Dia de médico é todo dia

por Monge Yakusan

19 de maio dia mundial do Médico de Família e Comunidade

Hoje, mais um ano, mais um dia de uma das profissões mais ricas e intensas que vi muitos escolherem e que escolhi para mim – o porquê não sei, só sei que “é assim como é” – não foi por status, não foi por influências de parentes, foi por um espectro de sentimentos que me causou encantamentos desde o início da minha vida e da minha imersão na Medicina.
A Medicina tem esse encantamento e esse glamour sem glamour algum. A Medicina tem tesouros escondidos que só ela pode te mostrar, mas também ela pode te lançar na masmorra do cansaço, da desesperança e de venenos ilusórios (arrogância, impulsividade dentre outros “tóxicos”). É necessário sabedoria para lidar com ela, e não falo de inteligência lógico-matemática. Medicina pede algo maior, além da própria vida e morte; a Medicina feita em sua essência magna pede Sabedoria de achar que Medicina é demais mas ela não faz nada demais para quem a exerce. Medicina não é para si, é para o mundo, é um ofício que não pode ser engaiolado nem pelo ego nem por nada.

Deixo uma pequena homenagem digamos mais realista, na forma de música e na forma de “mal traçadas linhas”, escritos de peito aberto como uma toracotomia, para os mais diversos e especiais colegas com quem convivi e convivo – ex-colegas de perto e de longe, do trabalho e de lutas ideológicas, dos que acreditam que as pessoas são maiores e não cabem nos códigos de doenças nem nos livros, que o diálogo tem nuances que não cabem em artigos científicos, e também para os médicos no casulo vulgo estudantes de Medicina. Sou grato pelo aprendizado ao longo desses anos que passaram e os por vir.

“Entre o amor e a revolta
entre o a alegria e o tédio
entre o reconhecimento e o grito por reconhecimento
entre a gratidão e o silêncio
em meio a vida que resta
entre a ciência e a arte
entre dias de sol e dias sem cor
entre a sensação de desistência e a gana e persistência
entre a rebeldia e as diretrizes
entre convívio com pessoas e a solidão consigo mesmo vida afora
entre o barulho dos aparelhos e a música da vida…

Entre o café que desperta para seguir adiante dias e noites afora e a água que regenera e limpa – as mãos, o corpo, o cansaço
Entre a presença junto aos que têm esperança (vulgo pacientes) e a ausência de familiares que também esperam
Entre a alegria do nascimento e ter o milagre da vida nas suas mãos e a sensação de queda livre diante da morte e não saber o que fazer com ela quando a tem nas mãos

Existem pessoas em meio a tudo isso, carregando um peso olímpico de responsabilidade  e mesmo sem querer
São capazes de espalhar a leveza de folhas ao vento

Nem anjos, nem heróis, nem deuses – médicos apenas, humanos apenas, nem mais nem menos. É isso já é muito.
A cura é apenas o pretexto para provocar tantas outras sensações nas pessoas em consultas e procedimentos
Nome mais estranho para explicar sobre essas artes
Artes que não podem ser ouvidas nem vistas, no máximo sentidas, grandiosas como uma montanha e muitas vezes
Invisíveis como o ar
Em resumo, ser médico em si já é a dádiva.”

Monge Yakusan, do japonês (aprendiz de) montanha de cura

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