Relato de um ACS

por Anderson Pimentel

HIBISCO (Vinagreira) -

Conheci dona Maria no grupo terapêutico do Centro de Saúde. Estávamos construindo uma horta e ela era exímia no trato com as plantas. Olhar triste, voz calma e carregada de sotaque nordestino, passo lento e firme. Além das duas filhas, criara três netos: Marcos, o mais velho, estava cumprindo pena na prisão por tráfico de drogas; o do meio, Alex, tinha grave problema com álcool e o terceiro, Mateus, uma criança muito inteligente, era agressivo com os coleguinhas na escola e amiúde levava uma advertência para casa.

O vínculo com dona Maria aconteceu por causa do neto Alex. Desde que perdera a namorada num acidente de carro o rapaz se entregou ao álcool e a avó não sabia o que fazer com ele.  Como Agente Comunitário de Saúde, fiz visitas domiciliares com frequência à família, pois o rapaz volta e meia estava internado por decorrência do uso abusivo de álcool.

Percebemos a fragilidade emocional daquela mulher que levava um mundo nas costas e a convidamos para o grupo terapêutico. Nossos laços afetivos se estreitaram ainda mais quando, ao falarmos de plantas comestíveis mencionamos a vinagreira, planta que é o ingrediente principal para um prato típico do Maranhão: o arroz de cuxá. Dona Maria, assim como eu, era maranhense. Nossos olhos nordestinos brilharam com a descoberta. Eu que deixara o estado havia dez anos encontrei naquela paciente de sotaque arrastado um pouco de minha avó, um pouco da minha terra. Finquei raiz no vínculo. A paciente me procurava sempre que surgia alguma demanda, ora uma convocação da escola por causa do comportamento do Mateus, ora mais uma internação do Alex.

Não raro, pessoas que cuidam de outras pessoas não têm disposição para o auto-cuidado. Dona Maria cuidava dos netos – e de um monte de cachorrinhos – mas tinha pouca vontade de cuidar de si. Percebíamos que a horta fazia bem a ela, uma vez que conversava com os profissionais e com outros pacientes e cuidadosamente, todos os dias, ia regar as plantas e preveni-las das pragas. Nos ensinou nome de algumas, seus usos medicinais, como lidar com as formigas e outras criaturas indesejadas na plantação.

Dois acontecimentos marcantes mudaram totalmente o destino de dona Maria e o nosso. O primeiro foi o fato de o neto Alex, depois de outra internação, ter falecido. Uma tristeza enorme caiu sobre nós todos. Alex era um rapaz calmo, apesar do uso do álcool, não dava os vexames comum aos que vivem aos porres. Bebia em casa e por lá ficava. Parceiro do irmão, Mateus ficou desolado; tinha apenas onze anos e refletia no olhar uma tristeza tão profunda que era difícil encarar aqueles olhos negros por muito tempo sem encher os nossos de água. Dona Maria também estava triste, mas de tão acostumada com os sopapos da vida não mudara a fisionomia: era impossível um semblante demonstrar mais tristeza.

O outro acontecimento significativo foi a saída do neto Marcos da prisão. Em liberdade o rapaz procurava a avó com frequência para pedir dinheiro. Os vizinhos contam que numa dessas visitas dona Maria disse ao neto que não tinha dinheiro e o rapaz insistiu até que perdeu a razão e matou a avó na frente do irmão. Ir à horta se tornou uma tortura para mim.

Passado algum tempo, aquele grupo tomou outra feição: a estratégia terapêutica mudou de horta para artesanato. Outros profissionais tomaram a frente do espaço. O Centro de Saúde recebeu doação e foram construídos canteiros novos, bem estruturados, de blocos de concreto. Nada sobrara da antiga horta. Ou quase nada: há dois meses plantei sementes de vinagreira que dona Maria cultivou nos antigos canteiros do Postinho. Todo dia olho as plantinhas, todo dia me recordo daquela mulher que  me enchia de ternura com sua voz calma, com seu olhar triste.

Um comentário sobre “Relato de um ACS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s