Sobre Perdão

por Carolina Reigada

Essa história vem de aaaantes da pandemia. A atendi em um momento delicado da vida. Descobriu que o marido, com quem compartilhava a vida há mais de 30 anos, a vinha traindo, sempre com a mesma mulher, inclusive na própria casa deles e – golpe quase fatal – o filho tudo sabia, e tudo acobertava. Dupla traição. Seu porto seguro era a filha, com quem abria o coração, e o neto, que alegrava seus dias. Tivemos algumas consultas, mas a pandemia nos interrompeu – interrompeu todo o mundo. Um ano se passou, ela retorna ao consultório. Quis perguntar sobre os conflitos familiares, mas ela entrou com outra agenda: pegou COVID. O marido, que tinha colocado as coisas no carro e se mudado para o estado em que mora a amante, começou a ter sintomas no mesmo período. A amante, também.

Marido e amante evoluíram rápido para quadros graves, e precisaram de internação. Ele não conseguiu vaga, e quando conseguiu, faleceu em dois dias. Ela, internada, após mais de um mês de cuidados intensivos, recebeu alta.

“Como a senhora ficou com o falecimento do seu marido?”, eu perguntei

Ela me contou que nem deu tempo de sentir. No dia que o corpo do marido chegou à Brasília, ao que seu filho saía de casa para o enterro do pai, ela saía de casa para o hospital, pois a falta de ar só piorava. Lembra de chegar em um primeiro hospital, de ser internada, de ver a filha falando com médicos.

Depois, se lembra de acordar e se ver rodeada de médicos, em um leito de hospital.

Olhou para a porta e leu “centro de cuidados intensivos”, e o nome de outro hospital, muito longe de sua casa.

Olhou novamente para todos aqueles médicos.

“Você está bem?”, eles perguntaram.

“Sim”, ela respondeu, sentindo-se flutuando no vazio.

Nisso, um deles mostrou, em um tablet, uma foto da filha e do neto.

Ela me contou que, nesse momento, uma EXPLOSÃO de alegria aconteceu no peito dela, que a deixou até sem palavras para explicar. Ali, ela encontrou todas as explicações que precisava, vendo aqueles dois rostinhos.

Recebeu alta, foi pra casa, começou todo o processo de recuperação e reabilitação fisioterápica que 22 dias no CTI impõem ao corpo.

Começou, também, a curar seu coração.

“Antes, meu coração era escuro e duro, parecia uma pedra de carvão, de tanto que eu desejava o mal pro meu ex-marido e pra amante dele. Eu só pensava nisso, era uma obsessão. Me fazia mal. Minha filha foi conversando comigo, falando em perdão, e hoje eu só sinto aquela mesma alegria de quando eu vi os rostinhos deles no tablet. Não tem espaço no meu coração pra toda aquela escuridão.”

“Fico muito feliz por você”, eu falei. “Perdoar é um ato de amor a nós mesmos, nos livra dos pesos para que possamos seguir em frente.”

“É, hoje eu ainda não entendi que ele morreu. Pra mim, ele ainda está lá, na casa da amante.”

Aí ela deu um sorrisinho.

“E ela sobreviveu, mas está muito mal, viu? Vi as fotos do aniversário dela no facebook. E acabou que não nos divorciamos no papel, então ele morreu como se ainda estivéssemos casados.”

“A senhora dedicou mais de 30 anos da sua vida a cuidar dele, mesmo”, eu falei

“É. Eu perdoei. Mas ela que não venha procurar problema aqui, que tudo que ela ganha é um tapa na cara”

Eu soltei uma risada. Reabilitar o coração demora mais tempo que reabilitar o corpo, e isso todos nós sabemos.

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