Por Alfredo de Oliveira Neto, médico de família e comunidade

Nunca me instalaria no meio do caos

dessaturando a utopia

mas eis que preciso lavar uma pia

e estender a roupa amassada

de toda uma geração enclausurada

o pão não é nosso

e a cada dia

endurece mais o meu encantamento

chega de rimas!

saudade já foi coroada

mas arrebento

e em cima desta pedra cansada

me destroço na cidade vazia

pandemia

amanhece cristalino

de um azul-desgosto

anoitece vidro-fosco

de que vale esta tempestade de citocina?

a quarentena, todas as posturas de Yoga

o relatório do FMI

Estados Unidos e China

as modalidades psicoterápicas do enfrentamento

as lives de Paul McCartney, Rolling Stones

e Ludmilla?

de que valem os tacanhos da cloroquina

e do anti-isolamento?

se hoje

no Morro do Alemão

a aurora se pintou de sangue e tinta preta

e que ninguém se esqueça

da menina do balão amarelo

se rodopia, acaba o brinquedo

ninguém fica mais velho

ela ria

ria

ria

pandemia

(Texto escrito em 16 de maio de 2020)

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