Amigo é coisa pra se guardar do lado direito do peito

por Isadora Vianna

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Nos encontramos algumas vezes  e tínhamos grandes  poucos minutos de conversas que nos rendiam descobertas, choros, memórias, força e sorrisos. Um dia, ela entrou na sala, usou o comum ” olá, minha amiga!” e disse:

– Preciso muito falar com você. Não tenho consulta marcada hoje mas preciso muito que você me escute.  

Ela esperou o fim das consultas e entrou. Antes mesmo antes da porta fechar o choro iniciava com soluço, olhos vermelhos, dificuldade de falar e tudo que um choro da alma traz.

– Sabe aquele concurso que a minha filha estava fazendo, ela passou. Eu estou feliz por ela, estou feliz por nós. Criei essa menina sozinha, como você sabe, e ela está chegando lá. Eu não poderia estar mais feliz né, minha amiga?

– É uma notícia ótima. Parabéns para vocês! Mas e além da felicidade, o que mais a sra está sentindo?

Ainda chorando muito.

– Estou me sentindo péssima, a pior mãe do mundo, um monstro.

Na verdade, eu não queria que ela fosse, queria que ela tivesse passado mas que ficasse para sempre ao meu lado. Essa menina é minha vida, eu nunca fui alguém até ela nascer. Não me sentia boa filha, mulher, esposa, amiga, mas ela me tornou uma boa mãe. Sem ela eu vou morrer, tenho certeza. Eu tenho aquele problema do coração que você sabe. Não vou resistir! Mas não posso falar isso pra ela.

– Porque?

– Porque aí ela não vai, e aí as coisas podem não ser tão boas para ela aqui, e isso também acabaria comigo.

– Vocês já conversaram sobre isso?

– Não conseguimos.

– A sra acha que deve?

– Eu tenho medo. Mas acho que seria bom para ela saber do meu amor e eu me sentir amada também. Será que estou carente só de saber que ela vai morar em outro lugar?

– O que a sra acha?

– Tenho certeza que sim. Tenho medo de voltar ao que eu era antes dela.

– E isso é possível?

Já sem lágrimas..

– Não, eu cresci muito. Eu era fraca, hoje não me sinto assim.

Abriu um sorriso.

– Nossa! Na verdade sou muito forte, olha esses mulherões que criei, ela e eu!

– Sim, no início da consulta a sra lembrou disso.

– Verdade, me deixei levar pelo medo e esqueci de quem sou. Eu sei que vou resistir, vou ter saudades sim, mas não tem problema né?

De novo perguntei – ” o que a sra acha?”

– Eu acho que a minha saudade é aquele negócio que vi na TV: “ninho vazio”.

– E esse ninho vai ficar só vazio ou pode ser preenchido com algo mais?

Mas ela me devolveu com outra  pergunta olhando bem fundo nos meus olhos:

– Você quer ser minha melhor amiga?

– Já não somos?

– Verdade, para quem eu contaria tantas coisas da minha vida.

Caiu na gargalhada.

E levantou por conta própria para ir embora falando:

– Ninho vazio o quê?! O meu está preenchido pelo meu coração com alegria, por mim, pela minha filha e pela minha nova velha amiga, você!

Nos abraçamos.

 

E foi assim que vi um ser humano conduzindo sua própria saúde diante dos meus olhos pela sua própria força. A minha paciente acima, além de todo medo e mágoas que trouxe à consulta, apresenta um quadro  de dextrocardia, coração do lado direito. E assumo que adorei saber que ocupo um espaço nesse canto do peito dela.

Gratidão, medicina de família  e comunidade, por existir e se permitir ser norteada por forças tão transformadoras como universalidade, integralidade, equidade e também a amizade. 

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