Sementinhas de mostarda

Raízes: tipos de raízes, estrutura, características e funções

por Arthur Fernandes

Era terça-feira, qualquer coisa entre três e quatro horas da tarde. Segundo a escala, dia de atender a demanda geral, isto é, pessoas com outros problemas além dos sintomas respiratórios (tosse, falta de ar, dor de garganta) considerados suspeitos em tempos de coronavírus.
Em meio à pandemia, “outros problemas” são, bem, todas as outras coisas pelas questões as pessoas já adoeciam antes, adoecem hoje e continuarão adoecendo mesmo depois que tudo isso passar. Incluem: pressão alta, diabetes, “artrose”, problemas de tireoide, os mais diversos transtornos mentais e por aí vai.
Ah, e o câncer.
Chamei dona Rosa no corredor e aguardei. Alguém havia marcado a consulta para renovar receitas de medicamentos para dor. Aguardei mais um pouco. Quando retornei ao corredor para conferir, Rosa vinha caminhando lentamente, com ajuda de uma bengala, mancando pela perna esquerda.
– Desculpe, doutor. É que a perna não tá ajudando hoje.
– Não por isso. Me conte: como posso ajudar?
– Trouxe esses exames pro senhor entender meu caso. Eu sou paliativa.
Essa não é uma frase comum de se ouvir em uma primeira consulta. Conferindo os exames, vejo que a tomografia mostra metástases ósseas, isto é, lesões cancerosas espalhadas. Rosa explicou um pouco do processo que começou com dores há mais de um ano, culminando naquela consulta.
– Depois de uns meses, enquanto ainda aguardava marcarem exames, senti um caroço no peito. Ele foi crescendo e acabou virando isso aqui em pouco tempo.
Abre a blusa devagar e, apontando o seio esquerdo com cuidado, mostra uma lesão muito sugestiva de câncer de mama em estágio avançado. Fazia sentido já ter metástases em ossos (e, provavelmente, em outras partes do corpo).
– Quando vi isso, tive certeza do que era, mesmo sem mais exames. E também tive certeza do que não quero: tratamentos inúteis. Eu sei que a medicina de vocês não pode me prometer dois anos de inferno, com quimio, cirurgia e radio, por mais dez anos de vida boa. Então não tem sentido em procurar tratamento. Por isso, eu sou paliativa.
– E o que você entende dessa situação que conversamos, considerando o diagnóstico e sua expectativa?
– Eu tenho dois entendimentos. Um físico e um espiritual. Qual o senhor quer saber?
– O que você preferir.
– Bem, da parte do espírito, eu sei que tudo que estou passando é uma depuração. Vai servir pra me ajudar a chegar melhor na vida de verdade, do outro lado, sabe? E pela vida que eu vivi nessa terra, fazendo coisas boas, sei que vou pra um lugar melhor depois que desencarnar.
– E da parte física?
– É aí que eu tenho medo. Morro de medo. Parece até engraçado dizer isso agora, assim, na frente do senhor. Tô morrendo de câncer e de medo. Mas tô mesmo.
– Do que você tem medo?
– Da falta de dignidade. Eu não consigo fazer cocô no vaso há dias porque dói demais ficar na posição sentada. Preciso da ajuda de amigos pra fazer quase tudo pra mim. Até vir a consulta é difícil. Eu sei que depois da morte vou encontrar uma situação melhor. Mas até lá, eu tô viva, e vou viver um inferno nesse corpo doente. É disso que tenho medo.
Conversamos mais um bocado sobre como era sua vida até então e suas preferências adiante.
– Eu era vegana, sabia? Veganinha. Comia certinho. Nunca fumei, nem bebi. Fazia ioga e pilates. E tinha um cachorro e um gato, que resgatei das ruas. Minha avó me ensinou a ser raizeira. Minha outra avó me ensinou a ser benzedeira. Nunca precisei tomar remédio pra nada. Agora preciso. E é ruim. E eu sei que o senhor, com a medicina, só tem remédio mesmo.
– É verdade que a medicina usa muitos remédios… Mas me conte, que outros tratamentos você fazia?
– Usava muitos chás, emplastros, infusões… E a auriculoterapia. Ah, como era bom o efeito das sementinhas na orelha.
– É mesmo?
– É. Ajudavam a organizar a energia dos chacras. Mas faz tempo que não faço mais, e por causa da doença. Já não consigo ir ao centro onde aplicavam.
– Que tal fazer uma sessão de auriculoterapia hoje?
– Mas como?
– Fazendo. Bem aqui. Comigo.
– E o senhor, médico, também trabalha com as medicinas antigas?
– Já pratico tem um tempinho. A senhora pode até escolher: sementes de mostarda ou pontos de ouro?
– Sempre gostei do natural. Mostarda mesmo!
Em cuidados paliativos, sempre é sobre isso: dignidade. Para dona Rosa, o câncer continua e a dor, ainda que paliada, também. O mais importante para ela é sua dignidade em uma vida que faz sentido. E com sementinhas de mostarda.

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