Das bolinhas

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Por: Lucas Gaspar

Dia 09 de outubro de 2016, como estava muito cansado naquele dia, fui dormir às 21h30 (muito cansado mesmo). Acordo meia noite, com um pensamento, recorrente. Um círculo com várias bolinhas rodando, rodando, rodando, algumas muito rápido e outras mais lentamente. Devido a isso algumas, as mais rápidas talvez, estavam saindo do círculo e batendo em algum anteparo(uma espécie de parede), cada uma para um canto diferente – eram poucas as que estavam fora. Foi aí que percebi, me dei conta, dentro dos últimos 6 meses de trabalho, as últimas 2 semanas foi de maior estresse.
Cada bolinha era uma pessoa, e cada pessoa que saia estava em burnout(estafa mental devido ao trabalho), porque não iram todas para o mesmo lugar, porque cada um respondia de um jeito diferente, porque cada um queria uma coisa. Por isso que cada um tinha uma reação, cada um estava de um jeito, em uma velocidade, em uma posição – porque cada bolinha era única.
Algumas já tinham quase saído desse círculo e caído fora, eu inclusive, outras estavam mais lentas, quase parando.
O que é bom, todos estavam andando na mesma linha, o que é ruim, algumas saíram da linha, outras correndo demais – inclusive eu – como aguentar tanta correria?
Isso ainda não consegui responder….

Amargo e Necessário

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Por: Giulia Balbao
-Esse exame aqui tem que pagar?
-Não, é pelo SUS, assim como todo seu atendimento aqui. Só precisa ir colher sangue lá no centro.
-Vou esperar então, Dra Giulia, tô sem dinheiro.
-Mas você não vai pagar pelo exame, não.
-Dra, eu não tenho dinheiro do circular pra chegar lá.
-Entendo…
-Eu sai do interior há dois anos porque arranjei um marido aqui. Lá a vida é pior, você nem vai saber. Aqui é bom.
-E você está feliz agora?
-Ele é bom para mim. Mas fico aperreada quando bebe.
-Cachaça, é?
-Demais. Todo dia, todo dia diz que vai parar.
-Ele fica agressivo quando bebe?
-Ele bate em mim, Dra. Mas não machuca.

Engoli seco. Doeu. Conversamos.
Lá é difícil, aqui também, e ela deve ter razão: mais uma vez, eu nem vou saber. Nem eu, nem vocês.

Esse é um caso real -mais um- e ilustra a violência doméstica que mata e mutila, diariamente, num país que é um dos campeões em matar mulher no mundo.
Divido com vocês, é sempre amargo e necessário lembrar.
A identidade da vítima e outras referências jamais serão citadas.

Geriatria Sincera

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Por: Giulia Balbão

-Dra, deu certo aquele grupo de idosos que você me falou! to indo toda semana e a gente faz exercício para a memória.
-Que ótimo!! Está gostando?
-Sim, o moço coloca uma fita com sons e pede para a gente falar se lembra que som que ta tocando.
– E você está acertando? Tá sentindo dificuldade em lembrar dos sons?
– Tô sim. Som de passarinho e chuva, eu lembro. Escuto todo dia. Mas Doutorinha, se tocar o som que fazia quando eu tinha meu rala e róla com o velho, ai eu ja esqueci! 😂
-HAHAHAHA” ❤️
~Geriatria sincera~ Amo.

Meu nome é Lucas

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Por: Gustavo Campello

Meu nome é Lucas. Tenho 3 anos e moro na Rocinha. Ando sempre com minha mãe, subindo e descendo o morro. Ela me leva na escola de manhã. Antes de sair, me dá pão e leite. Joga uma caneca de água na minha cabeça e esfrega com sabão. Depois abre um livro e fica rezando. A gente desce pela escada e pela rua. Ela me dá beijo, reza de novo e vai embora. Aí a tia me pega. Na escola a gente canta, pula e dorme. A gente come também. A tia me dá biscoito e me aperta… que nem a mamãe. Ela penteia meu cabelo e canta uma música pra mim. Aí a mamãe vem me buscar. A gente vai no pula-pula depois da escola. Ela fica no banco fumando e me olhando. Eu fico pulando.
Tem dia que eu não vou pra escola, quando a mamãe não acorda. Ela sai e volta bem tarde, gritando. Papai começa a gritar também. Aí eles brigam. Eu choro muito quando eles brigam. Ele sai de casa e minha mãe fica gritando até dormir. Ela me abraça e me aperta. A gente dorme até tarde às vezes. Quando o papai volta, ele faz comida e bebe. Bebe e fuma… fica com cheiro ruim. Aí ele me pega e me leva pra ir na casa do tio. Mamãe fica dormindo. Eu vou com ele e eles ficam jogando carta. Eu brinco com o Pimpão.
Quando a gente volta pra casa, o papai vai tropeçando no caminho e rindo. Eu fico com medo de cair de novo. Quando a gente chega, ele me bota no chão e eu corro pra ver a mamãe. Eu gosto quando ela acorda de tardezinha. Ela brinca comigo e faz careta com a língua. Acho a maior graça!
Umas pessoas com roupa branca vão lá em casa às vezes falar com a mamãe. Quando saem, ela chora. Fica me olhando e chorando. Depois a gente desce na escada e chega num lugar cheio de gente. Fica todo mundo sentado esperando chamar. Quando entra na sala, vem um tio pra me ver e às vezes dói porque me espetam. Depois passa e a gente volta pra casa.
Em casa a mamãe ouve música e canta. Aí ela chora. E me aperta. Papai chega e grita com ela. Às vezes ela bate nele. Aí eles brigam. Eu fico chorando. Mamãe também chora e bebe até dormir. Eu subo na cama e durmo junto com ela.

Toda água do mar

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Canção “A Beira e o Mar”

Por: Gabriela Machado

Quase fim do dia. O sabiá, como sempre, marca presença nesta tarde de primavera. O barulhinho da água da fonte. Alguns grilos. A conversa na portaria. Tudo está calmo ao meu redor. Entranhada na minha carne, no entanto, habita um vazio ensurdecedor. Não sei dizer quando foi que abri a guarda para deixar meu espírito ser violentado. Essa semana houve um tiroteio do lado de casa. E, ao contrário de hoje, não havia nenhum silêncio no ar da tarde. Mal conseguia conversar com meu amigo de tanto tempo que estava bem ao meu lado. Helicóptero e tiros rondaram até a madrugada. No dia seguinte fui para a clínica da família que fica há aproximadamente 40 minutos de carro da minha casa. Chegando lá puxei o assunto do tiroteio. Me mostraram um vídeo de um ser humano caindo de uma pedra que fica no topo do morro aonde ocorria o caso. Eu fiquei horrorizada. E depois mais ainda quando ouvi o temido: ah, mas eu não sinto pena não. Bem feito. Como é de costume pra mim, nessas horas não consegui a frieza para dizer tudo que eu gostaria. Sou passional e as palavras se embolam com meus sentimentos em momentos assim. Me dou conta que ainda preciso de muita meditação e análise para lidar com isso. OK. Desço para o atendimento. A professora é nova. Ela está com raiva por que não queria estar ali. Preferia seu antigo local de trabalho. Então tudo parece ruim aos seus olhos, até que se prove o contrário.
Ao responder que queria fazer medicina de família vi suas feições mudando. Pelo amor de Deus minha filha, não faça isso! Você vai ter que trabalhar no SUS, você sabe, né? Não vai poder ter seu consultório! Tentei argumentar, depois achei melhor não falar mais nada.
No atendimento, ao chamar a professora, mais uma enxurrada em cima da paciente. Tão simplória que mal conseguia expor seus sintomas em palavras. E segue uma lista de ordens e culpas e tanto ódio no falar.
Coisas vão se quebrando dentro da gente. O fascismo corrói. Ele corrói os bons. No dia a dia, nas entrelinhas, nas palavras que não meço, na satisfação com o mal, em notícias não dadas, na falta de explicação, de cuidado.
Hoje de manhã eu ainda estava de ressaca. Ficou uma frase de uma música que sempre ouço, mas nunca tinha prestado atenção: você é a beira e eu toda água do mar. Cheguei na clínica e fiz alguns atendimentos. Ouvi as histórias, algumas difíceis, examinei, aconselhei meditação.. No fim das consultas recebi alguns abraços. Olhares agradecidos. Alguns pareciam um pouco mais aliviados. Um povo sofrido, cada um com suas questões, num contexto que não ajuda muito. Um filho que era surfista de trem e morreu aos 15 anos. A esposa que faleceu há 3 anos quando comecei a ter problema de pressão. Ah, isso começou por que tive uns aborrecimentos no trabalho. É muita pressão, doutora. Esses cortes eu fiz por que não podia bater em ninguém, então fiz comigo mesma. Vim por causa desse câncer, ele chegou um mês depois do meu marido falecer de câncer também. Se a gente parar pra pensar até parece coisa de outro mundo né mesmo, doutora? O corpo não dá conta, né?
Uma pausa na maldade. Sim, medicina de família, professora.

Mensagem Errada

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Por: Artur Mendes
      Com alguns pacientes se vai construindo um singular espírito de camaradagem. Sempre tem aquele que nos aborrece e nos faz querer sumir ao despontarem na entrada da unidade de saúde, mas geralmente, ao longo dos anos, constrói uma cumplicidade cujo impacto na assistência não podemos facilmente medir.
      Eu gosto (da maioria) dos meus pacientes. Gosto de conversar. Até desenvolvo por certas pessoas um carinhosinho faceiro. Por mais que tente manter alguma imparcialidade profissional e assim evitar confundir prioridades e fluxos do serviço, vou me permitindo uma ou outra demonstração de afeto. Coisa boba, que muitas vezes só é de mim para eu mesmo ficar sabendo e com isso aquietar o coração.
      Foi assim que criei o hábito de rezar pelos pacientes.
      Não sou religioso. Não piso com muita facilidade em uma igreja mas me considero, na pior das hipóteses, um sujeito espiritualizado.
      Assim, como ia dizendo, eu rezo pelos pacientes. Mas não é todo momento e nem por qualquer coisa! Rezo quando morrem. Rezo como se estivesse encomendando a alma. Gosto de imaginar um Deus barbudo tomando notas e recebendo com um abraço as pessoas das quais já não posso mais cuidar por aqui.
      Certa feita estava eu na reunião da equipe de saúde discutindo sobre as últimas dificuldades quando uma das agentes de saúde, de um salto, se lembra:
      _ Morreu a Dona Maria, você soube?
      Sim, eu sabia… Dona Maria “da rua de cima”… Acamada. Cuidou dos filhos sozinha por muito tempo e no fim da vida, vítima de um AVC, só conseguia mexer os olhos. Descansou, como se costuma dizer por aqui… Para essa eu tinha rezado já.
      _ Parece que teve uma pneumonia…
      Foi isso então. Eu tinha já desenvolvido o hábito de auscultar com muita atenção os pulmões dos pacientes acamados e verificar o padrão respiratório. Não tinham sido poucos os pacientes que perdi assim.
      _ Também, com aquelas andanças dela de madrugada…
      Como assim?!? A Dona Maria tinha voltado a andar?!? Uai, sô…
      _ Vivia fugindo de casa e dormindo na rua…
      Vixe! Eu tinha rezado pra alma da pessoa errada! Quem tinha morrido era a Dona Maria “dos cachorros” (apelido que ganhou por dormir muitas vezes na rua com um monte de animais). Me veio de imediato a cena daquela outra Dona Maria chegando no céu e São Pedro barrando (“Tá na lista aqui não… de repente é pra outro lugar…”). Eu precisava corrigir isso!
      _ O que foi, doutor? O senhor está “longe” aí…
      _ Nada não… é que eu acho que mandei uma mensagem errada…
        Pedi licença e fui até o consultório, a portas fechadas, desfazer o mal-entendido e explicar na reza que a Dona Maria era outra… E acho que foi bem a tempo. Vai que Deus não se dava conta do meu erro e achava que eu estava encomendando a outra alma pra tentar empacotar a Dona Maria “da rua de cima” mais cedo…

Ela e ele

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Por: Ana Paula Marcolino

Ela tinha o mesmo nome de uma colega do cursinho. Quando vi o nome no prontuário, achei que seria fisicamente parecida com ela (infantilidades de uma mente a la Amélie Poulain). Como eram diferentes! A moça era negra, franzina e bem antipática, devo confessar. Detestava proximidade. Descobri que, duma consulta com queixa ginecológica veio um pré natal. Ao longo do tempo, ela confidenciou que já sabia que estava grávida, mas tinha medo de julgamentos e, por isso, não disse na primeira vez.
A mãe da moça era usuária de crack. Já tinha passado por muitas clínicas de “reabilitação”. Perdeu as contas de quantas vezes. As irmãs se prostituíam (eram muitos barracos no mesmo lote, onde faziam os encontros, na frente das crianças, às vezes), em busca de conseguir usar também a substância. Ela mesma não usava. A avó era o seu apoio para não seguir nesse caminho, dizia.
Eis que no primeiro retorno, veio o resultado de HIV positivo. Ela disse que já sabia, não ficou surpresa. Na verdade, eu estranhava a frieza com que contava as situações de abandono e violência. Foi inútil encaminhamento ao serviço de Infectologia para acompanhamento conjunto. Ela informava o quanto se sentia discriminada: sou preta e pobre, deve ser isso! Ela demonstrou raiva pela primeira vez!
Supervisionada, segui o acompanhamento daquela moça. Eu era residente e me sentia tão descrente… tão inútil pra ajudá-la. Tinham também questões de um patrão que a demitiu porque descobriu que ela estava grávida! O que mais poderia acontecer?
Eis que ela sumiu… fui atrás dela, em casa… nada… sumiu… avó também não tinha notícias…
Um dia, fui à recepção, chamar uma pessoa para atender,  e ela veio pegando no meu braço… Estava magrinha. Não parecia grávida. Barriga murcha.
– Dra, a senhora aceita me atender?
Pensei “como assim? Eu procurei você o tempo todo!” e respondi: claro, menina! Tu me espera uns minutinhos?
– Espero sim…
Uns 20 minutos depois corri pra abrir a porta, com medo de que tivesse ido. Mas ufa, estava lá!
– Dra, eu menti. Eu uso crack também. Estava limpa há 7 anos, por isso não contei. Desculpe… – olhos no chão. Continuou –  tive recaída. Fui procurar o pai do meu filho, foi horrível! Minha mãe voltou pra casa, foi horrível! Meu patrão me humilhou de novo, foi horrível!
– Querida, eu é que lhe devo desculpas por não ter deixado claro que podes confiar em mim! Estou aqui! – ela aceitou um abraço, toque de mãos!
Segui acompanhando o pré natal, conseguimos que ganhasse peso, voltou o tratamento de HIV. Um dia, no momento de medir a barriga:
– Dra, meu bebê só mexe quando a senhora encosta na minha barriga. Nem a minha avó consegue que ele mexa!!
– Sério? Por que será?
– Deve ser porque a senhora tem uma mocinha aí dentro e ele vai ser namorador (eu estava grávida de 26 semanas, mais ou menos), ou deve ser porque a senhora é boa mãe mesmo…
– …
Ela não tinha idéia do meu sofrimento durante a minha segunda gestação. Nem poderia imaginar a angústia que busquei silenciar. Nem calcular o quanto estava triste, mesmo que visse a opacidade nos meus olhos, a qual procurava disfarçar diariamente. O fato é que talvez aqueles dois bebês, ela e ele, conversavam mais que nós duas.

Carmélia

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Por: Bianca Forreque

Há 3 meses, numa consulta muito descontraída, Dona Carmélia* me respondeu que o que mais fazia falta na sua vida era ter um namorado. Ela é dessas mulheres com viço, brilho nos olhos e, mesmo aos 85 anos, ainda cheia de energia – embora no nosso encontro estivesse desanimada, com sintomas de solidão. Me lembro ter sugerido a ela sair mais vezes de casa, ir pro forró, permitir-se mais – mas ela dizia que não queria encontrar um homem “por aí”: queria um homem “digno”, entregue por Deus. Ela se afundara na cadeira, suspirante: acreditava piamente que não encontraria outra companhia – e o longo período de 10 anos de solidão logo seriam 15, talvez 20.
E eu pensei comigo mesma que, com tamanha exigência por parte dela e pela sua idade, ela provavelmente estava certa na sua previsão.

      Hoje ela vem à consulta, ainda mais radiante do que o normal. Dá-me um abraço daqueles bem apertados logo ao me ver e mal consegue esperar entrar no consultório para contar: está amando de novo. Narra a história, explica que ele bateu à sua porta, sem mais nem menos. É seu inquilino, seu amante e seu motivo de felicidade já há algumas semanas. A senhora de 85 anos, outrora desacreditada da paixão, é, agora na minha frente, novamente uma moça de 26 anos – tão apaixonada quanto eu. Com um brilho diferente nos olhos, a pele ainda mais vistosa, o sorriso ainda mais largo.

É, meu bem. Esse tal de Amor chega pra todos nós, quando menos esperamos! Pode ser depois de uma longa estiagem, pode ser depois de nunca. Mas chega. Não quer saber de quantos anos você tem, ou do que você fez no verão passado. Não se importa se você é muito exigente. Ele chega sem pedir licença. E quando ele vem, corre o risco de ficar. Talvez para sempre, na eternidade de enquanto durar.

*nome fictício

Um amor verdadeiramente lindo

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Autor: Luís Antônio Vilela

“É lindo!” Diria Caetano. E é lindo mesmo. Entra aquele casal de mais de 90 anos, estavam para completar bodas de prata. Se conheceram quando, ambos viúvos, foram em um baile da igreja. Aqui vai um adendo: é comum ver os filhos serem contra namoro do pai e da mãe quando eles ficam viúvos… Povo chato, hein?! Deixa os ‘véinhos’ serem felizes, pô! No causo em questão as famílias se uniram, teve o casório, tudo certinho, eles tem um monte de netos, filhos, mas moram sozinhos, são saudáveis e independentes.
Então ela me trouxe o amado:
– Doutor, mais umas verruguinhas para tirar. Esta aqui, atrás da orelha, esta sangrado, incomoda. Tem que tirar.
Não era a primeira vez. Eu já tinha tirado umas 3 e outros médicos cerca de 6. Algumas verrugas simples, outras lesões pré-cancerosas e alguns câncer de pele. Pele branca, exposta ao trabalho no sol da roça, por anos. Ele não toma remédio para nada. A cirurgia foi um sucesso.
– Doutor tem mão boa, nem ficou marca.
Pensei: acho que ele é que tem a pele boa, mesmo com tantos procedimentos sempre cicatrizou bem e praticamente não tem cicatrizes visíveis. Atrás da orelha ajuda a esconder também.
– O senhor gosta de alface?
– Gosto sim.
– Que bom, porque trouxe uma sacola. É de casa, doutor. Não tem veneno.
– Olha, que maravilha! Obrigado! A sacola era grande e eu tinha alface para comer todo dia umas 3 semanas.
Tempos depois ela volta:
– Bom dia! Meu esposo mandou um abraço para o doutor, ele sempre manda.
– Mande outro para ele.
– Acho que andei fazendo uns servicinhos lá em casa e estou com dores nas cadeiras.
Devido a artrose pela idade as vezes ela tinha dores quando abusava mais. Normalmente resolvia com uso de antinflamatórios por poucos dias.
– Sabe doutor, além das minhas dores, amanhã marquei uma visita pro meu amado. Ele está gripado. Comecei um chá de guaco. Hoje ele estava amuadinho. Tosse com catarro branco, nariz pingando.
– Combinado amanhã eu passo lá. Pode adoçar o chá com mel, oferece mais água para ele e uma sopinha vai bem.
Dia de visita. Entro em uma casa tão simples, bonita e bem cuidada. Ela me mostra a horta da onde tirou o meu alface. Aquele ambiente limpo, organizado já me trouxe uma paz. O amado estava na mesa da cozinha e tinha uma jarra de suco de tangerina com cenoura que eu, obviamente, não recusei.
– Ah doutor, já estou melhor! Nem precisava. Mas sabe como ela é. Qualquer coisa tem que levar no médico. Ela é muito preocupada. Acho que o chá de guaco e mel tinham dado conta do recado e não precisei acrescentar muita coisa.
Alguns anos depois ela volta ao consultório.
– Meu braço doutor. Quebrou e colou errado.
Já fazia uns 2 meses que tinha sido atendida em um pronto socorro após queda que resultou em fratura de antebraço distal (perto da mão). Cidade pequena, conseguiu ortopedista para 3 dias depois, mas o mesmo estava de férias e ficou com a imobilização por um mês, quando marcaram a consulta.
– O ortopedista disse que agora só cirurgia, tem que quebrar de novo e depois consertar. Eu falei para ele que como ele sai de férias e não coloca ninguém no lugar. Não gostei dele. Não quero aquele médico, não. Mandou fazer fisioterapia por enquanto.
Constato pela deformidade óssea que o ortopedista estava certo. Encaminho para ortopedia (outro já que a relação com o primeiro não estava muito boa) e para fisioterapia. E passo algumas medicações para dor neuropática (por compressão de nervo).
Ela volta alguns meses depois, entra no consultório apresentando uma certa instabilidade ao deambular, que não era seu habitual.
– Fiz fisioterapia não melhorou. Passei no ortopedista que me passou um monte de remédio. Agora parou a dor, mas estou com uma tontura, por isso estou aqui.
Olho a receita com a prescrição de vários medicamentos anticonvulsivantes, antidepressivos, todos usados para dor neuropática.
– Que bom que os remédios melhoraram a dor e a formigação. Mas estou preocupado com os efeitos colaterais, por exemplo, esta tontura. Acho que está com dose alta e que temos que diminuir um pouco, se não a senhora vai acabar caindo de novo.
Ela volta 2 semanas depois:
– Aquele mesmo dia chegando em casa cai de novo, ainda bem que só ralei e não quebrei nada. Quando falei para meu amado que o doutor falou que era do remédio ele disse para eu parar. Ele disse que, quando começou a tomar,  parecia uma bêbada e não era para eu tomar.Sabe doutor ele é muito atencioso, precisa ver como ele chorou quando eu quebrei o braço. Até café da manhã levou para mim na cama. Disse que eu não posso ficar doente. Ele é um amor.
– Acho que a senhora é uma mulher de sorte e ele também por ter você. Voltou a formigar o braço?
– Por enquanto, não.
– Então mantemos sem o remédio. Quando retornar no ortopedista fala que eu tirei porque estava dando muita tontura e a senhora caiu. Não podemos deixar a senhora cair, se não seu amado ficará bravo.
A receita foi só orientações para evitar queda mais uma vez e com medidas para casa, calçados, e até uma bengala que ela não gostou muito.
E o amor estava no ar e o cuidado continua.