando ele era tão dependente da senhora, a gente acaba ficando mais ligado ainda, né? Fiquei imaginando aqui se a senhora, além da saudade dele, não estaria achando que poderia ter feito algo a mais por ele…me chamou a atenção quando a senhora enfatizou que “não faltava nada pra ele”. Então deixa eu dizer uma coisa: a senhora fez tudo o que podia. Ele chegou na UPA num quadro grave, mas não foi por falta de cuidado não. Os exames dele mostravam uma doença grave do sangue, que provavelmente se instalou de forma muito rápida. Ele já vinha muito debilitado, a senhora mesmo falou. E uma doença grave assim quando encontra um corpo mais fraquinho acaba vindo de um jeito que a gente não consegue curar. Então deixa eu falar de forma bem clara: a senhora não teve culpa nenhuma não. Não tinha nada que a senhora pudesse ter feito além do tanto que já fez. Cuidou dele quando ele tinha saúde mas bebia muito, cuidou quando adoeceu, e cuidou por vários anos dele em cima da cama. A senhora fez muito. Se ele não tivesse alguém assim cuidando dele, ele tinha morrido era antes.

Nessa hora eu já me arrepiava de olhar pra ela. O olho dela, que estava com uma lágrima se equilibrando pra não cair, de repente deixou de olhar pra mim e voltou-se pra cima, numa fração de segundo, e depois me encarou novamente. Só que agora a feição era de paz, de alívio.

– Doutor, muito obrigado. Me desculpe lhe dar esse trabalho, mas valeu a pena, o senhor ajudou demais. Eu tava com isso na cabeça, sabe? Eu cuidava dele tão bem.
– Eu imagino. Mas agora tá na hora de deixar ele ir, e de colocar essas idéias pra fora. A senhora entendeu direitinho o que eu falei?
– Entendi sim.

Mas ainda faltava alguma coisa. Ela permanecia imóvel na cadeira, como que esperando alguma coisa.

– A senhora quer levar os exames de sangue dele? Que mostravam o que ele tinha, a doença do sangue? Eu posso imprimir aqui pra senhora.
– Posso, doutor?
– Pode.

Imprimi os exames. Numa avaliação precipitada, pra ela, olhar aquele papel não fazia qualquer sentido, dados técnicos, abreviações, números. Mas eu sabia que aquilo ali tinha outro sentido.

– Tá aqui, dona Maria. Os últimos exames do seu marido. São seus agora. A senhora guarda como quiser.

Aquela lágrima finalmente caiu. Pequena. Mas parece ter lavado a alma, e devolveu um sorriso àquele rosto. Ela levantou, agradeceu, e foi embora. Parece que esqueceu da dor de cabeça. E nem levou a receita dos remédios da pressão.