Contato físico

por Maria Carolina Falcão

Isolamento Social | GPET Física

“Dor no pulmão, sensação febril, calafrio e dor de cabeça”.

Assim chega a segunda paciente do dia, relatando suas queixas para o profissional da triagem. Paciente direcionada à sala de isolamento para atendimento, uma vez que seus sintomas são compatíveis com infecção pelo novo coronavírus.

Entro na sala e percebo um rosto (ou meio rosto, já que agora estamos aprendendo a reconhecer os outros pelos olhos) conhecido. Tínhamos nos visto há 5 dias., sem sintomas desse tipo. “Oi doutora Carol, sábado começou do nada uma dor de cabeça, um mal estar danado… Sinto um negócio aqui que nem sei” dizia, massageando o peito e pescoço. Peço para explicar de novo, como/quando tinha começado, se faltava o ar, se precisou tomar medicação.

“Começou logo depois que vi meu neto no vídeo. Ele fez assim com a mãozinha, chamando ‘vem vovó’ e eu não pude ir, doutora. Eu não pude ir…” Diz, com os olhos marejando. “A minha nora ficou com medo, sabe? Botou o menino debaixo do braço e carregou de volta pra Paraíba. Ele nasceu lá em casa, eu apertava ele aqui nos peito todos os dias”. A essa altura, já afastava pelo exame físico básico qualquer sinal de falta de ar preocupante, febre ou alteração na pressão. Pergunto o que tinha feito depois disso. “Ah, eu acabei não deixando chorar o que precisava na hora e acho que fiquei com dor de cabeça por isso” desceu a primeira lágrima. Entrego uns lenços de papel, querendo saber qual era o problema em chorar. “Aqui num tem, né?”, aperta os olhos, deixando o choro vir.

Questiono sobre a dor no peito: “Eu tô é sentindo um vazio, um aperto. Mas quando eu respiro dá uma melhora… Eu posso estar com o corona?” Pondero se pode ser falta do neto, falta de contato. Ela diz que sim. “E pior é que não tem remédio pra saudade. O remédio mesmo é agarrar ele. É colocar o menino aqui ó, dentro do peito. Saudade matadeira, doutora. A pior que tem”, seca as últimas lágrimas.

Hipótese diagnóstica: saudade matadeira. A pior que tem.

Oriento sobre manejo do distanciamento social, sobre sinais e sintomas do novo coronavírus, sobre as indicações de retornar à clínica ou procurar assistência. Pensamos em ferramentas pra diminuir a distância, pra contornar a falta.

“O vídeo não é a mesma coisa não… mas é o jeito” dá de ombros, agradece e se vai. Fico pensando em quando ela vai conseguir ter o remédio que precisa, esse tal de contato físico. Esse aperto no neto, pra preencher o vazio que ficou com o isolamento.

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