Uma das experiências mais difíceis que a medicina me proporcionou

por Leonardo Cardoso

Divagar entre PINTURAS e outras ARTES: Um Abraço em Pinturas

-Boa tarde, D. Ester? Meu nome é Leonardo e falo em nome da Secretaria Municipal de Saúde, tudo bem?
-Tudo, meu filho. Na verdade, não.

Ela me fala sobre o internamento do filho, a descoberta que ele estava com coronavírus e sobre o dia em que ele partiu. Conta-me que seu outro filho veio para cá para cuidar dela na última semana e que no dia em que conversamos haviam feito o teste para pesquisa do Covid. O dele negativo. O dela positivo.

-Meu filho, estou com medo. Estou com alguns sintomas. Tenho medo de piorar. Medo de contaminar meu filho. Medo de morrer. Medo de perder ele. Eu acabei de perder um filho.

Esqueço tudo o que está ao meu redor. Essa ligação é diferente de todas as outras que recebi nos últimos meses. Pergunto sobre problemas de saúde, confirmo os sintomas e algumas informações necessárias. Explico como iremos ajudá-la.

-D. Ester quero novamente colocar nosso serviço à disposição da senhora. Pode ficar a vontade para ligar se precisar.

-Muito obrigado, meu filho.

-E D. Ester, eu queria dizer pra senhora que não posso imaginar o que a senhora está sentido, por que eu acredito que apenas uma mãe que perde um filho pode mensurar essa dor…

A senhora do outro lado da linha começa a chorar. Um choro sincero. Um choro doído. Um choro que só me faz pensar em como queria abraça-la neste momento.

-Mas, quero dizer pra senhora que estou aqui se a senhora precisar. Quero que saiba que nesse momento eu peço que Deus esteja confortando e consolando seu coração.

Chorando, ela diz que questiona o porquê de Deus não ter levado ela no lugar dele.

-Eu entendo a senhora. É normal as dúvidas surgirem. Mas, se tem uma coisa que tenho aprendido ao longo dessa caminhada que escolhi é que nada acontece por acaso. E eu acredito que seu filho está num lugar tranquilo agora, em paz, e que um dia vamos todos nos encontrar.

-Meu filho era muito espiritualizado. Muito bom. Ele está sim.

Aos poucos ela vai parando de chorar.

-D. Ester, se a senhora me permitir, posso colocá-la em minhas orações?

-Pode sim, meu querido. Você faria isso?

-Farei, sim. É uma forma de estar perto da senhora neste momento em que não podemos estar tão próximos e nos abraçar.

-Ah, meu querido. Muito obrigado mesmo! Foi tão bom falar com você. Que Deus o abençoe, sua caminhada, seu trabalho.

Nos despedimos e quando desligo o telefone um turbilhão ocorre em minhas emoções. Seguro. Nem sempre podemos dar vazão a nossas emoções no exato momento em que elas vêm. Há vários outros pacientes aguardando por um atendimento do outro lado da linha.

Saio do trabalho e continuo pensando em D. Ester. Existem alguns pacientes que mexem com a gente de forma especial. E quando sento para escrever sobre sua história, já no fim da noite, dou vazão as minhas emoções. Lembro dos meses em que acompanhei D. Júlia e de como chorei enquanto escrevia sobre ela. O mesmo ocorre agora quando escrevo sobre Ester. Choro. Por ela. Por sua perda. Por não poder abraça-la. E peço apenas que Deus a abrace por mim.

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