Correria

Por Lucas Gaspar Ribeiro

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Atende, atende, atende, vive a vida do outro, entra, ouve, orienta, conversa

Atende, atende atende, corre para acabar o dia…

Passa um,l passam dois, passam inúmeros dias assim…

Causos, histórias, alegrias e sofrimentos a serem divididos e compartilhados.

Recebo muito, mas estou passando pouco para frente…

Como fazer, como aliviar?

Só mais um causo no papel para me salvar…

Mas como??? Na correria..??

Atende, atende, atende..

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Olho no olho

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Por  Luis Vilela

Entra na sala Sr. alto, polaco, 71 anos, 98 kg, olhar penetrante por detrás de um óculos fundo de garrafa, mas que ainda deixava ver seus olhos azuis da cor do mar.
Na queixa anotado pela enfermagem estava escrito: quer receita para gota.
– Olá, tudo bem? O que posso ajudar?
– Deixa eu te explicar. Meu caso é complicado. Eu estou voltando do Mato Grosso do Sul, acabei de trocar meu marca-passo há 10 dias e o médico de lá mandou que mostrasse para o Sr. para tirar os pontos.
– Tudo bem. Deixa eu ver… a ferida está com aspectos de infecção. Vou pedir para enfermeira tirar alguns pontos e te passar antibiótico. Em uma semana retorna para que reavaliemos. O que mais?
– Tenho um comichão nos pés que caminha pelo corpo. É gota. Quero um remédio.
– Mas o Sr. tem ou já teve dor no pé e tornozelo.. já ficou inflamado? O Sr. está com dor?
– Já uma vez no peito do pé. Mas agora tô sem dor.
– Antes de te passar um remédio vou pedir um exame. Que remédios você está usando?
Após ver a lista com vários medicamentos para insuficiência cardíaca, anotar no prontuário, e pedir os exames e incluir o ácido úrico, olho para ele e digo:
– Muito bem! Está aqui. Posso te ajudar em mais alguma coisa?
– Dr. eu sou muito nervoso. Tenho 2 filhos. Um é unha e carne comigo o outro não converso há mais de ano. Não vejo mais minha nora, meus netos…
Seus olhos ficam marejados ele retira o óculos e eu ofereço um papel toalha.
– Eu estou velho, mas quando ver ele vou ter uma conversa oio nos oios e dar um soco na boca dele…
– Nossa, mas o que aconteceu? Vocês brigaram?
– De repente Dr.. Ele sumiu e não quis mais nem saber. Sangue do meu sangue e não está nem aí.
Tento entender melhor a situação. O filho parece que simplesmente sumiu.
– Porque o Sr não liga para ele? Assim numa boa, sem rancor? Mostre que você sente falta dele, da família.
– Tá bom, vou ver.

Disse ele ressabiado.
Oferece a mão como se fossemos tirar uma queda de braço, o cotovelo apoiado na mesa. Aperta minha mão com toda a força. Olha bem nos meus olhos e pende a cabeça um pouco na diagonal.
– O Dr. é muito humilde. Porreta! Vou voltar aqui.
– Precisando é só falar.

Senti que ele tinha mais algo a dizer. Algo oculto… será culpa, rusga? Bom acabou ficando para o próximo encontro.

Agradecimentos….

 

 

 

Nós, causadores, agradecemos imensamente a todxs que participaram hoje conosco da nossa roda de conversa no 14°Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade. Nos emocionamos muito com os relatos que vocês trouxeram, ficamos inspirados a produzir mais e mais e aguardamos ansiosamente os novos causadores a contribuir com nosso querido blog!
Muito obrigada 🙂
Foi muito amor S2

Auscultando Estória

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Por: Causos Clínicos

Hoje não trarei um “causo”novo a vocês, mas trarei uma idéia e um convite.

Há aproximadamente um mês uma acadêmica do curso de Medicina procurou o Causos Clínicos com uma idéia que um grupo da faculdade teve e queria compartilhar conosco além de nos convidar para uma força e uma “palhinha”.

Essa idéia hoje tem nome e sobrenome: Auscultando Estórias, uma forma de cuidar do cuidador que alguns de nós também utiliza, a escrita. Escrever sobre nossa vivência, nossa dificuldade, nosso dia a dia, colocando no papel um pouco do que é ser aluno, o que é ser médico, o que é ser cuidado e ser cuidador…

O grupo Auscultando Estória começará dia 05 de outubro de 2017, com um Sarau virtual e a presença de bastante gente legal, inclusive nós do Causos!

Sendo assim, fica o convite a todos que nos acompanham, e as desculpas por não ter um causo hoje.

Quinta feira, dia 05 de outubro, a partir das 20h no Youtube Liver…

Mais informações em:

https://www.facebook.com/auscultando/

 

Vejo vocês lá …

 

Conforto

Por  Mayara Floss

 

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Toda a vez que trabalha na fábrica sente dor de cabeça, falta de ar, tontura.

– O que você faz?

– Espuma para colchão caro.

– Usa todos os equipamentos de proteção individual?

– Uso sim, mas às vezes o ritmo faz a gente deixar de usar ou o equipamento não é tão bom.

– E os colchões são bons?

– Nunca usei, é colchão de gente rica.

Caruaru fev/2017

Crack e o chocolate

Por Mayara Floss

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      Em um desses dias de plantão uma paciente, entre tantas outras, em trabalho de parto de uma criança prematura e “usuária de crack”. Sem pré-natal, sem documentos, sem familiar, sem acompanhante, quase sem roupa. Tudo acontece muito rápido não deram nem dez minutos. Ela após o parto ajoelha-se no chão para rezar pela filha que nasceu. Fica na sala de recuperação do parto chorando desconsolada. Eu indo e vindo com uns papéis decido entrar no quarto, colocando de lado meu turno de sono para conversar com ela. Toco no ombro e peço se ela quer conversar, ela vira-se, chora e diz: “é tudo culpa minha”. Eu só escuto, a história, o filho perdido, o ex-marido, a vida que se costurava entre as lágrimas. História doída. Começamos a conversar e de repente a barriga dela  “fala mais alto”. Ela coloca a mão na barriga e confessa: “Não como há três dias, fui vender crack para conseguir comida e acabei usando” – respira fundo e diz – “é sempre assim”. A copa já está fechada, estamos adentrando a madrugada e insisto para conseguirmos algo para ela comer, pergunto se posso dar um chocolate que eu tenho, a enfermeira dá de ombros com um “sim”. Levo meu chocolate para ela, ela dá um pulo da cama, “Eu adoro chocolate, faz tanto tempo que não como um”. Eu sorrio ela lê a embalagem: “Sem açúcar, sem leite, sem glúten” e ela diz para mim “essa coisa é porque quer emagrecer?” eu digo que “não” e rimos juntas com uma certa cumplicidade entre nós. Os olhos castanhos com um brilho verde ao comer o chocolate. Nós duas, tão mulheres, tão humanas, tão chocolate.

Rio Grande, 04/05/2016