Uma consulta de cor(ação)

por Michelle Venâncio

Sexta-feira, Maio de 2019. Ambulatório de Saúde Mental.

Atendo uma mulher negra, sorriso tímido, passos modestos. Aqui, vou chamá-la de Francisca. Já havíamos nos conhecido há 15 dias, quando veio ao posto para acompanhar seu marido. Naquele momento, notei que também precisava ser cuidada, ao que me respondeu: “Vou marcar consulta pra mim, bem”. E assim o fez. Pedi para que se sentasse e ficasse à vontade para conversarmos, mas ela utilizou só a beiradinha da cadeira. Totalmente inclinada para frente, era como se seu corpo clamasse por ajuda. Queixa principal: “renovar as receitas dos remédios da cabeça”. Um histórico de irritabilidade, ansiedade, depressão, exaustão, que pioraram depois do adoecimento do marido, de quem é a única cuidadora. Continuamos conversando, até que em determinado momento ela fala: “Porque a gente que é preto assim, bem, sabe como é…” Perguntei o por quê. E, com muitas lágrimas, me conta todos os episódios de racismo que sofreu com a família do esposo, de descendência italiana. Eu, emocionada também, pergunto se isso traz sofrimento a ela, que afirma que a adoece “tanto quanto os problemas da cabeça”. Questiono se já havia dividido isso com algum médico ou algum outro profissional de saúde. “Ah, não, bem. Falei pra você só, porque você é de cor que nem eu, de certo ia entender.” ‘Bem’ é a forma carinhosa com que se referiu a mim durante todo o atendimento. Pela fala de Francisca fica evidente que representatividade e empatia importam muito para um cuidado integral, daqueles que aprendemos lá nos bancos da Universidade. “Até voltei a estudar, bem, quero ser alguém.” Afirmo que, pra quando chegasse à frente do espelho, no auge dos seus 56 anos, olhasse bem profundamente pra ela e reparasse que seu cabelo não é duro; que seus traços não são rudes; que é uma mulher forte, linda e inteligente. Renovo suas receitas, com a esperança de que um dia não sejam mais necessárias. E digo que estaremos juntas, sempre, seja na unidade ou não, uma torcendo pela outra, porque ainda que a sociedade diga que não, somos muito capazes. Nos despedimos com um longo abraço e com muitas lágrimas.

(…)

Sábado passado, eu participava do I Seminário Nacional de Saúde da População Negra na Atenção Primária à Saúde. Já havia experimentado (e ainda experimento, infelizmente) os efeitos do racismo na minha vida, mas ficou escancarado pra mim como o racismo adoece também as pessoas que atendemos. 80% das pessoas que utilizam o SUS são negras. É preciso estar com os olhos e ouvidos atentos, porque muitas vezes não exploramos essas queixas, uma vez que racismo não tem CID (código internacional de doenças). Em diversos momentos penso em desistir, mas dias como ontem me fazem perceber que é preciso cuidar dessas pessoas. Que bom que eu estava lá, melhor ainda que ela estava lá. Seguimos.

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