Diga 33

por Marianne Guimarães Villela

I
Gostaria de te conhecer. Ver você entrar pela porta do consultório, se sentar na cadeira,
talvez um pouco irritada com a insistência de ter de estar ali. Você não gostava de ir a
médicos.
Naquele dia de nosso primeiro contato voltava das visitas domiciliares. Calos pra resolver
na primeira, uma despedida antecipada de pés descalços em outra. Com meu suco em
mãos e a bolsa pesando nos ombros avistei a reunião familiar.
Em roda, no gramado do caminho cotidianamente apressado estavam lá. Não os conhecia
também. Em um olhar cúmplice com minha companheira de equipe, pedi alguns minutos
para voltar. Fim do começo de uma noite sem fim.
Na sala, suco à mesa, me livrei do peso da bolsa e olhei para o relógio. Seu tempo estava
parando, o meu continuava a correr. Ou seria o contrário?
Voltei àquela reunião. O outro médico gesticulava, explicando o inexplicável que se
antecedia, a esperança em uma transferência pro hospital, em uma medicação. A
esperança como a raiz daquela grama verde que também crescia ali, da qual ninguém
ousaria arrancar uma só folha.
Grama na qual nos sentamos, eu e sua mãe. Então a chuva chegou, chuva de perguntas:


“-Doutora, minha filha vai viver? Mas me diga, tem jeito?

– Marianne, por favor me diga, minha filha vai viver, não vai?”

II
Ainda sem te conhecer, chamei sua mãe para o consultório. Ela entrou, sentou na mesma
cadeira. No punho trazia amarrada uma fita: salmo 91. Ano do meu nascimento. Me fitava
com olhos assustados. As mesmas perguntas somaram-se às promessas do futuro. E às
cobranças do passado.
Então te vi pela primeira vez. Na foto já existia a máscara. Sua mãe me contou dos sonhos,
de sua vontade de fazer faculdade. Me contou do medo de sair de casa e se contaminar, da
vez que saiu para fazer ENEM. Me contou da culpa por ela, sua mãe, ter que sair para
trabalhar todos os dias.
A segunda vez que te vi estava de olhos fechados. O quarto do isolamento deixa ver pelo
vidro. Na conversa com o médico da sala amarela mira-se a esperança e o não dito do real,
em ondas profundas como seu respirar. Na despedida com sua mãe coube um abraço
despedaçado, a fé dela e minha resposta de amanhã.

III
Oito e trinta e três.
Uma vida se passou antes desse momento chegar. Da janela do quarto a vi partir. Da porta da
espera segurei sua mãe, bússola de ímã forte. O ponteiro suspenso respondeu mais uma última vez.
Oito e trinta e três.

No infinito espaço entre os oitos chorei, revendo sua cadeira vazia.

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