Ponta de faca

Por Aarão Carajás

Da vida não levo nada

Do jeito que a vida vem

Depois de fechar os olhos

Ninguém é ninguém

(Ponta de Faca)

Harmonia e Serenidade: O AMOR CURA

Durante a Residência de Medicina de Família e Comunidade rodiziávamos nos cuidados paliativos, foi lá que conheci dona Judite e seu amigo Zezo.

Judite estava em momentos finais de vida por conta de um câncer de pâncreas de evolução rápida que acabara por deixar seus familiares em estado de choque-paralisação-negação.

Ela possuía 2 filhos e 2 filhas, além de 1 neto e uma neta chamada Marcela (que era a pessoa que já havia saído desse momento de paralisação e que mais se comunicava comigo). Aos poucos fomos conhecendo os outros familiares através do genograma que Marcela ajudou a montar e para o qual recorríamos todos os dias como ferramenta para minimizar o estranhamento do primeiro contato e para favorecer uma possível criação de vínculo, o que não foi fácil de acontecer por conta do momento familiar para um “estranho” como eu querer fazer parte.

Com o genograma descobrimos que dona Judite foi uma batalhadora na vida. Criou os 4 filhos sozinha, era caminhoneira, depois motorista de empresa de refrigerante, e finalmente dona de pousada pequena, dessas sem muito luxo. Por também ter criado em algum momento os netos, esses tinham por ela um amor como que materno.

Dos filhos descobrimos que um havia morrido há 10 anos (o que provocou uma mudança importante no humor de dona Judite desde então) um havia ido embora para o Rio de Janeiro ainda novo, outra havia se mudado pra São Paulo ainda nova, e outra possuía o diagnóstico de esquizofrenia (Elisa, a única que morava com dona Judite). Nos chamou atenção o fato dessa primeira geração ter seguido caminhos tão distintos e resolvemos investir mais nisso, entendendo esse como mais um fator que dificultaria minha inserção nesse grupo.

A única filha presente no início de minhas abordagens era a de São Paulo. Dona Paula (que era mãe de Marcela), havia voltado temporariamente por conta da doença da mãe. Em nossa conversa inicial a senti bem fechada e respeitei isso, porém nesse primeiro momento ela me pediu uma coisa: que Elisa por conta da esquizofrenia não soubesse que a mãe estava morrendo. Me pediu justamente algo que em meu íntimo discordava por acreditar na possibilidade de pelo menos avaliar a chance de tentar. Se pelo entendimento de que o DSM (manual diagnóstico dos transtorno mentais) não define quem somos, quem seria eu para proibir tal direito?

Foi o que colocamos para a dona Paula na tentativa de mudar a perspectiva da situação. Nos responsabilizamos em dar a notícia para Elisa junto com a psicóloga do serviço e que haveria a necessidade do apoio familiar para que Elisa pudesse superar, independente do histórico de saúde mental. Pactuamos isso e senti meio como se estivesse em uma prova para ganhar a confiança dela.

Chamamos Elisa no outro dia e conversamos com ela, que reagiu com a tristeza natural, porém imbricada em uma serenidade que acalmou nossos corações. Após isso, Elisa se tornou presente e voluntária em participar dos cuidados terminais da mãe. Acalma sabermos que nunca será fácil dar essa notícia, e que não somos os culpados pela notícia que estamos dando.

O rio da vida seguiu seu curso até que dona Judite entrou em seus momentos finais de vida, que normalmente duram em torno de 48 horas. Nesse período a família oscilou muito nos pensamentos de negação, raiva, e pequenos flertes com aceitação. Parecia que uma âncora havia sido posta naquele leito, tal o peso daquilo que os familiares precisavam carregar.

No entanto, Judite não descansava. Oligoanúrica, sem se alimentar mais, creatinina elevada, de olhos fechados. 24,48,72,94 horas, e quando se vê (tal como Quintana), já havia se passado uma semana. Recorremos ao genograma revendo o possível imbróglio da primeira geração que a filha sempre se esquivava em conversar.

Sentamos para uma outra conversa em uma lanchonete, dessa vez só Paula e eu, abrimos o genograma na frente dela e colocamos nossas interrogações onde achávamos que só ela poderia ajudar, dizendo que aquele papel era um parco resumo da vida deles e o que ela achava da idéia de carregarmos dúvidas em nossa história. Ela então resolveu falar.

Disse que o irmão que foi para o Rio saiu de casa com 14 anos porque apanhava muito de Dona Judite, foi embora mal dizendo a mãe. Após 15 anos fez uma visita rápida a ela para depois desaparecer para sempre. Paula disse ainda que saiu de casa com 16 anos após ter apanhado muito também. Seguiu dizendo que a mãe a levou na consulta quando desconfiou da gravidez que gerou Marcela, e que quando o médico confirmou o fato, Judite se levantou e foi embora arrancando com o caminhão deixando Paula sozinha no consultório. O médico deu dinheiro para ela voltar para casa nesse dia. Após isso ela foi embora pra São Paulo tentar a vida. Conclui falando que a irmã tinha esquizofrenia por ter sofrido muito e nunca ter ido embora. Era um claro exemplo do duplo poder da morte que parece regar a estrada com terminalidade, mas também com reunião.

Indagamos por que Marcela gostava daquela senhora aparentemente tão dura e que tinha feito isso com os filhos, e ela me respondeu que com Marcela a criação foi outra, regada no amor e sem violência. Pedimos a opinião dela do por quê de tal mudança e ela concluiu que era pelo fato de Judite ter envelhecido. Devolvemos indagando se com o passar dos anos ficamos bons porque é um processo natural (não existem velhinhos maus) ou se é pelo fato de ressignificarmos nossas vidas tentando não cometer os mesmos erros do passado. Ela começou a chorar.

Sinto que o tempo que se seguiu após isso reestruturou aquela história, Paula contou sobre o medo de perder a mãe, que já a havia perdoado há muitos anos e que se estava ali era porque se importava muito com ela. Perguntei se Dona Judite sabia desse perdão, ela teve dúvidas. Pactuamos então de que nosso plano seria esse. Paula faria uma reflexão ao pé do ouvido de Judite, e que essa seria uma fala da família, de perdão do filho desaparecido, de assumir responsabilidade com Elisa e de perdão dela, Paula. Tudo pactuado, mas veio a dúvida: ela ainda teria a capacidade auditiva preservada naquele momento?

Nos dirigimos ao leito dela e perguntamos para os familiares que música Judite gostava de ouvir. A família disse: Ponta de Faca, do Zezo. Colocamos ela no ouvido da senhora e de seu olho escorreu uma lágrima. Filetes do rio que por ali margeava o momento.  Canal aberto para a chance.

O quanto de intensidade as expressões sopradas ao ouvido de Judite tiveram nunca saberemos, mas se a palavra tem o poder de libertar, aquelas trouxeram a alforria do espírito. Judite partiu poucos minutos depois de ter ouvido as declarações.

 Quando nos demos conta, vimos que a âncora não estava mais ali. Havia levantado voo, sendo carregada por balões.

Ponta de Faca – Música de Zezo

Eu queria saber o que faço pra agradar o mundo,
se é preciso da murro em ponta de faca ou não,
se não devo parar os meus passos na beira do abismo,
para ver uma estátua na praça ele era tão bom,
não queria saber dessa dor que eu sinto por ela,
porque sei que ela vive enganada nos braços de alguém,
quem me ver e nem pensa que um dia pulei a janela,
e andei apressado pensando que logo ele vem.

Da vida não levo nada,
do jeito que a vida vem,
depois de fechar os olhos ninguém era ninguém.

Se me vejo parado pensando nas coisas do mundo,
eu as vezes duvido que o povo tem a voz de Deus,
é que o homem se sente mais realizado,
ao invés de dizer parabéns ele fala cuidado.

Da vida não levo nada,
do jeito que a vida vem,
depois de fechar os olhos ninguém era ninguém.

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