A ROSA, O FUXICO E A ALMOFADA

por Vivian Mara Barbosa

Que o universo coloque em nosso caminho pessoas que possam usufruir daquilo temos para doar. Mas, que, também estejamos abertos a receber, pois bons encontros acontecem para quem está disposto a acolher.

Maria Rosa era uma paciente de 81 anos de idade que compareceu à unidade básica de saúde acompanhada da nora. Postura encurvada, olhar desviado para baixo e face tristonha. Trazia queixas difusas como insônia, ansiedade e dificuldade para engolir. Conforme a nora, aproximadamente, há 2 meses Maria Rosa vinha perdendo interesse nas atividades diárias.

– Há 10 anos a dona Maria teve uma depressão de não querer levantar do sofá. Nessa época também perdeu o apetite.

– Dona Maria, a senhora acha que essa dificuldade de engolir pode está relacionada a essa tristeza que anda sentindo, igual aconteceu há 10 anos?

Com os olhos marejados balança a cabeça de forma afirmativa.

– Eu acho que pode sim.

A nora complementa:

– Agora ela tá ficando do mesmo jeito de antes dotôra, fica sentada olhando “pro nada”, perdeu a vontade de fazer as coisas. Nem costurar, costura mais! Ela fazia colcha, pantufas, bolsas… Cê tinha que ver!

– Dona Maria, o que a senhora acha que pode estar causando essa tristeza?

– Os aborrecimentos da vida.

 Maria Rosa era casada há mais de 60 anos, tinha 6 filhos, residia aos fundos da casa dessa nora que a acompanhava. Cozinhava, lavava e ia ao banco, era independente. Contudo, trazia consigo uma grande mágoa do companheiro devido aos acontecimentos do passado, como proibições e traições. Hoje, o jeito carrancudo e seco do marido era o que mais a incomodava. Embora morassem na mesma casa, cada um tinha seu quarto e quase nunca conversavam.

– Eu tava numa tosse, levantando toda hora da cama e ele não teve nem coragem de passar lá no quarto para ver como eu estava. Às vezes passa o dia sem trocar uma palavra comigo!

Conversamos mais um pouco, acerca da história de vida, das angústias e das expectativas da Dona Maria. Revi as medicações de uso habitual e propus que iniciássemos a retirada, gradual, de clonazepam para daqui duas semanas, uma vez que fazia uso mais de 15 anos e ainda se queixava de insônia. Ademais entreguei, também, um folheto com dicas de higiene do sono.

– Dona Maria gostaria de encontrá-la na próxima semana, além disso, queria fazer uma proposta. A senhora topa de costurarmos uma almofada de fuxicos juntas?

Nesse instante, ergue o olhar, meio que incrédula, mas com discreto sorriso no rosto, parece simpatizar com a proposta.

-Topo, uai.

-Então, combinado. Vou trazer retalhos, linha e agulha. A senhora tem linha e agulha em casa?

– Tenho sim

– Traz para gente na próxima consulta.

Após duas semanas, lá estava a Maria Rosa e sua nora me esperando no corredor da UBS. Passaríamos a nos encontrar todas as semanas para acompanhar a descontinuação do benzodiazepínico. Uma medicação mais indicada para tratamento da insônia foi prescrita, acrescido a isso, o uso de chás como capim cidreira, camomila, maracujá foram encorajados. Ela compartilhou dessa ideia, do uso de chás como método relaxante, a tal ponto que me presenteava com pacotinhos  de capim cidreira, colhidos no próprio quintal. Após conversarmos como havia passado a semana indaguei:

-Trouxe linha e agulha?

Embora afirmasse positivamente com a cabeça, sorrisinhos brotaram tanto na face da paciente quanto da nora. Pareciam, ainda, não acreditar naquela proposta de costurarmos durante a consulta. Enquanto isso, retirei da minha bolsa retalhos, linha, agulha e uma almofada, como combinado. E ali, naquele instante, começamos a dar formato de flores aos retalhos trazidos.

– Vamos encher a almofada com fuxicos de flores dona Maria!

– Ahhh… desse fuxico eu não conhecia!

Exclamou Maria Rosa diante da descoberta de um novo jeito de “fuxicar”.

– Eu só conhecia aquele fuxico rendodinho.

– Esse eu não lembro como faz

– Quer que eu faça para você vê?

Agora era eu quem não sabia costurar nesse formato “redondinho”. Então, foi a vez da Dona Maria me ensinar a coser. Aproveitamos esses fuxicos redondos para compor os miolos das nossas flores.

Nas consultas subsequentes, sempre, conversávamos como tinha sido a semana. Além do mais, investigava possíveis sintomas de abstinência, referente a descontinuação da medicação. Estes só apareceram no desmame da segunda metade da dose. E como de costume, ao final das nossas consultas, fazíamos ao menos um fuxico. Após um mês, ela já relatava melhora do apetite, do sono e do humor. Maria Rosa desabrochava a olhos vistos: assumia postura ereta, o olhar fixado no horizonte e a face rosada

 – Voltou a costurar e a frequentar a igreja, dotôra. Tá outra pessoa!

Contou a nora cheia de felicidade durante nossas consultas.

Ficamos juntas  por 2 meses, tempo que durou meu estágio naquela UBS. Na nossa penúltima consulta, como habitual, após o exame clínico, indaguei a respeito da confecção da almofada. Prontamente a nora respondeu:

-Você vai ter uma surpresa, dotôra.

Nesse instante, Dona Maria Rosa, com suas mãozinhas habilidosas, retira de uma sacola a almofada. Pronta! Levanta-se da cadeira e vem em minha direção.

– Se você não se importar eu queria te presentear com a almofada.

Meu coração se encheu de gratidão, deve ser por isso que meus olhos se encheram de lágrimas.

Costurar. Conforme o dicionário de língua portuguesa, significa unir duas partes, geralmente de pano, por meio de linha e agulha. Todavia, após essa experiência, esse significado transcende a junção de tecidos. Por um lado, de retalhos se fez  flores e das flores, almofadas. Por outro, da postura, inicialmente, cabisbaixa, se fez ereta, da falta de interesse se fez a vontade de aprender, da tristeza se fez a alegria. Ao término da almofada, Maria Rosa já florescia.

(os nomes são fictícios e as estórias têm adaptações para preservar o sigilo das pessoas)

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