Por Raquel Ferreira, médica de família e comunidade

Eram cerca de 2 semanas após o decreto de transmissão comunitária do SARS-nCOV-2, o novo coronavírus. Uma paciente entrou no consultório com queixa de tristeza e transtorno depressivo há longa data, já com ajuste das medicações por outro médico fazia 5 dias. Era operadora de caixa em um supermercado e relatava que tinha tido uma crise de aflição e choro intenso no trabalho. A ansiedade tinha piorado por conta da possibilidade de se contaminar e contrair a COVID-19. Tinha visto alguns colegas do trabalho se afastando por razões médicas e sentia que aquela situação estava cada vez mais próxima a sua realidade. 

Estava com medo. No lar, moravam ela e um casal de filhos, ainda crianças de 8 e 10 anos, mas naquela ocasião já fazia 2 semanas que não os via, pois tinha preferido deixá-los na casa do ex-marido e dos avós paternos por medo de contrair e de contaminá-los com a temerosa doença. 

Estava ansiosa. Há 2 semanas sem a companhia dos filhos, trabalhando e, quando voltava para casa, permanecia em isolamento social. Ligações para familiares já não eram suficientes, o choro sempre vinha, mas com os filhos, se segurava: Tentava falar pouco sobre seus sentimentos para não deixá-los preocupados. 

O choro apresentou-se intenso e a história de um estupro prévio veio à tona. Estava triste. Não era mais a mesma desde aquela situação, sentia medo de sair de casa, não confiava nas pessoas e, naquele momento, estava sozinha, longe do colo dos filhos. 

Naquele olhar jovem e cheios de lágrimas me vi, a emoção veio e respirei profundamente para não embargar a voz… Mãe tem dessas coisas, se vê e se sente na dor da outra. 

Não consegui, mantive distância segura, mas pedi licença para retirar a máscara. Nenhuma de nós tínhamos sintomas gripais, mas nós duas estávamos em risco de contaminação em decorrência do trabalho com o público. Nós duas gostaríamos de estar em casa, cuidando e protegendo nossas crias daquela situação, mas precisávamos trabalhar, fazíamos parte do grupo de trabalhadores que movem os serviços essenciais. 

Conversamos, ajustamos o tratamento: fizemos acordos de autocuidados. Sugeri que levasse os filhos de volta para casa: a separação estava causando maior doença do que o abraço protegido lhes causariam. Reforcei que mantivesse roupa de trabalho no trabalho e as colocasse em saco plástico até lavá-las; higienizasse bem as mãos várias vezes ao dia, evitando tocar o rosto; retirasse os sapatos e se encaminhasse ao banho ao chegar em casa, entre outros cuidados, que eu também, mãe, já estava tomado diariamente para manter minha família livre da COVID-19. 

Ela respirou fundo, se disse mais aliviada após ter jogado para fora aquilo que a sufocava e sentiu-se acalmada com a possibilidade de ter os filhos novamente em casa. Ao nos despedirmos, me agradeceu pela escuta, abriu um sorriso e nos abraçamos com o olhar… 

Eu também respirei fundo, tomei alguns minutos para terminar de processar aqueles sentimentos, coloquei novamente a máscara e voltei aos atendimentos. 


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