Chegou a vacina!

por Carolina Reigada

Zé Gotinha completa 30 anos – Meio & Mensagem

Hoje, 20/01/2021, eu chorei na volta para casa.

Há quase um ano, na segunda semana de março de 2020, uma reunião “urgente” com todos os profissionais da Unidade Básica de Saúde (UBS) onde eu trabalho acontecia. A pandemia – duvidada, temida, subestimada, superestimada – havia chegado.

E tudo mudou radicalmente.

As equipes de saúde da família foram temporariamente desfeitas. As médicas teriam que cobrir pelo menos dois turnos de atendimento a pacientes com suspeita de COVID, manter seguimento clínico de grupos considerados prioritários – como gestantes, contracepção, doenças crônicas sem controle – além do atendimento a urgências. E, como os pacientes ficaram com medo de ir aos hospitais, urgências complexas chegavam com frequência. Além disso, mais de um terço dos profissionais foram afastados para teletrabalho, e o restante ficou na UBS esperando a tal onda que viria.

A porta da UBS, tradicionalmente aberta e de livre trânsito, foi bloqueada por uma mesa, retirada de um dos consultórios. Ali, ficaria sempre alguém fazendo a triagem de sintomáticos respiratórios e organizando os fluxos da unidade. Essa mesa virou causa de sofrimento para todos, todas e todes. O profissional ali escalado tinha pesadelos na noite anterior: lidar com o público às vezes assustado, às vezes desinformado, estando ele mesmo assustado e nadando em incertezas, é muito difícil. Os pacientes reclamavam da mesma mesa: uma barreira de acesso, uma cancela na porta da UBS – mesmo que alguns entendessem o motivo de ela existir.

O auditório, local da unidade dedicado aos grupos em saúde, à promoção de bem-estar, foi transformado no local de atendimento a pessoas com suspeita de COVID. De local mais descontraído da UBS, foi transformado na sala em que ninguém queria estar.

Atender os sintomáticos respiratórios é muito difícil. Os equipamentos de proteção individual são desconfortáveis e quentes, muito quentes. Não se pode ligar ventilador nem ar-condicionado. Éramos afogadas em atualizações de notas técnicas e pesquisas científicas pelo menos duas vezes por semana, com mudanças nos protocolos federais e locais na mesma velocidade. As informações, sempre frescas, sempre novas, se acumulavam e nos deixavam sempre alertas à necessidade de rever, atualizar – e saber como explicar tanta instabilidade àquelas pessoas que chegavam ali, apavoradas com o que viam na TV.

E sim, ainda tínhamos que lidar com todas as fake news e desinformação, a procura irracional por testes diagnósticos e tratamentos milagrosos e uma flagrante desorganização em tantas esferas de gestão.

Quando a primeira onda chegou, realmente foi o que esperávamos. Todo dia, precisávamos acionar os serviços de transporte sanitário para remover pacientes: 1, 2, 3, 4. Às vezes, um seguido do outro; a ambulância ia e vinha sem tempo pra descanso. Até que a ambulância parou de voltar para pegar o segundo paciente que precisava de remoção, porque ainda não tinha encontrado vaga em nenhum hospital para aquele primeiro paciente. O medo era contínuo de que um dia, chegaria ali na UBS alguém que não encontraria vaga, que poderia morrer ali mesmo, por falta de um leito hospitalar, de ventilador mecânico, de oxigênio.

Eu passei por maus bocados*. Terríveis bocados, até. Minha família seguia isolada em casa, mas eu tinha que trabalhar. Todos os dias, eu ia com medo de me contaminar. Todas as tardes, eu voltava com medo de contaminar a eles. Minha filha chorava porque eu não a abraçava. Considerei alugar um apartamento para morar afastada deles, porque os pensamentos recorrentes em que eu era responsável por contamina-los, e eles eram internados, intubados, morriam, estavam além do que eu conseguia suportar. Quando não era isso, ficava imaginando como deve ser ruim morrer sozinha, com frio, entubada, em um CTI. E eu pensava nisso tudo enquanto vestia todos os EPI para atender pessoas com suspeita de COVID, tentando focar que minha família estava segura, em casa. Tentando focar que ali também tinha pessoas que precisavam de ajuda, apesar de eu mesma estar completamente apavorada.

O pavor aumentou quando as pessoas ao redor começaram a se contaminar. Quando as primeiras notícias de mortes chegaram. COVID levou pessoas queridas, tantas e tantas. Quem seria o próximo? Os fatores de risco (claro) serviam de estimativa, não de certeza. E os critérios para suspeita de COVID se alargavam cada vez mais, a ponto de qualquer sintoma (até banal) ser o suficiente para a suspeita. Parecia que não tinha chão seguro para se pisar.

Em abril, no meio da pandemia de COVID, fora de moda que sou, peguei dengue. As dores no corpo e a febre acabaram com o pouco controle emocional que eu ainda tinha. Me isolei no quarto até descobrir se era COVID ou não. Os testes rápidos para dengue foram negativos, o que me apavorou ainda mais. Comecei a ter crises de pânico, uma seguida da outra, várias ao dia. Não dormia, não comia. Só consegui ter alguma calma quando os dias se passaram, ninguém em casa ficou doente, e o exame sorológico de dengue finalmente foi positivo. Mas o episódio mexeu comigo, e desde aí, a ansiedade que estava sorrateira aqui em mim, abafada por uma racionalização extrema, explodiu.

Foram mais de 3 meses de muitos sintomas.

As dores musculares (na nuca, na cabeça, nas costas) eram diárias. Eu não queria ficar tomando remédio, primeiro porque não gosto de remédio; segundo porque tinha medo de o remédio “mascarar” uma febre ou um sinal precoce da doença (e era crucial que eu identificasse qualquer sinal precoce, para que eu logo me isolasse e não contaminasse ninguém). Descobri que atividade física melhora as dores por mais de 12 horas, então passei a fazer todos os dias. Todos os dias. Se não fizesse, as dores voltavam.

Crises de falta de ar e palpitação também eram diárias. Andava com minha “bombinha” de asma para todos os lugares, mais para me acalmar do que para usar. Nessas horas, tinha que parar, focar na respiração e esperar a adrenalina baixar.

Choro, muito choro. Às vezes quando eu não esperava, às vezes programado, para deixar todo o excesso sair. Muito choro também de tantas datas em que não pude viajar para estar perto da minha família. Vivi um natal inédito na minha vida, em que não abracei minha mãe, minha avó, meu irmão.

Agradeço imensamente a todas as pessoas que me ajudaram nesse período. Algumas já eram próximas, outras apareceram de surpresa. Todas foram importantes.

Eu também fui importante, procurei novos caminhos, encontrei novas formas de olhar e fazer a vida. Voltei pra terapia.

E hoje, chorei de novo.

Chorei porque o COVID é uma força da natureza sob a qual nos vimos impotentes e sem controle. Porque encarei alguns dos meus piores medo de frente. Porque, mesmo com medo, continuei trabalhando da melhor forma possível. No SUS.

O SUS, que apesar de tantas tentativas de sabotagem, respondeu à demanda da epidemia. Poderia ter feito muito melhor, sim. Cabe a nós lutar para que as melhorias cheguem.
O SUS, que apesar de tantos interesses políticos e econômicos contrários, produziu e agora distribui uma vacina contra o COVID. Todos os memes que eu vi sobre a vacina eram ambientados em uma UBS, e isso me dava orgulho. O Programa Nacional de Imunizações é um patrimônio brasileiro. O SUS é um patrimônio brasileiro.

Hoje, chorei de alívio. Sim, eu sei de todas as polêmicas e incertezas estatísticas que rondam a Coronavac*. Mas hoje eu me permiti ter alegria e esperança. A vacina me dá a certeza de imunidade? Não. Mas acho que a pandemia nos ensinou a lidar com incertezas. E em meio ao temporal de desastres, essa picada que eu levei no braço, dentro de uma UBS, trabalhando pelo SUS, me deu uma sensação de vitória.

Viva o SUS. Viva a gente, que continua lutando e tendo esperança.

E que venha logo vacina para todas, todos e todes.  

* e sei que não fui a única

** nem vou considerar relatos de virar jacaré, mudar DNA ou implantar chip. Porque, né? Sem paciência.

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