Narrativas

por Ana Paredes

Fachin pede apuração sobre operação na favela do Jacarezinho

Atender no Complexo do Alemão é:


Queixa principal: furúnculo.
Paciente do sexo masculino, 26 anos, negro.Meu nome é Ana, sou aluna do último semestre de medicina. Como posso te ajudar?
Coleto os dados da evolução clínica do furúnculo na região abdominal. Durante a consulta, o garoto comenta sobre a violência do Alemão. Abro espaço para escuta. Ele percebe que ouço atentamente, e essa conexão o permite sentir à vontade para relatar vivências um tanto pesadas do território. Vivências que sequer tenho coragem de escrever aqui, porque se o fizesse, seria como consumar de novo tamanha desumanidade.

Eu queria muito que vocês, do asfalto, vivessem por um dia o que a gente vive no morro.

“Devia ser por um dia o que eu sou há vinte anos”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Ver poça de sangue na porta de casa.

“Já vi a morte perto, um cano engatilhado”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Polícia mexer com a gente no caminho. Gritar com a gente do nada, ameaçar bater sem motivo. A vida do pobre que mora no morro não vale nada. Eu e cachorro é a mesma coisa.


Ao fim do desabafo, o furúnculo permanecia ali. Saio para pegar o carimbo do médico para a receita do antibiótico.
Retorno à sala e ele parecia ansioso para continuar falando de si. Prosseguiu contando um pouco mais de sua história de vida. Filho não planejado, frente à impossibilidade de a mãe o sustentar, em certos momentos da infância havia sido entregue a uma tia para que ela o criasse.

“E mesmo assim, tive que penar pra aprender
Que minha mãe não ia poder ‘tá lá pra me ver crescer
Tinha que trabalhar pra ter o que comer”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Eu nem sei se eu posso chamar ela de tia, de tão ruim que ela era pra mim. Eu sei que não é bom guardar mágoa das pessoas, mas ela me maltratava muito. Ela me dava lavagem pra comer. Só me deixava comer comida que já tinha estragado. Já me fez comer comida com lacraia, bicho. – disse, com cara de nojo. Um dia o marido dela me deu uma comida sem ser estragada pra eu comer escondido. Ela descobriu e me bateu muito.

“Eu já passei fome, já apanhei calado”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Sua raiva rica era mais eloquente que seu vocabulário pobre. Suas palavras tentavam externar tudo que sentia, mas falhavam. Havia ali um limite de vocábulos, mas não de sentimentos. Eu não ousava interrompê-lo. O pai, alcoólatra, não o amava.


“Não sei se dá tristeza ou ódio, não conseguir lembrar de você sóbrio”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Passava por ele e fingia não o conhecer, apesar de viverem sob o mesmo teto. Eram constantes as brigas entre os dois, que chegavam à violência física.

Posso te falar uma coisa? Promete que vai ser assunto nosso?

Claro que pode falar.

Eu tô cansado dessa vida miserável. Não aguento mais não conseguir emprego, ser humilhado pelo meu pai.
Quando eu fico com raiva assim me passa muito pela cabeça de fazer merda.

Tipo o que? – Perguntei, mas já sabia a resposta. A intenção era que ele prosseguisse na fala, para chegarmos
juntos na conclusão que eu queria.

Ah. Me envolver. E depois que me envolver, mandar darem um jeito nele, pra minha vida deixar de ser esse
inferno.


“E eu ia pro crime, irmão
Se não fosse a confiança, do Pedro e do Felipão
Sem dinheiro, já dava pra vê o fim
Mas um me levou pra Liga e o outro fez as base pra mim”


O trecho ecoou na minha mente, e dessa vez eu não me contive.
A medicina que não está em protocolos batia à porta há alguns minutos, e, por fim, a deixei entrar.

Você conhece Emicida?

Não.


Posso te mostrar uma música?


Seu silêncio e seu olhar atento foram o sim. Coloco o vídeo de Ooorra no meu celular.
https://www.youtube.com/watch?v=p9JHGj_AhVE

“Direto vejo pai brincando com filho no parque, sinto inveja

Fico me perguntando tio o que que a vida fez comigo?
Sorrio pelos pivetes, acho da hora, olho pra baixo
tenho mó vontade de chorar, mas não consigo
Em segundos me vem vinte e poucos dia dos pais
‘Guarda presente fi, ele já não volta mais
Arrasta a cartolina com papel crepom
Amassa joga no lixo, porra, pior que esse aqui tava bom
Hoje, fico olhando na espreita
Vendo os moleque ai com pai mãe do lado e nem respeita
Devia ser por um dia o que eu sou há vinte anos
Pra vê se ‘cêis ia ‘tá na de trocar coroa pelos mano
Não sei se dá tristeza ou ódio, não conseguir lembrar de você sóbrio
Não vi as vadia nem seus aliado com o doutor no corredor
Implorando pelo o que há de mais sagrado!
Eu já passei fome, já apanhei calado
Já me senti sozinho, já perdi uns aliado
Eu já dormi na rua, fui desacreditado
Já vi a morte perto, um cano engatilhado
Eu já corri dos homem, bati nos arrombado
Quase morri de frio, eu já roubei mercado
Já invejei quem tem pai, já perdi um bocado
Eu sofri por amor, eu já vi quase tudo chegado!
E mesmo assim, tive que penar pra aprender
Que minha mãe não ia poder ‘tá lá pra me ver crescer
Tinha que trabalhar pra ter o que comer
Não ver seu filho aprender a falar, essa porra deve doer
Guentar madame mandar e ter que acatar
Aê ouvir teu bairro sussurrar (‘cê sabe, mãe solteira é o que?)
Ver seu tempo acabar, sua chance morrer
E no fim do mês ganhar, o que não da nem pra sobreviver
Me ensinou a não desistir rapaz
Miséria é foda, só que eu ainda sou bem mais
Maderite furado, cigarro, cheiro de pinga
Olha onde eu cresci
Onde nem erva-daninha vinga
Como cê vai sonhar com pódio?
Se amor é luxo e com a grana que nois tem só dá pra ter ódio
Coisas da vida, história repetida, algo assim
Com quatro anos eu já via o mundo inteiro contra mim
Eu já passei fome, já apanhei calado
Já me senti sozinho, já perdi uns aliado
Eu já dormi na rua, fui desacreditado
Já vi a morte perto, um cano engatilhado
Eu já corri dos homem, bati nos arrombado
Quase morri de frio, eu já roubei mercado
Já invejei quem tem pai, já perdi um bocado
Eu sofri por amor, eu já vi quase tudo chegado!
E o que eu sempre tive foi minha rima
O resto se foi, tipo trampo, amigo, mina
Eu nunca quis viver disso, nunca nem sonhei com isso
Eu tava acostumado: Rimar por hobby, trampar por uns trocado
E eu ia pro crime, irmão
Se não fosse a confiança, do Pedro e do Felipão
Sem dinheiro, já dava pra vê o fim
Mas um me levou pra Liga e o outro fez as base pra mim
Na fé, me pois no lugar onde vários quer nome
Foda-se todos, eu não quero mais passar fome
Amo isso, vou ser contribuinte
Assim ó escrever como quem vai morrer no dia seguinte
Vagabundo pirou nos flow a cada verso ouvia hoow!
Quando vi, o radinho tocou, gente querendo show
E agora, eu vou fazer virar com os meus
É real, o menino do morro virou Deus
Eu quase me perdi nas ilusão
Fui salvo, por ter sabedoria e pé no chão
Chamei uns de irmão, quando nóis era sócio
Pensei ter feito amigos, e tava fazendo negócios
Odeio vender algo que é tão meu
Mas se alguém vai ganhar grana com essa porra, então que seja eu!
E os que não quer dinheiro, mano é porque nunca viu
A barriga roncar mais alto do que eu te amo
Eu vi minha mãe, me jogar dentro do guarda-roupa trancado
Era o lugar mais seguro, quando a chuva levou os telhado
E dizia não se preocupa, chuva é normal
Já vi o pior disso aqui, ver o bom hoje é natural
E o justo, então antes de criticar quem ‘cê vê trampar
Cala boca e pensa em quantas história ‘cê tem pra contar
Falar que ao dizer a rua é nóiz pago de dono da rua
Desculpa, eu vivo isso e a incerteza é sua
Se você não se sente dono dela, xiu não fode!
E antes de escrever um Rap, me liga e pergunta se pode”

Quanta tensão pode caber dentro de um consultório?
Fingi estar conferindo se a receita estava certa, quando na verdade me congelava para não sentir tanto. Eu segurava o
choro, ele se entregava às lágrimas.
Conforme a música ia sendo dita, eu falava junto os trechos que lembravam as experiências que ele havia me
relatado alguns minutos antes. Repeti em voz alta quase a música toda, tamanho era o encaixe em suas vivências.
Ooorra é, para mim, um soco no estômago. Para ele, um grito de liberdade, é se fazer ser ouvido.

Desculpa, é que eu me emociono muito fácil. – disse, ao fim do vídeo.

Não tem motivo pra se desculpar. “Olha onde eu cresci, onde nem erva-daninha vinga”. Você reparou no que ele
disse? Você reparou na mensagem que ele mandou por essa música?

É. Não compensa muito ir pro crime, né.

Eu sei que dói a fome. Eu sei que dói a raiva que você passa com seu pai. Mas vai doer mais ainda ir por um
caminho que só tem duas saídas: a morte ou a prisão. Você acha que vai resolver a sua vida matar seu pai? Ter as mãos
sujas de sangue, carregar essa culpa pra sempre contigo.

Você tá certa – disse ele, reflexivo. Incrível, esse cara aí, em trinta minutos resumiu a minha vida.
Ele não tinha noção de quanto tempo durava um minuto. Os 4 minutos e 47 segundos do vídeo para ele foram trinta
minutos. Talvez tenha sido isso mesmo, aquele tempo tenha sido gigante por ter acolhido tantas reflexões e eu que não percebi.

Muito obrigada por me ouvir.
Talvez o único erro daquele garoto foi ter pensado que era ele quem mais tinha que agradecer por aquilo. Eu desfrutava de infinita gratidão pelos ensinamentos daquela consulta.

Eu que agradeço por você ter se permitido contar tanto do que sente. Não adianta eu curar o furúnculo se por
dentro tá doendo.

Tô até me sentindo mais leve. Muito obrigada mesmo.
Fazia muito tempo que eu tava guardando isso pra mim, mas não tinha pra quem contar. Eu sou muito… Como que
se diz? Solitário!
Prescrevo antibiótico: Cefalexina, 1 comprimido de 6 em 6 horas por 7 dias. Recomendo retorno em caso de piora. Digo que a porta do consultório está sempre aberta, mesmo que seja para desabafar.

A arte cura. A escuta cura. Talvez mais que Cefalexina.
Por que me dou ao trabalho de parir esta narrativa? Para lembrar que vale a pena a mania de ter fé na vida. Não
consigo enxergar num futuro breve o fim do genocídio no Complexo do Alemão. Não posso acabar com a guerra, mas
posso me valer da arte para entregar um soldado a menos para ela. A busca obstinada por um mundo melhor vale a
pena.


“É real, o menino do morro virou Deus”

Aguardo ansiosamente o momento em que esse verso vai se encaixar na vida dele.

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