O gosto amargo

por Karen Borges

INAPETÊNCIA - Definição e sinônimos de inapetência no dicionário português

Dona Divina*, 73 anos.
Fez uma cirurgia bariátrica há 10 anos e, desde então, não conseguia comer direito devido a um gosto amargo na boca. Ao entrar no consultório, percebi que estava magra excessivamente, algo que chamamos de Síndrome Consumptiva.Boa tarde, dona Divina! Como a senhora passou da consulta passada até agora?


-Ah doutora! Tenho passado muito mal. Fiquei internada, operei de uma úlcera perfurada e continuo com uma fraqueza que me impede de fazer qualquer coisa.

E como está a sua alimentação? Vi aqui no prontuário que a senhora não consegue comer direito há muito tempo…

Não mesmo. Tudo tem um gosto ruim, desde que passei pela bariátrica. Então eu não como!

Mas a senhora sente dor, desconforto ou é só o gosto mesmo?

É só o gosto.

Poxa, mas não tem na-di-nha que tenha um gosto melhor pra senhora?

Ah, doutora! Eu como muito bem quando faço canja.

Olha só como tem, então! E porque a senhora não faz canja mais vezes pra comer?

É verdade, né?

E o que mais? Feijão? Batata? Precisamos colocar mais calorias no seu prato.

Ah, feijão não me desce! Mas a-do-ro grão-de- bico.

Olha ai! Já temos mais um prato montado. A senhora gosta de couve?

Gosto! Também gosto de brócolis, salada, fruta …

Está vendo só! Em 1 minuto já montamos 2 refeições que a senhora consegue comer. Estou preocupada com o seu peso. Quero investigar se não tem mais algum motivo para a senhora emagrecer tanto, mas tudo indica que seja a sua alimentação mesmo. De qualquer forma, vamos combinar uma coisa? Eu faço a minha parte investigando por aqui e a senhora faz a sua se
esforçando pra comer direito em todas as refeições, sem pular nenhuma.

Combinado!

Além disso, tem mais alguma coisa te perturbando?

Tem sim… Meu marido vai ter que amputar o pé e não está aceitando. Ele está muito triste. Aí eu me preocupo cuidando dele e esqueço de cuidar de mim.

E assim a senhora também fica muito triste?

Ah, eu fico…

Eu entendo e me solidarizo muito pelo que está passando, mas a senhora precisa se cuidar pra conseguir cuidar dele. Nenhum remédio no mundo vai fazer efeito direito se o seu corpo não estiver bem nutrido.

Combinado! Vou cuidar de mim e dele.

Além disso, vou dar uma cartinha pra senhora levar ao posto porque preciso de ajuda para verem bem de perto como a senhora está tomando os remédios. A senhora consegue fazer isso?

Ah, isso tudo eu consigo!


E com um abraço bem apertado, um sorriso orgulhoso de vó, a dona
Divina se despediu.


No meio do caos que ocorre nos bastidores da nossa saúde, surgem esses encontros singelos relembrando o motivo de repetir, diariamente, a cada percalço: “você pode até me perturbar, mas mais forte ainda eu vou ficar”.
Acho que ela não sabe, mas hoje foi a dona Divina quem cuidou de mim.
*Nome fictício

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