A boa nova

old-lady(Portrait of an old lady, Suzanne Valadon, 1912)

por Lucas Gaspar

Era sexta-feira, e nesse dia teria que sair da unidade às 10h para uma atividade com os alunos da graduação na faculdade, então a agenda foi “pensada nisso”. Eram quase 09h00, iria para a consulta seguinte, uma conhecida minha já – dona Nadir – uma senhora de 70 e tantos anos, tinha se mudado para a casa de sua filha a fim de ter ajuda com seus cuidados – uma falta de ar que estava em investigação na geriatria, hipertensão, artrose de tudo quanto é osso do corpo e uma depressão (ahh essa doença que poucos escapam…). Enfim, a minha última consulta com ela fora há pouco mais de um mês, uma tristeza só, vejam o porquê.

Nessas crises de falta de ar, ela foi ao PA (pronto-atendimento), tendo o diagnóstico de derrame pleural, sendo  internada e recebeu aquele diagnóstico que ninguém ousa falar o nome – câncer (e para piorar, já estava disseminado em todo o abdome), imaginem o que foi essa consulta para nós… trabalhar uma realidade cruel e impossível de fugir, 2 dias após o diagnóstico – eu com aquela contra referência nas mãos, ela com todas as angústias na mente. Mas por que estou falando isso? Porque nessa consulta ela me confidenciou que o maior sonho da vida dela era viajar para o Mato Grosso (moramos no interior de SP) e se despedir de seu irmão – que já estava paliativo há 11 anos e agora já recebera o título de terminal. O que falo para ela? Vá, aproveite, se despeça (esse era meu desejo, e o dela também). Mas ela não tinha condições de saúde para tal. Então falei, acho que tem que esperar ver o que a oncologia vai resolver contigo, vá mantendo contato com ele, continue falando, aproveite ele ao máximo, mesmo estando longe fisicamente.

Hoje ela volta, logo no dia que tenho que sair mais cedo, vamos lá, será que operou? Será que ela está bem? (Veio com uma pessoa que nunca vira antes – depois descobri ser seu genro).

– Doutor, meu irmão faleceu há 3 dias, e eu não consegui ir vê-lo! Além disso, estou aguardando essa cirurgia que não sai… O meu mundo desabou, doutor.

Pronto – 15 segundos de silêncio que valem uma eternidade. O que eu, pobre mortal, posso fazer em frente a esse caos que está a vida dela??

– Eu imagino que deva estar muito difícil, na verdade, eu não imagino, Dona Nadir, mas eu percebo seu sofrimento. Não sei como poderei te ajudar nisso tudo, para ser sincero. Vamos pensar com calma, vamos pensar em partes nos acontecimentos. Me conte de seu irmão…

– Ah doutor, sabe, eram 11 anos como eu comentei com o senhor, eu falei com ele na sexta (há 1 semana), logo antes dos médicos sedarem ele, falei com ele, me despedi dele no final. ( se abre uma porta da esperança).

– Então, dona Nadir, olhe o lado positivo, a senhora se despediu dele, pode não ter sido fisicamente, ao lado dele, como era seu desejo, seu sonho mais profundo, por diversas razões, dentre elas a sua saúde, provavelmente a senhora não aguentaria tal viagem e atividades (e não mesmo, estava branca como sulfite), mas a senhora falou com ele, se despediu. Tenho certeza que muitas outras pessoas não conseguiram fazer isso.

– É verdade, o filho mais novo dele, mesmo, não conseguiu conversar com ele no fim, se despedir, apenas depois. E também né doutor, foi muito sofrimento para ele, e para toda a família que terminou, que acabou. Foram 11 anos lutando, sofrendo, agora ele está em um lugar melhor, descansado. (Ufa… essa luz se acendeu mais um pouquinho…).

– Com certeza, com certeza. Agora é hora de juntar os cacos, as dores, anos de dores, e se preparar porque está chegando outra batalha, a sua batalha. Eu imagino que quando temos um câncer, e muitos pacientes falam isso para mim, que a primeira coisa que vêm à mente é: tirem esse treco de dentro de mim, ele vai me matar, arranquem logo, e com a senhora, não deve ser diferente, estou certo? (Vejo os olhos marejarem, que dor, que sofrimento…)

– Sabe doutor, para mim teria operado no mesmo dia que soube, mesmo, mas não é assim. Aí vai o pedido pra secretaria, logo no feriado de setembro, para atrasar tudo, uma, duas, três semanas (eu fico pensando, que bom que nessa cidade são só 3 semanas entre o diagnóstico e o tratamento, imaginando fora daqui… mas guardo para mim), já fiz a parte da anestesia e tudo. Acho que semana que vem vão me chamar para operar já, começar a resolver isso, ficar melhor, é o que eu preciso. E essa semana virá meu filho com meus netos. Estou tendo muita ajuda, muito apoio em tudo, sabe doutor.

– Fico muito feliz dona Nadir, apoio, gente perto, gente ouvindo e acudindo é o que você mais precisa agora. Vamos esperar, vamos ver essa cirurgia. Vamos aguardar, infelizmente o processo é longo, demorado, mas está indo, está resolvendo. Já sabemos o que é e o que deve ser feito. Acho que a cirurgia vai ser bom também para pensar em outras coisas além do seu irmão. Para trazer todo mundo para pertinho, agora, que é o que você mais precisa. Quero que saiba que não vou deixar nenhum dia agendado para a senhora, quero que venha sempre que se sentir insegura, necessitando de uma conversa, porque no final, essa conversa já colocou bastante coisa para fora né… (E me ajudou também a ver que tem muitas saídas um caso que não está mais em meu “controle”, ajudando a me sustentar no aqui e agora, vamos em frente…).

E ela se vai, após um longo e caloroso abraço, junto com seu genro, para mais uma batalha, que venha a próxima conversa com a Dona Nadir, e de preferência com boas novas…

Primeiras palavras

por Mayara Floss

gauchinho

Durante uma consulta de puericultura eu pergunto para a mãe sobre as primeiras palavras, se a criança está balbuciando.

A mãe diz:

– Sim, claro! Ele diz “mama”, “papa”… ah… e ele diz “Bah”.

Eu olho para ela e sorrio (é o bah que eu estou pensando?):

– Bah?

Ela responde:

– É Bahhhh sabe? De baaaaarbaridade?

A criança no colo da mãe me dá uma risada e diz:

– Baaaahhhhhhh.

Um “Bah” desses de fundamento.

Bom dia

por Lucas Gaspar

hide2

Todos temos aqueles pacientes que você olha para a lista de agendados daquele dia, e quando vê o nome X, já dá um frio na espinha, já pensamos “Iche, o dia vai ser longo”. Uma dela é dona Joaninha, 35 anos. Uma pessoa que já conseguiu brigar com 100% da equipe, além da gerência e outros temporários. Comigo mesmo, que estou lá há pouquinho tempo, já tive problemas com ela. Será que hoje vai ser diferente? Bem, vamos lá, seja objetivo, não enrole, não pergunte o que mais. A dona Joaninha não é “digna” do método clínico centrado na pessoa (por mais que eu sabia que um filho está preso há 6 meses – injustamente(?).

– Olá Joaninha, em que posso te ajudar hoje?

– Dr. eu vim aqui para checar meus exames, que colhi mês passado (tossindo um monte para falar essa frase…).

Eu sabia que iria me arrepender na minha próxima frase, mas lá vai, “ E o que mais?”(um segundo de medo, horror nos olhos e aquela transpiração fria no canto da testa…).

– Estou com essa bronquite atacada também…

Ufa, pensei que seria pior, me safei, será que… não, não posso, mas não me seguro:

– O que mais posso te ajudar Joaninha? (você está louco?? Não se dá corda a leões…)

– Estou com uma dor na sola do pé há um tempo que está me incomodando demais, não consigo pisar na hora que acordo.

Pronto, agora chega, vamos ao que interessa, 3 sintomas está bom (afinal, isso eu não contei antes, mas era uma consulta de encaixe e tinha mais mil pacientes hoje…).

Consulta, vai, consulta vem… transcorreu numa boa até o final.

Então surge uma oportunidade para ela falar – estava demorando, quase 20 minutos!!

– Doutor, é o seguinte, eu já falei várias vezes que não viria mais aqui, você já deixou de me atender ao menos duas vezes quando cheguei mal aqui (na verdade lembro só de uma vez, que orientei procurar o PA porque iria precisar de Rx, era uma lombalgia com red flag, mas tudo bem, guardo essa informação só pra mim). E sempre quando venho aqui é a mesma coisa, sempre sou mal-tratada aqui. Fui agendar consulta pro besourinho (seu filho), só tinha agenda à tarde (realmente estou com um problema muito sério em agenda lá), e nem eu e nem ele podemos a tarde – porque ele tem aula e eu posso não ter folga na tarde da consulta (daqui 1 mês), e ninguém quer me ajudar nisso? Aqui a única pessoa que parece se importar é o senhor, e digo isso porque nunca nenhum médico daqui (a unidade tem 8 anos e uns 30 médicos em sua lista) me via na unidade e sabia meu nome, o nome do besourinho, eu tenho que te agradecer por isso, mas não dá para ficar nessa unidade desse jeito, já pensei em não vir várias vezes, mas acabo vindo porque sei que tem alguém que se preocupa aqui, mesmo que não sempre (ácida!).

Nesse momento cai uma ficha, que nunca tinha parado para pensar… Como o fato de conhecer o nome, a fisionomia de quem você cuida, e com isso fazer uma das atividades mais cotidianas de nosso dia: a simplicidade de cumprimentar as pessoas face a face, sabendo quem é quem pode fazer uma diferença enorme. Porque conhecer o nome, a família, a estrutura, não apenas lá dentro de quatro paredes, no consultório, ou na VD, mas também numa simples recepção pode mudar a forma como o outro te vê, e ajudar ela a ficar, para ser cuidada e se cuidar…

A morte da calopsita

por Alfredo de Oliveira Neto

miro3(Mujer y pájaro a la luz de la luna, Miró, 1949.)

Um dia fui fazer uma visita domiciliar na Tijuca que abalou minhas certezas, ou suposições, sobre como o mundo deve girar sobre o seu eixo.

Psicóloga há 24 anos, atuante em consultório, conseguiu reservar economias para comprar um apartamento, onde mora há 10 anos. Não casou e nem teve filhos, conviveu desde então com 5 calopsitas.

Foi demitida de um emprego e o consultório começou a minguar faz uns dois anos. No início do ano passado fechou o consultório e trouxe todos os móveis e livros para a sala de seu apartamento de 67 m².

Desde que sua mãe faleceu há 4 anos vem amargando uma tristeza que se ampliou com o abismo financeiro. Perdeu o contato com todos os irmãos.

Como também é bacharel em direito, foi atrás de recursos, estava sem nenhuma renda, e conseguiu uma bolsa-família. Sim, aquele benefício que até então, pensava eu, nenhuma família moradora de um apartamento na Tijuca jamais precisasse, e caso fosse, não teria direitos pois certamente nos morros do Borel e do Formiga haveria centenas de famílias mais necessitadas. Culturalmente conservadores, muitos tijucanos, pensava eu, inclusive são contra o bolsa-família, consideram uma esmola assistencialista desnecessária, muitos bateram panela contra o governo que associou este benefício como uma de suas marcas. Só que não.

Não só recebe 85 reais mensais do bolsa, como também é ajudada por um Centro Espírita próximo à sua casa que lhe fornece uma cesta básica mensalmente. E só.

É completamente lúcida, sabe que não durará muito apenas com feijão, macarrão e arroz e por isso já tentou suicídio com medicações, sem sucesso. Com 57 anos, não possui a menor perspectiva de como ampliar a renda, já tentou voltar a atender em sua sala, mas supõe que a condição em que vive – organização da casa, auto-higiene e saúde abalada afastaram os últimos clientes. A sua lucidez é um castigo.

Há alguns meses sofreu uma queda da própria altura, vem se sentindo tonta, o que reforçou o medo prévio de sair de casa. Sai apenas uma vez por mês para ir à lotérica receber o benefício.

Diz não comer uma fruta ou proteína há muito. Obviamente diz que sim, passa fome.

No entanto, o que mais a abalou recentemente foi a morte de 1 de suas 5 calopsitas. “Morreu de fome”. Desde então decidiu passar um pouco mais de necessidade para garantir a parte do feijão, macarrão e arroz para as quatro calopsitas restantes. Neste momento da visita, ouvimos uma longa cantarolada das aves que moram numa gaiola na cozinha. “Tá vendo? Elas sempre sabem quando eu falo delas…”

Voltei dirigindo para casa em silêncio sepulcral, não ousei ligar o som e nem conferir o zap, o meu mundo estava em franco processo de reequilíbrio à procura de outro eixo.

Deu bobeline

por Raquel Vaz Cardoso

img_0004“La tête de la femme” (Cabeça de mulher), Picasso, 1960.

Uma manhã dessas, eu não sabia o que me aguardava.

Uma mulher.

Que me enfureceu, me esgotou e mobilizou os meus sentimentos mais contraditórios. Depois da consulta, uma primeira conversa já com data marcada para continuar, parei para revisar seu prontuário e encontrei tábuas de salvação. Era isso. Eu “sabia”. E isso me aliviou. Para isso também, se não a maioria das vezes, servem os diagnósticos: para acalmar o sofrimento do médico e de familiares de pessoas que esticam e puxam as pontas da curva de Gauss. Nesse caso, com pessoas que fazem novas curvas, laços, remendos com suas formas. Elas não cabem em diagnósticos e protocolos, mas somos hábeis em fazer caber.

Ela voltou. E dessa vez eu estava protegida pela armadura do diagnóstico. E ela mesma me fez rir e me tranquilizar por dentro: “Você viu? Deu bobeline” [disse apontando para um relatório médico antigo]. Borderline. Ainda bem: um diagnóstico. Ou melhor, vários: “transtorno psicótico, transtorno misto ansioso, transtorno de personalidade borderline”. Mas ela tinha armas potentes. Dessas dos sentimentos. E eu me vi gostando daquela conversa, sendo seduzida por ela. Para além de relatos carregados de violência, abuso sexual, pobreza, conflitos intrafamiliares, processos judiciais, prostituição, uso de drogas. A essência de tudo me tocou. Questões de gênero, sobre o feminino. Ah, essas compartilhamos todas as mulheres. E ela ganhou minha atenção, minha condescendência, quando por um momento saí de trás da minha bela armadura montada à base de DSM, CID (compilados de diagnósticos e classificações médicas), porém não resistente a controvérsias, evidências e outras racionalidades e formas de ver o ser humano e seu adoecimento. Me vi admirando relatos e reflexões de Marinice. Relatos comuns, universais, tão frequentes entre mulheres. Penélopes. Marias. Joanas. Paulas. Anas.

Eu só quero ser feliz. […] Quando eu era mais nova eu achava que tinha que chamar a atenção de todos os homens, minha auto-estima era tão baixa que eu ficava feliz quando um homem me chamava de gostosa na rua. Uma vez cheguei a ficar pelada, eu e uma amiga, com dois homens dentro de um carro. Queria ser desejada. Eu achava que eu precisava daquilo para ser completa, para ser feliz. Hoje eu vejo que não tem nada disso […] Eu quero um amor. Quero ser amada. […]

Pois é. Elas. Aquelas velhas histéricas. Essas novas histriônicas. Eu te pergunto e me pergunto: quem as produziu? Quem as mantém? Quem nos mantém? Essas e aquelas mulheres. Seria mesmo melhor ser bobeline, juntar todas as contradições numa só? Ser mosaico, ser fênix. Ou mandar aos farrapos essa sociedade da qual somos apenas sintoma?

Eu sou sintoma. Tu és. Ela/ele é.

 

Historinhas azuis

dali
I
Quase 70 anos, aniversariando no dia da consulta. Fez uma dosagem de PSA por conta própria há alguns meses, deu normal. Ainda assim foi atrás de uma ultrassonografia “pra ter certeza que estava tudo bem”. Pagou do próprio bolso, não perguntei quanto. Parecia nervoso. Nesses casos olho o exame rápido, e estando tudo bem, já tranquilizo a pessoa pra acabar o suspense e poder conversar tranquilo. No exame a próstata estava ligeiramente aumentada, mas sem nenhuma outra alteração, então eu disse que estava tudo bem, só um aumento da próstata que era comum na idade dele, que não significava nada demais. Comentei que ele parecia preocupado, e perguntei o porquê. Respondeu que as filhas ficavam insistindo pra ele se cuidar. Então eu disse, em tom de brincadeira que a gente pra se cuidar precisava de um tanto de coisa, mas que com esse blá-blá-blá na TV por esses dias parecia que a gente tinha virado só uma próstata. Ele riu, concordou, bom sinal. Então perguntei se tinha algo mais além da próstata incomodando-o, respondeu que não. Me coloquei à disposição, fiquei de pé e estendi a mão, e ganhei um abraço. Tímido, vocês imaginam como é abraço de homem que não se conhece direito. Mas um abraço de alívio, sincero. Desejei feliz aniversário de novo, perguntei se ia ter festa e disse que aproveitasse bem. Ele sorriu, agradeceu, me desejou tudo de bom e saiu da sala.
II
Quase 20 anos, veio pedir exames de rotina. Eu gosto desse pedido de exames de rotina, porque me dá a deixa para perguntar bastante sobre a rotina antes de pensar o que devo examinar. Pois perguntei, e o máximo que identifiquei foi uma queixa de dor ao ter relações por causa de uma fimose. Expliquei que poderia encaminhá-lo para resolver isso, e que em relação a exames de rotina, os mais importantes na idade dele eram os de rastreio de infecções sexualmente transmissíveis. Ele sorriu, mas aquele sorriso desconfiado, sabe? Perguntei se tinha relações protegidas, se o assunto o preocupava. Me disse que sim, que ocasionalmente tinha relações sem camisinha, raramente, mas tinha, e que ultimamente fazia mais o papel passivo com o parceiro já que a fimose incomodava bastante quando tinha ereções. Expliquei sobre os riscos, mas não parecia necessário fazê-lo, ele já sabia. Ofereci testagem rápida, e comentei: “nada melhor do que a gente saber logo, né? Esperar muito tempo por exame é ruim…”. Ele sorriu, concordou, e foi fazer o teste. Deu negativo.
III
Quase 50 anos, veio saber se o PSA que solicitaram para ele estava normal. Pelo que vi, estava. Olhei o prontuário e vi que havia história de epilepsia. Perguntei há quantos anos usava o medicamento sem ter crises, disse que há uns 3 anos. Toma só um comprimido por dia, e acha que o comprimido o deixa meio…”devagar”, se é que vocês me entendem (aliás, entendem ele). Perguntei se queria tentar uma retirada lenta do medicamento para as crises, e o olho brilhou. “E pode?”. ” Pode”. Dei orientações sobre a redução gradual da dose e agendei retornos semanais para vermos como as coisas andam. Saiu feliz.

Era o leite

leite

por Lucas Gaspar Ribeiro

Primeiro mês na unidade, conhecendo os pacientes, suas histórias, suas vidas e famílias.

De repente entra uma senhora de 68 anos, barriguuuuda, a dona Josefina. “Doutor, tenho um problema que nenhum médico conseguiu resolver ainda. Eu tenho essa barriga grande aqui ó (batendo em seu voluptuoso abdome), sempre desse tamanho, sempre me atrapalhado. Eu tenho uma sensação de que está sempre cheia, lotada. Quase não como nada, mas mesmo assim!! E os gases doutor, e os gases??? Não param nunca… Já está me passaram esses dois, mas não melhoram (olho as caixas, eram omeprazol e domperidona).

Logo começo a juntar os pontos: empachamento + gases + idosa – será Câncer(penso em estômago, cólon – meu deus e agora como conseguir acesso a exames de imagem???).

Pergunto sobre perda de peso – não, não doutor, não consigo perder peso, mesmo comendo menos.

Ufa, provavelmente um alarme falso.

Será que é algo alimentar? Vamos ao recordatório alimentar. Tem algo que a senhora come e percebe piora, melhora, mudança?

– Ahh doutor, eu como de tudo, arroz, feijão, carne, legumes, leite com café de manhã e a noite.

Opa, leite 2 vezes por dia, será que estamos por aí?? – Dona Josefina, me conte mais sobre esse leite…

– Doutor, sempre tomei leite, minha vida toda, gosto muito sabe. Eu tomo leite todos os dias, eu acho que piora, porque quando acaba lá em casa e eu não como, não fico com tantos gases, mas não sei, faz tantos anos que tomo leite….(abriu uma portinha na cabeça).

– Então Dona Josefina, vamos tentar fazer uma coisa, vamos tentar ficar sem tomar leite por um tempo e depois a ente vê como você ficou, o que acha??

– Tudo bem doutor, não custa tentar.

Quase 2 meses após entra a dona Josefina, e, coincidentemente eu estava na porta indo chamar outro paciente.

Vejo um brilho nos olhos que antes não havia – e ela logo ao me ver já fala alto: doutor Lucas, hoje sou outra mulher. Estou nova, batendo na mesma barriga de antes(mas para mim exatamente igual de um mês atrás). Acabou minha barriga, olha só, não tem mais nada, sequinha. Estou muito melhor agora. Somente um médico que quer ouvir e pensar na gente, que busca o que ele tem pra me ajudar!!

Eu olho para aquele rosto sem mais sofrimento, olho para aquele corpo exatamente igual, e respondo: Josefina, fico muito feliz que esteja se sentindo melhor, que bom que te ajudei um pouquinho, dá para ver que está mais magra mesmo..(afinal o nosso papel é também fazer o outro se sentir bem consigo mesmo..)

E ela sai da unidade de volta para casa alegremente e falando: era só o leite, doutô, só o leite…

O nome que ninguém vê

por Bianca Forreque

O nome dele, poucas pessoas sabem. Conhecem-no pelo apelido. Já havia conversado com ele uma vez, embora nunca tivesse marcado uma consulta médica comigo. Aliás, ele quase nunca vai ao médico. Mas às vezes ele visita a Unidade de Saúde – para fazer curativo. Ele tem 60 anos, é negro e… onde mora? Em todo lugar. Tem uma casinha muito humilde no território, mas não adianta bater à porta: ele praticamente nunca está lá.

     Hoje ele procura atendimento, não na recepção, mas novamente na sala de curativos. Sou chamada e vou atendê-lo também. A conversa é prejudicada pelo estado em que ele se encontra. O cheiro do álcool misturado a um odor pútrido impregna o lugar. Provavelmente ele não se banha há dias. Ri muito e brinca comigo e com a técnica de enfermagem ao meu lado, mas ao examinar suas feridas o riso dá lugar ao gemido. A perna está com várias fissuras, muitas lesões crostosas, fétidas. Entre os dedos crescem desenfreadamente fungos em lesões úmidas esbranquiçadas. Respiro fundo – o cheiro arde nos pulmões. Para iniciar o tratamento, preciso saber como anda seu fígado, e há muito tempo ele não faz exames. Mas, à medida que a conversa progride, fico ainda mais preocupada com a periodicidade de outra coisa: há muitas horas ele não come. Na verdade, nos revela que não consegue ao menos almoçar todo dia.

     Algumas pessoas talvez pensariam que aquele atendimento fosse tempo perdido, um problema sem solução, mas eu não conseguia me acomodar ao incômodo daquele homem. Há quem vá reproduzir o discurso: “morador de rua é tudo vagabundo, mesmo” – mas enquanto eu verificava suas feridas, só conseguia me lembrar do que ele já havia me contado meses atrás.

     Foi numa prosa despretensiosa, na sala de curativos mesmo, que ele me narrou sua história – e então pude entender por quê passa a maior parte da sua vida nas ruas. A história desse homem foi marcada por perdas – primeiro o filho mais velho, assassinado num conflito associado ao tráfico de drogas; depois a mulher, que apesar de ainda morar aqui no bairro, decidiu separar-se dele (já que ele não se separava da garrafa de cachaça). Bebida, essa, que era o único alívio para o sofrimento de ter sepultado um filho. À medida que o relato ganhava forma, sua voz se embargou até o momento em que ele desabou em lágrimas. Via-se livre dessa água salobra, enquanto ela escorria pelo rosto – mas queria mesmo era expurgar sua culpa: pelo que fez e pelo que deixou de fazer durante todos esses anos. Chegou aos 60 anos com apenas um sentimento mais forte que a vontade de continuar vivo: o arrependimento. E agora só hão de aceitá-lo, com seus erros: o álcool e as ruas.

     O nome dele, poucas pessoas sabem. Conhecem-no pelo apelido. Mas poderia ser João, Pedro ou Paulo. Poderia ter o mesmo nome que o seu. Poderia até mesmo ser você. Ou seu pai. Porque ele é um cara comum, habitando as ruas que a gente também habita – mas mantendo uma relação diferente com elas. Um cara comum, com uma história, muitas dores, muitos sofrimentos e poucos fatores de alívio. Um cara que sente fome. Um cara com um nome – que a gente teima em ignorar, enquanto anda pelas ruas, pra lá e pra cá.

Dos buracos

por Mariana Duque Figueira

(Aviso: níveis de glicose elevadíssimos)

– Como vocês querem que eu olhe prum buraco?! Não dá pra olhar. Não dá!

É o que Antônio Carlos, “pode me chamar de Tonho”, dizia todas as manhãs. Sempre que perguntado se gostaria de ver como estava ficando o curativo. Do pé recém-amputado após anos de diabetes não controlado.

Numa reunião de equipe, ele voltou a ser assunto. A enfermeira e a agente de saúde compartilhavam a mesma preocupação: a ferida estava clinicamente cada vez melhor, mas após diversas tentativas de intervenção de ambas, ele continuava muito triste e reativo, – inconformado com sua nova situação. Fiquei então de visitá-lo durante a semana.

História de longa data, seu Tonho e eu. Passamos por diversas fases: você-tem-cara-de-criança-como-pode-ser-médica, pode-repetir-esse-exame-que-não-tenho-doença-alguma, a-doutorinha-anda-feliz-isso-tem-cara-de-amor, se-eu-já-tenho-esse-tal-de-problema-de-nervo-de-que-adianta-tomar-remédio-pro-diabetes, ando-me-sentindo-melhor-com-o-remédio-até-que-a-doutora-sabe-das-coisas.

No dia da visita, como esperado, a frase que tantos já ouviram antes de mim:

– Como você quer que eu olhe prum buraco?! Não dá pra olhar, doutorinha.  Não dá!

Deixei que soltasse tudo o que estava ali, engasgado. Trinta minutos e um café de engasgos.

(Foi ficando na minha cabeça aquela imagem toda sobre buracos. Queria conseguir conversar com ele sobre buracos. Todos temos buracos, seu Tonho. Marcas de partes que algum dia pareciam essenciais. Se olhar com atenção, dá para enxergar os de cada um desta sala.  E bem, de alguma forma estamos todos em pé por aqui.)

– É um pedaço meu que eu sei que tá faltando. Manco. Não dá pra aceitar uma coisa dessas. Dói andar.

(Resta esperar o tempo dele. De perceber que no começo manca, mas depois sai pisando ainda mais firme. A gente vai criando casca, meu velho. Talvez um dia eu até lhe conte que algumas viram dor fantasma, e voltam para assombrar de vez em quando.)

Conversamos então sobre a insulina e a avaliação da terapia ocupacional, acordamos um reencontro, e nos despedimos.

– Como está, Tonho? – pergunto no retorno.

– Chega de falar de mim. Por que a doutora anda tão triste?

Totalmente inesperada essa leitura do subtexto, sabedoria iletrada. Seguro o engasgo, e acabo me abrindo:

– Também tenho uma ferida que tô cuidando. Ainda não consigo olhar muito pro buraco.

Abre um sorriso solidário e me responde:

– Doutorinha, amor é sempre bonito. Mesmo quando vira buraco. Vou trazer uma compota da patroa. Vai ajudar a ficar melhor.

(Tem dias que sou eu quem cuido deles, em outros são eles que cuidam de mim.)