Nunca mais?

despedida-calouros-galera

Por Antônio Modesto

 

“Quer fazer exames de DST”, diz a anotação do ACS na agenda. O jovem oriental nas feições e no sobrenome, de olhos assustadiços e com uma cifose discreta, me lembra os estudantes da Engenharia que iam nas festas que o CA de Medicina organizava, atrás de cerveja barata e meninas bonitas.

– Eu sou Antônio, sou médico de família, em que eu posso te ajudar hoje?

– Eu vim fazer exame de DST.

– E por que você decidiu sair da sua casa pra fazer esses exames?

– Porque eu quero doar sangue, e achei que era uma boa saber se tava tudo bem antes.

“Aham… claro”

– E você tá preocupado com alguma doença em especial?

– Sim, AIDS.

– Você acha que pode ter pegado AIDS de alguma forma?

– Não… Acho que não…

“Aham… claro”

– Você teve relação sexual sem camisinha?

– Sim.

– Com quem?

– Com uma garota de programa.

– Entendi.

– Aí fiquei com medo de pegar alguma coisa e vim aqui.

– É, acho que você poderia ter pegado alguma coisa independentemente dela ser garota

de programa. É bom usar preservativo em todas as relações. Quando foi isso?

– Há seis semanas.

– Entendi. Mas me estranha que ela tenha topado transar contigo sem camisinha, me parece que elas têm sido mais cuidadosas…

– Ah, ela disse que tinha feito exame e não tinha nada…

– Sim, mas ela podia ter pegado alguma coisa de você!

– Não, eu era virgem.

“Puta que pariu, esse cara não tinha um amigo pra ensinar as coisas pra ele, não?”, penso. Me dá uma pena enorme dessa garotada dando mole.

– Aí eu falei com o meu irmão, ele ficou puto, disse que ela podia ter mentido…

– É, se eu fosse seu irmão, eu teria arrancado a sua cabeça, mas eu não tô aqui pra isso. Tô aqui pra te fazer esses exames e algumas sugestões. Tá em que série?

– Terceiro ano.

– E vai fazer o quê de vestibular?

– Economia.

– Economia! Legal…

Não fossem tempos tão tristes para a economia e a política nacionais, e eu teria feito um gracejo.

– Mas eu já tava pensando em mudar.

– Ah, é?

– É! Se eu tivesse AIDS, ia fazer farmácia.

– Putz, cê tá apavorado com isso, né? Vai lá fazer esses exames.

Depois de um breve aconselhamento pré-teste e daqueles longos vinte minutos, nos reencontramos.

– Olha, tá aqui: sífilis negativo, hepatite B negativo, HIV negativo. Hepatite C tamos em falta, mas a transmissão sexual é quase insignificante. Você usa droga injetável, tem tatuagem, fez transfusão de sangue…?

– Não.

– Então tudo normal. Legal!

– Ufa. E tem mais algum tratamento, algum remédio que eu precise tomar pra não ter nada? Eu vi que tinha outras doenças…

– Você deve tá preocupado com gonorreia, etc. Nessa altura, não. Possivelmente você teria percebido alguma coisa, e tal… Inclusive se você tivesse nos procurado em até três dias depois dessa relação, a gente podia ter te passado alguns remédios pra evitar que você viesse a pegar alguma coisa. Agora tamos tranquilos de outra forma, fica atento se não vai surgir ferida, corrimento na uretra, cueca suja de pus…

– É que eu descobri essa coisa dos três dias quando já tinha passado três semanas.

– Entendi. Mas ó, achei muito bom você ter procurado a gente pra cuidar disso. Espero que não precise, mas pode vir quando precisar.

– Tá bem.

– Bom então é isso. E cara, na faculdade vai ter muita oportunidade pra você transar. Tem muita festa, muita gente bacana… Precisa se cuidar, usa camisinha!

– Não! Depois dessa, eu não quero transar nunca mais!

“Aham… claro”

Matador de passarinho

P1290462.JPG

por Antônio Modesto

 

Às vésperas de me mudar pra São Paulo pra fazer residência, tive uma despedida dos amigos em um show no Odeon BR, na Cinelândia – um lugar que eu certamente levaria no meu coração quando saísse da cidade. Embora tenha me formado na UFRJ, não tirei meu primeiro CRM no Rio, porque logo iria embora; assim, o carimbo amarelo com o CRM paulista estava no bolso, como um símbolo de passagem.

Quem cantava aquela noite era Rogério Skylab. Se eu dissesse que em uma música ele aconselha uma mulher a entrar no banheiro, fechar o basculante e ligar o gás, e que em outra ele diz que matar passarinhos ajuda a espantar o vazio de existir, eu poderia gerar uma má impressão. Prefiro pensar no cantor como um esculhambador geral.

Ao fim da última música, Rogério – um homem franzino, de cabelos grisalhos, que lembra vagamente Fernando Gabeira – levanta um dos braços triunfalmente e cai no chão. Aplausos. Ele fica no chão. Aplausos. Continua no chão. Os aplausos escasseiam, as pessoas começam a ir embora, e ele no chão. “Gente, o cara tá lá deitado ainda”, eu digo pros meus amigos. “Você vai lá ver se ele tá passando mal? Agora você é médico!”. Hesito. Ninguém mais aplaude, as luzes do cenário apagam e ele continua lá, deitado.

Deixo os amigos pra trás e fico à beira do palco, onde encontro aquele frágil senhor deitado, o microfone ao seu lado. “É ISSO AÍ, ROGÉRIO! FICA AÍ MERMO!”, diz um espectador. Um assistente da banda começa a recolher os cabos, e Rogério deitado, irresponsivo. Respira discretamente.

“Será que o cara desmaiou?”, alguém pergunta do meu lado, e foi o suficiente pra nós dois subirmos no palco e agacharmos do lado do sujeito, chamando seu nome. Alguém da produção se aproxima.

“Eu sou enfermeiro, pode deixar”.

“Ah, legal, eu sou médico”

“Eu sou enfermeiro, ele é médico, tá tudo resolvido. Rogério!”

“hmmm”, ele se manifesta.

“Vamo levar ele lá pra dentro”.

Então me vi com uma semana de registro profissional, na minha festa de despedida, prestes a me mudar pra São Paulo, carregando Rogério Skylab do palco do Odeon BR para o seu camarim.

Tendo dado sinais de vida mais concretos no caminho, sentamos o homem em um sofá. “Meio caído esse camarim”, pensei, em um cômodo branco com um sofá de alvenaria, sem nenhum come ou bebe à vista.

“Por que vocês me trouxeram pra cá?”, perguntou, como se estivesse saindo de um transe.

“Você tava caído no chão, não respondia, a gente te trouxe pra cá”, disse o enfermeiro.

“Vocês acham MESMO que eu tinha desmaiado?”

Olho pro enfermeiro e respondemos em uníssono: “achamos!”

“Eu não estava passando mal… Eu tinha tudo planejado… Eu deitei no chão, as luzes iam apagar, e eu ia sair do palco quando as cortinas fechassem!”

Fiquei sem jeito de pedir um autógrafo.

Bruxo

gandalf e galadriel

por Antônio Modesto

 

Ele parecia um Hell’s Angel que engordou, se aposentou e trocou a moto por uma picape; ela, uma ex-hippie, tanto pelo figurino quanto pelo fogo de outrora, hoje domado pela experiência, mas que ainda escapava pelos atentos olhos azuis. Do meu lado, o residente de vinte e poucos anos. Ele tinha vindo para reavaliação depois de ter iniciado insulina e tido diagnóstico de hepatite C – nunca saberemos se pelas transfusões antigas ou as agulhas compartilhadas nos anos 70. Hoje era apicultor e, na equipe, tinha o apelido de Bruxo. Na consulta, é o Bruxo quem quer respostas: “o que eu posso fazer pra não piorar?”.

“O mais importante a fazer é não ingerir bebida alcoólica, até porque não sabemos se há lesão hepática, precisamos do laboratório e do ultrassom. Qualquer quantidade de bebida pode piorar uma eventual lesão”.

“Nem o xarope que eu preparo?”, pergunta, me contando a receita de um combinado de ervas diluídas em álcool.

“Se puder diluir em outra coisa, melhor”, respondo, tentando esconder que não tinha certeza se quantidade irrisória de álcool seria danosa.

“Não, doutor, eu passo no álcool e depois diluo em água, fica essa quantidade”, diz, gesticulando.

“Ah, então sobra muito pouco…” (minha dúvida era tanta que não lembro a que conclusão chegamos). “Quanto ao diabete, já conversamos sobre a alimentação, se o senhor puder começar alguma atividade física e perder peso, vai controlar melhor e, de repente, dá pra tirar a insulina e ficar tomando remédio pela boca”, oriento, tentando não lançar para a mulher aquele olhar de “prestou atenção?”.

“Que bom, doutor. Então vou poder continuar fumando meu cigarrinho…”, diz, rindo.

O residente se mexe na cadeira, acho que murmura um “não”.

“Bom, não é uma boa, porque o cigarro faz mal pras artérias”, e bla, bla, bla, “você não deveria fumar”.

“Não, doutor, não é esse cigarro, não…”

Quando volto a esse momento não consigo lembrar se não entendi, não acreditei ou não queria perder essa.  “Qual é, então?”.

“É…”, hesita, contando moedas invisíveis com polegares e indicadores,  “cannabis…”

“Cannabis…”, repito, ganhando segundos preciosos. “Fuma todo dia?”

“Todo dia, doutor…”

Não perguntei há quanto tempo, não precisava. Aliás, acho o apelido da equipe muito adequado: mais que um Hell’s Angel aposentado, ele parecia um Gandalf fora de forma.

“Eu acordo, aperto uns três, aí vou fumando durante o dia…”

“Três por dia…”, repito, não dou conta de tanta novidade. A mulher, então, toma a frente.

“Não, doutor, é assim: todo dia ele acorda, aperta um maço de baseados, fuma um, toma café, pega o carro e vai pra Miguel Pereira, cuidar lá da abelhas dele…”

“VOCÊ DIRIGE FUMADO ATÉ MIGUEL PEREIRA?”

“Dirijo” – e ri, o Gandalf das abelhas.

“Eu nunca conseguiria… Não é perigoso, teus reflexos não diminuem?”.

“Doutor, eu faço isso há vinte anos, nunca bati o carro”.

“Caramba…”

“É verdade, doutor”, diz a mulher, “ele é o melhor motorista que eu conheço”.

“Minha mulher já me disse isso”, penso, “é uma baita declaração de amor”.

“Uau…”, murmuro. “Mas e aí, cê compra?”

“Compro. Eu já plantei, doutor, mas hoje eu compro”.

“É difícil plantar, né?”.

“Né não, doutor… Com a luz certa, vai fácil!”.

“Prensado?”

“Prensado”.

“Bem… Claro que não faz tão mal quanto cigarro, que tem um monte de porcaria junto, que o risco de câncer e outras doenças é muito alto, e tal, mas não sei até que ponto essa quantidade de fumaça inalada não pode fazer mal aos teus pulmões – um enfisema, por exemplo. Até porque eu soube que no prensado eles colocam amônia, um monte de coisa…”.

“É, botam mesmo”.

“Então eu pensaria em diminuir essa quantidade. Outra coisa que tá muito claro é que pessoas que fumam muito tempo podem ter prejuízos importantes na memória, até permanentes”.

“Ih, doutor, isso aí eu já tenho”, e ri, o Gandalf da cannabis.

“Bom, podemos avaliar isso direito num próximo encontro, posso testar tua memória, mas não notei nada muito esquisito até agora. Meu medo é você ficar velho e lesadão, sabe? Tipo, que não lembra nada, não entende direito o que tá acontecendo, e tal… Imagino que você não queira isso”.

“Não, doutor”.

“Então acho que você podia pensar em diminuir um pouco essa quantidade, aí”.

“Pode deixar, doutor”, diz, sem convencer a ninguém na sala.

Tudo bem, já foi muito por hoje. Receitas, apertos de mão, marcação de retorno, e saem Gandalf e Galadriel a criar abelhas e fazer poções, deixando um feiticeiro e seu aprendiz a pensar na vida.

* * *

Enviei uma primeira versão desse texto ao residente, que me respondeu por email: “Estive com o próprio (Rúbeo Hagrid/Gandalf/Bruxo) hoje!  Já começou a mudar os hábitos. Mudança na dieta, é claro… A cannabis fica!”.

“Que bom que gostou”, penso. “Tenho que lembrar de discutir a relação entre cannabis e hiperfagia no retorno”.

Raciocínio clínico

por Antônio Modesto

Homem, idoso, pernas cruzadas

– Oi, eu sou Antônio, sou médico de família, supervisor do Dr. Fulano. Hoje ele tá meio enrolado, tudo bem você passar comigo?

– Tudo.

Polo surrada enfiada na bermuda mais surrada. Sinais de tabagismo. O cinto é novo.

# Magro demais?

# Abordar tabagismo

– Que que eu posso te ajudar hoje?

– Doutor, eu tenho 83 anos,

Mais velho que o meu pai

Meu pai morreu

– Sou hipertenso,

# Abordar hipertensão

– Vim aqui fazer uns exames pra ver como eu tô.

# Checar laboratório HAS

# Prevenção quaternária

# Demanda oculta?

– Mais alguma coisa?

– Ultimamente eu tô tendo tontura.

Odeio tontura. Encaminho logo?

# Síncope? Vertigem?

# HAS + idade + tabagista. Isquemia?

– Mais alguma coisa?

– Não.

– Então você tem pressão alta, veio acompanhar, talvez fazer uns exames, e tem tido tontura.

– Isso.

Conversa sobre a tontura

# Não é síncope. Não é vertigem. Não é isquêmico.

Exame físico. Pressão pouco alterada

# Não é neurológico. Parece não ser cardíaco.

– E quando é que te dá essa tontura?

– Normalmente de manhã, quando eu tô indo pro trabalho.

– Você acorda, se arruma, toma café, e vai pro trabalho.

– Não, eu não tomo café.

– Ah, você não toma café?

– Não.

– Então você sai de casa em jejum.

– Saio.

Silêncio

– A não ser que eu teja ficando tonto por que eu tô saindo sem comer…

Óbvio, né

– É, você sai em jejum, algumas pessoas ficam tontas quando saem de casa sem comer nada.

– É…

– Mas por que você não come nada antes de sair de casa?

– Porque doutor… Esses últimos três meses eu tô morando com a minha irmã…

# Privação financeira? Divórcio?

– E eu não quero dar trabalho.

– Mas por que, grana?

– Não, eu tô na casa dela, e não quero dar trabalho, acordar ela…

– Mas você não pode preparar o café?

Peguei pesado?

– Posso, mas vai fazer barulho, a casa é pequena… Mas eu posso comer fora de casa…

Conversa sobre como pretende comer cedo pra não ter tontura de fome

– E por que você tem morado com a sua irmã?

Vai dar merda

– Doutor, eu

Meteu a mão nos olhos e começou a soluçar

Fodeu

# Mantenha a calma.

# Cale-se. Aguarde.

Pego ou não pego nele? Melhor não

O homem para de soluçar e conta que está separado da esposa, com quem viveu dezenas de anos até dois ou três meses atrás. Não entendi, após algumas tentativas, por que se separaram. Parece que ele gosta muito dela, quer voltar, mas ela o recebe na porta de casa quando a visita.

– E você acha que ela tá com outra pessoa?

– Não, ela só não quer que eu entre em casa.

Conversa sobre os remédios da pressão.

Prescrevo, peço exames, programo retorno.

Então o senhor volta com o Dr. Fulano, dia tal, hora tal. Eu devo estar por aqui, se ele precisar de alguma coisa, vai conversar comigo.

Cumprimento perto da porta. Fecho a porta. Me jogo na cadeira.

# Tontura (fome) => vai comer de manhã. Orientações.

# Divórcio => atentar para depressão.

# HAS => Medidas de PA. Colher laboratório. Retornar em um mês. Considerar aumentar amlodipino.