Mãe

por Maria Carolina Mendes

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A barriga de menos de 20 semanas ainda não aparecia aos olhos curiosos. Respondeu acanhada ao meu bom dia, transparecendo um leve desconforto à minha presença. Sentou-se para a consulta pré-natal, respondendo diretamente aos questionamentos médicos levantados; não se deixou envolver de forma mais intensa, nem ao menos mantinha seus olhos nos meus. Contou que a gravidez não havia sido planejada mas que, apesar do inesperado, era muito bem-vinda – Eloá era aguardada com afeto.

Deitou-se na maca como pedi e mostrou o ventre em construção, pequeno como as primeiras raízes que aparecem em brotos de feijões algodoados na infância. Ainda evitava olhares, analisando o teto com o mesmo interesse que admiramos telas em branco espalhadas em um museu de arte moderna, procurando sentido no vazio. Eu tateava o pequeno feto aquecido em seu domo lacônico e pousava minha mão esquerda na convexidade fúndica, enquanto a mulher continuava a explorar interpretações para o concreto exposto na altura de seus olhos.

Foi após a tentativa falha de escuta dos batimentos cardíacos de seu bebê que ela me olhou pela primeira vez. Perguntei se estava tudo bem. “Na última consulta também não conseguiram ouvir”, disse em voz preocupada. Seu desconforto me fez assumir como obrigação o encontro dos galopes dados pela sua cria, e procurei ajuda – mais um par de mãos palpava a pré-existência de Eloá, que mais uma vez se recusou a nos mostrar seu coração através das incansáveis camadas de gel frio espalhadas por toda a topografia uterina. A mulher voltou a encarar o teto, dessa vez para esconder as lágrimas que se intencionavam a cair. O terceiro par de mãos apareceu para tocá-la, e me peguei dentro de uma grande sala museística rodeada de imagens confusas, me doando inteiramente àquela lasca de argamassa pendurada em caimento de renda, e somente em meio a uma antropofagia dadaísta fui capaz de ver a lágrima de Mãe ali representada, a lágrima que caía em frente a mim no mais puro realismo.

A enfermeira da equipe ainda delimitava o dorso de Eloá. E os braços. Os pés. Procurou a cabeça. Voltou a dedilhar o ventre que agora me pareceu enorme ao conter a incerteza que amor e morte trazem, andarilhos, em companhia um do outro; ao conter o amor incondicional que desconheço em vida, justamente o amor que presenteia a morte com tamanha relevância. Amor de mãe. Mãe é o artista do modernismo complexo que vemos nas telas em branco de museus renomados – a complexidade pode tentar ser compreendida por qualquer um disposto a se arriscar, mas apenas o artista conhece, de fato, o valor de sua obra.

Minutos depois, o cavalo finalmente galopou pelo sonar, cavalgando pelo caminho d’O Semeador em direção ao grandioso nascer do sol centralizado em pinceladas impressionistas. A lasca grosseira poderia ter caído em nossas cabeças como as lágrimas de Mãe que agora se esvaíam em forma de riacho pelas pedras de bochechas. “Como você está?”, a enfermeira perguntou. “Agora estou bem”, ela riu, “as outras têm a mão muito levinha”. Ela se levantou até a cadeira com os olhos marejados e os lábios curvados em um meio sorriso, e voltou a manter o olhar longe do meu. Depois de encerrarmos o prontuário, ela se foi com o registro dos 135 batimentos por minuto do coração de sua filha.

Sozinha, chorei. Chorei pelo medo que senti da possibilidade da morte. Chorei pela sensação de impotência trazida pelo sonar mudo em minhas mãos. Chorei pela dificuldade de me aproximar desta mulher, que mantinha distante até mesmo o olhar e as palavras. Chorei por perceber que é preciso aceitar nossa incapacidade frente a situações imutáveis. Chorei ao tentar imaginar a perda de uma mãe. Continuei a chorar quando o tum-tá tão cobiçado chegou à minha memória. E lá ele se manteve: Tum-tá. Tum-tá.

Fechei os olhos e sorri. Sorri ao me lembrar da mais bela das artes que pude encontrar em meu sonhar acordado com o teto do consultório: a harmonia entre amar e morrer.

Referência:
O Semeador, Vincent Van Gogh.
Arles, França, 1888.

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