Por Geferson Pelegrini, residente de Medicina de Família e Comunidade

— Bom dia, tudo bem? Aqui quem fala é o Residente em Medicina de Família e Comunidade da sua Equipe de Saúde aqui da Unidade. — Dessa forma iniciava mais uma teleconsulta na UBS Santa Cecília, em meados de maio de 2020, durante a pandemia de COVID-19, em Porto Alegre. Objetivo primário da ligação: reavaliar a resposta ao uso de Zolpidem devido à insônia inicial.

— Tudo bem, doutor! É, na verdade… hum, pensando bem, o último médico que me atendeu orientou retirar aos pouquinhos o remédio pra dormir: um dia sim, outro não. Só que ontem era o primeiro dia em que não tomaria e acredito que a insônia piorou por eu saber que não posso usar. Meu dia se resumiu a isso. Acabei tomando e pedi outro teleatendimento. — Disse Leandro, um pouco ofegante ao telefone. Estranhei a franqueza. Pensei: o que se passa na mente desse homem, com cerca de 40 anos e sem outras doenças descritas em seu prontuário?

Que informações o prontuário me traz? “Mudou-se para Porto Alegre para facilitar o acesso de sua esposa Silvia, de idade correspondente, ao serviço de transplante pulmonar em um dos hospitais terciários do município.” Impressão transmitida: homem solidário com a esposa, na verdade, acima da normalidade. Outro adendo descrito sobre tela: “Desempregado, trabalhava como analista de sistemas.” Minha mente imaginativa e empolgada já conjecturava a hipótese de que tivesse deixado sua cidade natal e seu trabalho para cuidar de sua amada na capital. Porém, não estaria eu tendo fé demais na humanidade? Se fosse a mulher, seria o contexto usual…

— Leandro, “okay”, vamos reavaliar o uso. Por enquanto, não se preocupe com isso. Gostaria que você me contasse o que mais te incomoda além da insônia! — Nesse momento, minha mente poderia ser ouvida borbulhar por uma colega que estivesse passando por perto: o que posso desencadear nesse homem com tal pergunta? É adequado rastrear sintomas depressivos por telefone? E se ele relatar ideação suicida, o que eu faço? Será que ele vai se abrir comigo? Com frequência, nem presencialmente isso ocorre… “shhhhh”, cérebro, agora vou me concentrar nas palavras de Leandro.

— Então, obrigado por se preocupar! — disse o usuário, com misto de surpresa e alívio na voz. — Você deve ter lido aí que minha esposa espera por um transplante de pulmão, certo? A pandemia tem me afetado muito. Eu só saio para ir ao mercado e aquele cenário com pessoas mascaradas, buscando ficar longe uma das outras, usando luvas… isso tem me levado à loucura! Sinto que sou uma ameaça à Silvia. Chego em casa e lavo item por item das compras, passo álcool em gel repetidas vezes. Só que nunca acho que é suficiente! — desabafou.

— Entendo, Leandro, esse momento é único, nunca vivenciamos isso, você entende? É totalmente compreensível sua preocupação! Vejo que você é um homem muito preocupado com sua esposa, mas o que você tem feito para cuidar de si? — Naquele momento da conversa, eu enxergava um ser humano se doando a outro. Um homem do interior do Rio Grande do Sul (estado famoso pelo machismo), sofrendo durante a pandemia, emanando solidariedade, despido do estereótipo provedor masculino e alternando seu papel ao de cuidador: historicamente designado às mulheres.

— Eu gosto de ouvir minha vitrola, mas ela quebrou e tenho medo levar ao conserto, embora o governador já tenha flexibilizado o isolamento social, né? Sabe o Brique da Redenção? Meu “hobby” é ir lá aos domingos ver uns discos antigos e nem isso eu posso fazer. Às vezes, eu tenho vontade de abrir a porta de casa e sair a caminhar sem rumo. — Para mim, não faltava mais nada, o diagnóstico já estava nítido. Não precisava ele ter dito que chorava facilmente, nem que um de seus prazeres – cozinhar à esposa – havia diminuído ou que, periodicamente, apresentava sensação de sufocamento e precisava abrir as janelas para conseguir respirar.

Alteramos Zolpidem para Imipramina e aumentamos a dose paulatinamente. Leandro referiu estar melhor, na última ligação.  Porém, acredito veementemente que o fator essencial à atenuação dos sintomas depressivos e ansiosos foi eu ter perguntado se ele se enxergava como um homem solidário. Se ele conseguia compreender que todas as medidas preventivas à pandemia que relatou estavam absolutamente corretas, a ponto de eu não fazer adendos. Ou se ele concordava que poucos homens deixariam sua vida previamente estabelecida em uma pequena cidade pelo desconhecido em um centro urbano muitas vezes inóspito, com o objetivo altruísta de, para além de curar, cuidar de sua amada. Ou, mesmo de encontro ao que pregava eu religiosamente, porque orientei que ele poderia realizar caminhadas matinais cuidadosas pelos meandros dos bairros, evitando avenidas movimentadas e tocar superfícies.

Desfechos: Leandro consertou sua vitrola. Disse que tem aproveitado e enxergado sua ida ao super (como chamam os porto-alegrenses) com mais vida. Ele me agradeceu. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. A telemedicina foi exitosa nesse caso. O acesso e a longitudinalidade do cuidado foram garantidos. Ligarei para ele na próxima semana, mas o que eu queria mesmo era ver seu rosto ou até um abraço. Imagine um telefone tocando. A linha telefônica se constitui também em linha de frente contra o vírus. Tenho imaginado um mundo em que a face da masculinidade apresentada por esse homem poderia se tornar viral. Leandro é real, bem como sua história, mas seu nome é outro.

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