Por Alfredo de Oliveira Neto, médico de família e comunidade

Ela entrou e não conseguia falar, sua filha cortou o clima: meu irmão morreu domingo passado.

Na semana anterior havíamos pactuado o retorno ao antidepressivo que não usava há 15 anos. Uma consulta longa, a segunda, muitas ideações suicidas. Semana retrasada a colega médica da equipe tinha acolhido e registrado inúmeros parágrafos no campo subjetivo do E-SUS. Abuso infantil, 12 tentativas de suicídio, um casamento morto-vivo, a sensação de que a vida zuniu pela janela enquanto lavava pratos e arrumava os filhos para a escola. Chegou a concluir curso universitário, mas jogou a toalha no ringue dos sonhos. No entanto, agarrou-se ao último joule de energia e tentou pela enésima vez sair da inércia. Aplausos em pé.

Durante a pandemia, meu turno de “consultório normal” me relembra que a vida não está em isolamento, a mordida do cachorro de rua, o terrível peso de uma investigação de câncer, o aperto nos olhos por um sorriso escondido pela máscara da mãe, deitada na maca, ao ouvir as batidas do coração do primeiro filho, o barraco na sala de espera, um pneumotórax espontâneo num jovem fã de Legião Urbana, o corrimento vaginal que a envergonha pelo fato de precisar ficar de quarentena com o namorado novo, o início da insulinoterapia com a melhora dos níveis glicêmicos mesmo se empanturrando de pão. Essas e outras me desconectam da ficção científica trágica que nos metemos em 2020, mas a roda da vida, repito, definitivamente está furando a quarentena.

24 anos, diabético tipo 1 descoberto na infância, funcionário de um fast-food, e fã do batidão carioca havia deitado na cama da mãe na tarde de um domingo e soltado o verbo sobre planos e sonhos como há muito não fazia. Sem sintomas respiratórios. Como grande parte dos jovens, tinha uma péssima relação com a doença crônica, negação e aposta no poder curativo da juventude. Se para os idosos é dificílimo, para os jovens são insuportáveis a disciplina com a alimentação, exercício físico e medicações, os efeitos colaterais, os exames e consultas de rotina. Já no trabalho noturno na lanchonete durante a folga falou ao colega que iria relaxar no quartinho dos funcionários e nunca mais voltou. A mãe foi a primeira da família a chegar no local, “doutor, ele estava no chão feito um pacote jogado”, assim que recebeu o telefonema do gerente, ela sentiu que não era apenas mais uma hipoglicemia, assim como várias outras vezes.

Estou aqui para lhe ouvir, a senhora quer falar alguma coisa? “Ele não me deu tchau”. Foi uma das consultas mais tristes que já tive, e olhe que já tive muitas desde o meu início como médico em 2006. Todavia o motivo desta crônica não foi a maior tragédia do mundo, a de perder um filho no meio de uma pandemia e sim a reação desta mãe com alto risco de suicídio. Claro que em nenhum momento da consulta eu sondei como estava este risco, apesar de ser recomendado, foquei no que ela e a filha falavam, “a minha vontade é de gritar e socar e parede”. Quase prescrevi de tanto ter repetido que ela precisaria gritar muito e esmurrar o colchão, que quanto mais fizesse isso no começo, melhor, mas à medida que a consulta andava ela entendia o que eu queria saber sem ter perguntado e do nada diz: “fique tranquilo, doutor, não quero mais saber de morrer, a mensagem da morte dele para mim foi: viva, minha mãe!”. Marujei atrás da máscara e me segurei muito para não abraçá-la, falei que a minha vontade era esta.

Ela retornou na semana seguinte, dormindo demais e comendo de menos, a filha reclamando que a mãe precisa respeitar a maneira de encarar o seu luto, que é faxinar obsessivamente a casa. O pai, apático, catando os escombros no trabalho de jornaleiro, a outra irmã sofrendo pois havia brigado com ele antes de sua morte, suplicou à namorada do irmão, detentora da senha do seu celular, que apagasse sem ler as conversas de zap entre eles. E ela, a mãe, ainda firme, com planos de arrumar o quarto do filho com prazo determinado para cada item, “só o travesseiro, doutor, vai ficar comigo, ele deve ter chorado e sonhado muito nele”.

Ao sair da consulta me pede que nossos encontros fiquem mais espaçados, de 15 em 15 dias, olho para a filha, que me faz um ok com os olhos.

Será que é apenas uma reação inicial e em breve ela desmoronará e cometerá um suicídio de fato, ou será que esta morte ressignificou os sentidos da sua vida e a isso ela se abraçará até o fim? Não sabemos, mas o fato é que, pelo menos neste início, parafraseando Drummond, no meio da morte, a vida nasceu na rua, rompeu o asfalto.    

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