Por  Douglas Thaynã Vieira de Souza, médico de família e comunidade

José*, 50 anos, com histórico de diabetes mellitus, chega à unidade de saúde solicitando uma consulta porque está com falta de ar. Neste momento de pandemia, qualquer sintoma respiratório torna-se crucial e dispneia é um dado relevante e que pode direcionar o tratamento a ser feito. Avental descartável, luvas, máscara N95, óculos de proteção, escudo facial. Astronauta Douglas reportando-se à tarefa.

Quando eu pergunto, por trás de todas as camadas, o que está acontecendo com ele, ele responde: “acho que não sou mais homem, doutor”.

Paro. Os protocolos do município não contemplam esta queixa. Os livros de semiologia e propedêutica não trazem este sintoma. E agora? Teria ele sofrido algum traumatismo na região genital? Será que estava com alguma dificuldade na relação sexual? Penso que preciso saber mais coisas e deixo a escuta (de ouvido e coração, não de estetoscópio) fazer seu papel.

José me conta que a falta de ar começou há 2 meses. “É como se fosse um aperto, uma pisada de botina que pesa e não deixa puxar o ar, como se não tivesse liberdade de respirar”. Passa na minha cabeça a beleza das narrativas e como um mesmo sintoma pode ser expresso de tantas formas. Pergunto se houve algum fator que pudesse ser relacionado ao início da falta de ar. “Começou depois que meu neto foi morar com a minha irmã”.

E José me conta que em 6 anos perdeu “as quatro mulheres de sua vida”. Uma filha, devido a um câncer de ovário. A esposa, devido a um AVC. Sua segunda filha e a neta mais velha (juntamente com seu genro) em um acidente de carro. E ele me conta que lutou muito para não desabar, e que continuou firme por todos os últimos anos.

Pergunto se ele tem alguma ideia do que pode ter contribuído para que ele não desabasse. Quando ele fala, é como se a voz ganhasse vida própria. “Não sei… acho que foi meu neto, o Pedro Henrique*… Ele me fazia ficar em pé… Daí veio essa história de vírus e ele foi morar com a minha irmã… diz que foi porque eu sou diabético e sou do grupo de risco… minha irmã fala que é pro meu bem… mas depois que fiquei sem meu neto parece que perdi o propósito… e daí fico achando que não sou mais homem”.

Pergunto o que é ser homem para ele. “Ah, um homem tem que ter um papel, um propósito na vida… eu cuidava da minha esposa, cuidei das minhas filhas e da minha neta, depois que elas foram embora eu só fiquei com o Pedro Henrique… agora nem ele eu tenho… faz dois meses que estou sem função nenhuma. Daí fico pensando nisso e me ataca essas faltas de ar e esse aperto no peito”.

José nega outros sintomas respiratórios e quaisquer outras queixas. Afiro a pressão, verifico a temperatura, ausculto pulmões e coração. O oxímetro de pulso mostra saturação de 97% em ar ambiente. Segundo os protocolos, um “caso respiratório leve”. Vejo no prontuário que os últimos exames do paciente são de 2015 (ano de falecimento de sua filha e sua neta). Pergunto se por acaso ele fez os exames fora da rede pública. Ele diz que não, “vixe, esses anos eu fiquei só em função do Pedro Henrique… nem consegui me cuidar…”.

Aí vem um dos momentos que mais gosto na relação com as pessoas que atendo. A hora do insight. Quando dá um clique dentro de cada um, o momento em que tudo fica claro. Quase uma epifania. José olha pra mim e diz: “olha aí, acho que a minha função agora é cuidar de mim mesmo um pouco, faz tempo que não me cuido… quem sabe é isso que faz falta…”.

Concordo com José. Solicito alguns exames, oriento algumas técnicas de manejo de sintomas de ansiedade e prescrevo uma medicação sintomática para uso conforme a necessidade. E ele vai embora. Eu me sinto feliz, mesmo sabendo que não resolvi nenhum problema dele. Fui apenas uma pessoa comum conversando com outra pessoa comum, por 15 minutos em um dia com vários outros atendimentos. Como tantos outros Josés que circulam por aí. E Marias, e Helenas, e Caios, e Rodrigos, e Patrícias… Porque é nas coisas comuns que se esconde a beleza.

*Nomes fictícios

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