Festa do corpo de Deus

por Isabelle Ramos

Adélia Prado, de corpo e alma – Literatura na Internet

Foto: Adélia Prado

Havia lido sobre o amor no poema que inaugurava a prova de português da quinta série, mas ainda não entendia muito bem aquela história de namorar um porquinho-da-índia. Aos 14 anos, Rafaela sentia-se diferente de suas amigas – gostava de jogar futebol e não via tanta graça em falar sobre os meninos bonitos da sala. Quando conheceu Marcelo, foi um grande alvoroço; ficava desconcertada ao ter que repetir que eram apenas colegas que jogavam ping pong no intervalo da escola.

Levou mais de um ano para que percebesse como era bonito quando ele sorria – os olhos semicerrados revelavam cílios longos que pareciam desenhados à mão. Subitamente o modo como seu cabelo rabiscava o vento depois de longas partidas tornava o dia mais agradável; e então já era sexta-feira, dois longos dias até a segunda, e mais duas intermináveis aulas sobre a história do Brasil até o início do próximo jogo.

O primeiro beijo foi inesperado; sentiu uma coisa na barriga que deslizava entre medo e euforia. Ao deitar-se naquela noite, tentava recapitular cada segundo da cena, mas era como contar os detalhes de um filme que assistira há muitos anos – só lembrava do sentimento, o gosto bom ao fim.  Rafaela manteve tudo em segredo até o dia em que foram ao cinema. A sala estava vazia e a tela era apenas plano de fundo para a paixão dos dois. Por um momento, assustou-se quando as mãos de Marcelo desciam por seu corpo, não sabia como reagir. A pele vibrava com o toque; era a primeira vez que vivia o prazer daquela maneira, acompanhada por outra pessoa.

Chegou em casa e correu para o quarto confusa sobre o que deveria sentir. Estava feliz, mas impregnada de culpa e vergonha. Como teve coragem de se desvalorizar daquela forma? Sua mãe dizia que Deus não permitia esse tipo de comportamento. Tinha certeza que havia pecado, mas não entendia porque pareceu tão certo. E agora? Como contaria a ela? Será que poderia engravidar? De repente, toda beleza da experiência transformou-se em pânico.

No dia seguinte, foram à Clínica da Família logo de manhã. Sua mãe reagiu com muita preocupação, queria que fosse examinada para saber se “já era moça” ou se precisava de algum remédio. Rafaela sentia-se doente, impura. Queria estar debaixo do fogão, onde não pudesse ser vista, como o porquinho-da-índia na quinta série. Só conseguia encarar os próprios pés quando sentou-se no consultório. Não imaginava, porém, que sairia dali com maior entendimento sobre seu corpo inteiro.

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“Ó crux ave, spes única

Ó passiones tempore”

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

é próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.E

u te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta árvore de execração

o que dizes é amor,

amor do corpo, amor.


Poema Festa do corpo de Deus, de Adélia Prado

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