Com todo o respeito

por Maria Carolina Falcão

Comiseração Autofágica, Negra Composição de Esfínge Raivosa = CÂNCER (  Decifra-me, Ou te Devoro ) Pintura por Felippe H. Soares | Artmajeur

Com todo o respeito, dá licença?

“Oi doutora Carol, não sei se você lembra de mim…”

Entrou na sala de observação gemendo de dor. Lembrava sim. Há meses que ele não aparecia na clínica, mas lembrava. Falei o nome da esposa e do filho mais novo. Lembrei do pré-natal que começamos tardiamente lá na clínica. Lembrei que eles tinham se mudado recentemente de uma comunidade vulnerável e violenta de outro canto do Rio de Janeiro. Perguntei sobre os outros filhos mais velhos. Hoje tinha vindo só.

Estava visivelmente mais magro, mas lembrava. Lembrei do diagnóstico de HIV e de como isso afetou a família. Lembrei de todo o processo de início de avaliação, exames, investigação da família, encaminhamento da esposa ainda grávida para suporte especializado… Encaminha pra confirmar diagnóstico, encaminha pra ver carga viral, encaminha pra retirar medicação de tratamento. Encaminha pra assistência social, explica sobre Bolsa Família, orienta vacina dos filhos mais velhos. Não tinha como esquecer.

“Preciso de ajuda.” Pedi pra entrar no consultório.  Relutou um pouco, se contorceu na cadeira. Incentivei que me contasse o que o trazia de volta: “Tô com alguma coisa errada, comtodorespeitodálicença, ali no pinto.”

Assenti, pedi pra olhar. Comtodorespeitodálicença, me mostrou. Lesão por herpes. Continuei o exame físico: candidíase na boca, íngua na cervical, manchas nas mãos. Não me lembrava de nada disso anteriormente. Perguntei sobre o remédio, sobre como estavam as coisas, sobre o último exame que havia ficado pendente no nosso último encontro. Não estava tomando, não estavam bem e não havia feito. Perguntei o que estava acontecendo. Olho marejou:

“Tô morando na rua. Ela me botou pra fora”.

Explicou que não ia mentir pra mim, estava usando mais coisas do que eu imaginava. Enumerei drogas que vinham à minha mente: cigarro, álcool, maconha, crack… Suspirou e comentou que não estava tomando o antirretroviral* há 1 mês, mas que não podia mentir pra mim. Explicou que não estava comendo todos os dias, mas que se virava numa pensão do bairro. Sugeri algumas opções, envolvendo acolhimento em algum local para higiene e alimentação. Nega. Tem medo de que lhe façam mal se descobrirem que usa medicação. Insisti na possibilidade de precisar internar, caso não consiga manejar seu tratamento na rua. Relutou mais uma vez: “Prefiro ficar na rua”.

Pactuamos reiniciar a medicação e outros tratamentos necessários. Intervenção breve e redução de danos sobre as drogas. Ofereci banho na clínica mesmo. Combinamos de fazer uma revisão em duas semanas. Pedi pra que lembrasse de mim e dos nossos pactos durante o carnaval que estava pra chegar. Confirmei, mais uma vez, a data que o queria ver de volta. Abre um meio sorriso: “Doutora Carol, mentir pra você é o mesmo que mentir pra mim”. Comtodorespeitodálicença, me cumprimenta com um aceno de cabeça, levanta e vai embora com seu pacotinho de intervenções.

A mim, resta confiar na confiança dele. E torcer para que a rua lhe seja gentil.

3 comentários sobre “Com todo o respeito

  1. Legal o relato, realmente não há sociedade que aguente ter seu povo sem trabalho de qualidade a todos.. não há remedio ou confiança que segure…
    Fico pensando tambem sobre como o historico do HIV talvez seja o futuro (tomare que não o presente) das pessoas com covid… cabe a nós profissionais de saude, combater sempre o estigma. Todos precisam de contato fisico, afetuoso.

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  2. Nossa que bom esses relatos, é bom mesmo deixar gravado alem de nós… O estigma com HIV persiste em nosso pais, não sei se o covid tambem não está entrando nesse caminho. Depende da gente para que isso não ocorra.. E mais importante ainda é a ruptura social que nos toca diariamente, onde o tabalho que se tem é pouco para todos e muito mal recompensado com pouca saude, educação, lazer e enfim felicidade…

    Damos muito e recebemos muito pouco.. Mas seguimos resistindo para em alguma brecha conseguirmos equilibrar a balança e fazer a historia dessas pessoas e de nossos antepassados ter importado mais ainda.

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