Por Ricardo Mannato, acadêmico de medicina

Chamava-se Norminha Cachaça, para que não a confundissem com a outra Norma da comunidade, a da igreja. Uma senhora baixinha, atarracada, cabelos loiros oxigenados e que acendia um cigarro no outro, depositando os restos em um cinzeiro com formato de pulmões, que há muitas camadas pretas atrás já não tinha mais sua coloração rosa.

Estava há dez anos sem sair de casa, desde que seu marido faleceu. Tinham um bar juntos e do dia pra noite ele não estava mais lá. Tão dedicados ao estabelecimento, não tiveram filhos. Sozinha no mundo, vendeu o que podia, apressadamente, e se trancou em quatro paredes. Qual graça teria a vida sem as prolongadas e sonoras risadas do companheiro? 

Era brigada com as irmãs e vizinhas, não suportava mais ter que ouvir que tinha que sair do sofá pra viver. Vivia bem ali. Olhava as crianças brincando pela janela, tomava conta do trintão que alugava um quarto dos fundos de sua casa, tinha muitos canais televisivos que a faziam companhia durante o dia e alimentava os cachorros da rua. 

Quando botava o pé fora de casa, o coração acelerava, o ar lhe faltava, as pernas ficavam bambas. Pior do que a morte é o presságio dela. Tentou, falhou, tentou, falhou, desistiu. Sempre que precisava de algo da vendinha ou da farmácia, seu locatário-amigo-filho prontamente ia lá buscar. Ou então era só dar um trocado pros meninos que jogavam bola na sua soleira. Sair pra que?

Na verdade, bem que sentia falta dos finais de semana em Petrópolis. De uma boa praia no verão, daqueles banhos de mar de lavar a alma, dos churrascos de domingo, da cachacinha com os amigos. Sair de casa tinha seu charme. Mas não conseguia nem pensar nisso: o medo rapidamente a dominava e transbordava pelos olhos. 

A longa conversa já a acalmou um pouco e, por fim, aceitou o remédio. Um mês depois, voltamos para uma nova visita e Norminha vibrava em uma onda diferente. Já caminhava em sua rua, fazia suas compras e foi até no aniversário da irmã, que morava a uns quarteirões de distância. Bateu na porta e todos se chocaram ao vê-la fora do sofá. Foi muito bom, mas não se prolongou demais. Pactuamos que a próxima consulta seria em um mês, na clínica. Ela respirou fundo, apagou o cigarro, deu umas tossidas e riu. É, acho que consigo ir até lá. 

O dia chegou e Norminha não apareceu. Antes que fossemos visitá-la, a notícia nos encontrou; elas viajam rápido, dizem por aí. Norminha cachaça faleceu como o marido: um dia estava lá, no outro não mais. Deixou no sofá a marca do corpo, no cinzeiro a marca das mágoas e em mim a marca do agora. 

Saia do sofá, enquanto ainda há tempo.”

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