Sônia

por João Rana


Aos 30 anos anos, Sônia morreu.

Sim, Sônia morreu, faleceu. Partiu, teve um fim, foi-se embora, realizou a passagem ou “foi para os braços do Pai”, como dizem os mais religiosos.

Seu funeral não sairá nos jornais, tampouco serão ofertadas homenagens públicas à sua pessoa. O mundo não irá parar e a bandeira não ficará a meio mastro Brasil afora.

As cidades seguirão suas rotinas como sempre: trabalho, sirenes, gritaria, buzinas… trivialidades… barulho de obra no escritório ao lado, uma criança pedindo esmola na sinaleira, dois passarinhos desconfiados repousando na sacada do prédio, o eco de “Bora Bahêa Minha Porra!” ao gol do tricolor, o vizinho que exibe orgulhoso a potência do seu home theater com a live do Luan Santana… silêncio.

Ocorreu algo que (infelizmente) era esperado por muitos de nós, veteranos de guerra da Atenção Básica, mas que nem por isso perdeu seu teor trágico e pessimista.Em vida, Sônia mantinha sempre que possível, com uma naturalidade inabalável, um sorriso e um respeito por todos que a atendiam e a conheciam. Até mesmo a icterícia não conseguia afastar a profundidade e o brilho do seu olhar.”Sim, senhor.” “Não, senhor.” “Valeu, Andréa!” “Muito obrigado, doutor Rana. Deus te abençoe.” “Eu dou muito trabalho a vocês, né?”.

Em nossa relação, sua revolta residia apenas numa iminente medicação injetável: “Ah, não, doutor! Vou tomar não! Injeção não, Deus é mais! Oxe!”. Um medo para aqueles que restavam ter medo de pouca coisa, tamanha coragem ou diminuta perspectiva diante do sofrimento: antes dos quarenta, Sônia tinha cirrose hepática Child-Pugh B pelo uso de álcool. Sua mãe, antes dos 60 anos (aparentando 80), padeceu da mesma condição. Uma irmã mais nova, aos 14 anos, faleceu por uma intoxicação alcoólica aguda, um tempo após dormir embriagada sobre um recém-nascido, morto por asfixia. Quase todos os seus familiares fazem uso nocivo ou são dependentes de álcool, constituindo uma ferida social e intergeracional absurda, cujas raízes entremeiam-se com a pobreza, a desestruturação familiar, a educação básica precária e (sim) com a historicidade da escravidão. Sônia não ia à unidade básica de saúde frequentemente (embora devesse fazê-lo). Quando comparecia, prometia retornar em breve, como solicitado, mas sempre esbarrava em alguma situação que a impedia ou a desestimulava em estar presente. Grande parte dos seus atendimentos foram em visita domiciliar. Eu percebia uma certa vergonha e desconforto em ser vista daquela forma, diante da sua vaidade e pouca idade, mesmo que objetivamente precisasse. Em muitos atendimentos ela encontrava-se com algum grau de alcoolemia, o que embora lhe desse um ar irônico e anedótico na própria fala, com risco inclusive de amnésia posterior e outros constrangimentos, a fazia sentir-se mais relaxada para discorrer sobre si mesma. Da última vez que a vi, estava com as pernas bem inchadas, provavelmente por conta da sua hipoalbuminemia, não conseguindo calçar a própria sandália. Ela adentrou a unidade com os pés descalços neste dia. Éramos velhos conhecidos, sem meias palavras. O brilho já era bem ofuscado pelo amarelo, mas ainda estava lá. Mediquei, orientei, falei com um familiar e pedi que não demorasse pra voltar, mas não surtiu efeito. O mesmo aconteceu quando foi encaminhada ao CAPS, para manejo conjunto do seu alcoolismo pelo psiquiatra e psicólogo, ou quando foi referenciada a um gastroenterologista, devido à sua cirrose hepática. Neste último, nem mesmo chegou a ir.

Sua agente comunitária de saúde (ACS) é um dos seres humanos mais especiais que tive a honra de conhecer. Não há duvidas de que Sônia teria vivido muito menos se não fosse a existência dela. Mas nem sua dedicação e atenção foram suficientes para que ela fosse salva, pois Sônia vivia em um ambiente totalmente desfavorável à sua saúde, sem conseguir desvencilhar-se. As paredes de sua casa ruíam, tal qual seu fígado, e é bem provável que a bebida lhe oferecesse alguma companhia para afastar o vazio, anestesiando a constatação de tamanha iniquidade. Os móveis, bem surrados e avariados, pareciam ter sido doados ou adquiridos em algum terreno baldio. Entre a sala e a cozinha, uma mesa improvisada com cadeiras e uma tábua de madeira servia de repouso para peças de dominó dispersas: um jogo caótico e improvisado encenado em aridez de vida. Frequentemente se achava a casa de portas abertas, empoeirada e com fluxo livre de pessoas. Muita exposição e pouca delimitação para o exercício da própria individualidade, segurança e privacidade. Vizinhos próximos de costumes alcoolistas costumavam se reunir naquelas redondezas, num vai-e-vem, sendo que muitas vezes a casa servia de ponto de encontro. A maior parte da renda da casa era proveniente da aposentadoria do pai de Sônia, com o restante vindo da ajuda financeira de um irmão, alguns trabalhos domésticos que fazia com uma irmã e o auxílio de benefícios sociais. O namorado de Sônia, vulgo “Ninho”, também tinha problemas com o álcool. Possuía cerca de 1,60m, aparência franzina e sinais de que sofreu desnutrição na infância. Demonstrava preocupação com a companheira. Pegava remédios para a mesma, perguntava sobre seus exames, a visitava no hospital quando internada, mas por vezes não tinha as mínimas condições cognitivas, psíquicas e sociais de ajudá-la.Ajuda financeira com medicamentos não disponíveis no SUS, jogo aberto, cuidado e interdisciplinaridade não deram conta do que ela precisava.Penso o que poderia ser feito de melhor e diferente. Outrora imagino se ela mesma (ou eu, inconscientemente) não desejava seu descanso finalmente, após tantos percalços. Logo depois, reflito sobre o que pode ser uma negação pessoal da realidade manifesta. Pois se não podemos desistir das pessoas, também precisamos reconhecer os nossos limites para extrair potências luminosas da escuridão das nossas impotências. Antes de mais nada, não podemos desistir de nós mesmos.De um jeito ou de outro, sua morte não poderia acontecer em vão, de modo que amplifico quantas “Sônias” existem por aí, nos bastidores da nossa alçada de “país em desenvolvimento”, totalmente às margens da sociedade. Quantas ainda morrerão ou, pior, experimentarão a morte em vida? Desesperança, desamparo, desagregação, compulsão… e ao mesmo tempo ternura, respeito e humildade.

Desculpe por qualquer coisa, Sônia, e obrigado. E se este mundo não permitiu que você fosse devidamente valorizada no palco da vida, que sejas ao menos protegida e lembrada no descortinar dos véus do teu drama.

Quando penso em desistir da Medicina, algo de inexplicável (que acesso após a tempestade) me faz procurar feixes de luz em meio ao caos absoluto. Eu chamo isso de “alma” e ela se expressa muito na escrita. São lutas desiguais que precisamos travar todos os dias, mas mesmo quando perdemos, nossa alma pode aprender e ganhar algo com isso. Não sei se é necessariamente bom, mas sinto ser algo que não morre e que não tem preço: atemporal, imaterial e universal, manifestada de um jeito ou de outro, singularmente, em toda vida humana. Dar voz, vez e vida aos esquecidos, marginalizados e renegados. Iluminar as nossas sombras e refletir sobre elas nos permitem integrar aquilo que também negamos ou ignoramos em nós mesmos, enquanto indivíduos e sociedade, em busca de uma existência mais inteira, solidária e consciente. A procura da essência do outro que reverbera em mim, apesar de tudo e de todos, que se não consegue impedir a morte em vida, ao menos busca renovar a vida na morte.

Eu nunca vou me esquecer de você, Sônia. Que os espíritos de luz (se existirem) estejam em sua companhia.


PS: nomes fictícios inspirados em uma história real.

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