VAI FICAR TUDO BEM?

Por Arthur Fernandes

Brasil registra 90.504 novos casos de Covid em 24 horas, no dia em que  supera marca de 300 mil mortos | Coronavírus | G1

A porta de um consultório é aberta com força. Uma enfermeira só coloca a cabeça e grita “chegou um paciente saturando 36%, corre!!!”.
Poderia ter acontecido em qualquer pronto-socorro, em qualquer lugar, por qualquer doença. Mas aconteceu numa Unidade Básica de Saúde, no pior momento da segunda onda da pandemia de Covid-19 em Brasília, numa tarde de quinta-feira qualquer.

O relógio marcava pouco após as 13h, eu estava aguardando a triagem para atendimento de dois bebês com síndromes, cujas consultas foram marcadas previamente, além de uma mulher jovem para inserir DIU. Como eu disse, era uma quinta-feira qualquer.
Até essa porta abrir.
Entre a última frase da enfermeira e o fechar da porta, eu já estava do outro lado, correndo em direção à sala de sintomáticos respiratórios. O paciente estava na casa dos 30 anos, obeso, sem outras doenças. Havia apresentado febre há uma semana e, por orientação de um farmacêutico, estava usando o “Kit Covid” há cinco dias: ivermectina, azitromicina, hidroxicloroquina, zinco, vitamina D, vitamina C e dexametasona. Não procurou atendimento por equipes de saúde.
Nos últimos dias, apresentou piora cansaço e, naquele dia, piorou mais ainda. Chegou de carro, consciente, com fala entrecortada, acompanhado da família.
“Era só uma falta de ar… mas ficou ruim demais”, dizia.

Nessa hora, apertei o botão de emergência:

  • Evacuar a UBS: a redução de danos possível, considerando o alto risco de contaminação pelo paciente em relação aos demais que apenas aguardavam suas consultas;
  • Paramentação;
  • Destacar enfermeira e técnica em enfermagem devidamente paramentadas para auxiliar;
  • Acomodar familiares: desesperados, irmão e esposa entenderam que a situação era grave e começaram a acionar outras pessoas, como a mãe do paciente, uma senhora com doença cardíaca, que também se desesperou ao telefone;
  • Examinar o paciente e lhe explicar a situação: choroso, entendendo o risco que corria, pediu para se despedir da esposa, antes de ser levado ao hospital. Não entendia bem o que significava intubação orotraqueal, mas sabia que poderia dormir e não mais acordar;
  • Obter mais informações da família: não havia muito mais a acrescentar pois, infelizmente, foi uma evolução catastrófica de um caso que não só passou antes pelo sistema de saúde, como recebeu medicamentos sem indicação;
  • Instalar oxigenoterapia: a saturação não melhorava com cateter nasal e, com máscara, chegou a um máximo de 85%, ainda baixa demais;
  • Acionar o hospital de referência e o SAMU: por sorte, havia uma ambulância disponível nas proximidades, que chegou rápido;
  • Preencher burocracias para o transporte;
  • Notificar o caso e coletar exame do paciente: pelo mínimo direito ao diagnóstico, diante do caos;

Enfim, dentro da ambulância, partimos.
No caminho, tive um tempinho para lhe explicar quais seriam os próximos passos: admissão, novos exames, transferência para UTI e provável intubação. Ele respirava discretamente melhor e, ao mexer a cabeça, indicando entendimento do que ouvia, por vezes piscava os olhos, deixando escapar algumas lágrimas.
Chegando ao destino, após passar seu caso para a equipe, despeço-me.
“Você mora no meu território. É uma pena não termos nos conhecido antes mas, se Deus quiser, você vai sair dessa e ainda teremos uma consulta “normal”, combinado?”
“Combinado. Ô, doutor, muito obrigado, mas… o senhor acha mesmo que vai ficar tudo bem?”, ele pergunta, apertando minha mão, dentro da área vermelha, com os pacientes em estado mais grave por Covid-19.
“A gente vai acreditar nisso juntos”, foi o possível a dizer.
.
Do lado de fora do pronto-socorro, enquanto aguardava alguém da equipe me buscar de volta para a unidade, puxei conversar com o vigilante.
“A coisa tá feia, hein?”, disse.
“Moço, o senhor num tem noção. Esse pronto-socorro só falta explodir de gente. E o povo ainda tá aí no meio da rua, quando devia tá em casa”, ele responde.
“Pois é… e quando adoecem, infelizmente ainda encontram quem passa tratamentos sem comprovação científica”.
“O senhor tá falando do kit do corona, né? Conheço médicos aqui que nem o senhor, que também entende que não serve. Mas passa na televisão, né? O povo escuta”.
“Passa, e o pior, saindo da boca do presidente”.
“Fala não, doutor… eu votei nele, achava que não tinha outra opção, mas tô vendo que fiz besteira. Em 2022 não vou repetir isso”.
.
Ah e, obviamente, retornei à UBS: havia um paciente com diabetes e uma gestante de alto risco para atender. Com Covid, sem Covid, apesar do Covid, a vida continua.

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