Por Gabriela dos Santos Marques, residente de Medicina de Família e Comunidade

Chegou cedo. Devagarzinho, entrou, sentou-se e disse assim: “eu preciso de ajuda (me inclino e escuto)… para dormir.”
Recuo, me reposiciono: a típica queixa que te divide, entre compaixão e cansaço. Uma repetição diária, vezes embutida, quase dessensibilizada. Um sintoma que, assim, central e sob o holofote, mais refletido, deverá ser dos mais graves que há na experiência humana. Não dormir. Imagina só!
“Fecho os olhos. espero muito… a minha mente não desliga: ele não vem! Pensei: preciso procurar o médico.”
Nessa hora, do lado de cá, sobe e desce na garganta, certa antipatia do recorde de prescrições a serem replicadas: Clonazepam, o tal do Rivotril. O TAL: planejado como ferramenta de crises, pretendente a salvação imediata – 2mg de artilharia potente. Na vida real, tantas vezes domesticado, adestrado e convertido a mascote de anos a fio. Aquele da receitinha azul, sabe? Esse mesmo, o cobiçado. O emprestado. O da barganha… O pivô da disputa.
Mas o caso nem era desses. A senhorinha de olhos tristes, boca seca, mal estar e medo, não veio por ele. Estava pronta a aceitar qualquer remédio. O comprimidinho que eu oferecesse. Quiçá outra apresentação. Ela foi clara, desde o princípio: queria ajuda!
Há pouco, houve uma outra – também mulher, também periférica, também hiper-tensa – que me disse assim: “Dormir? Depois de certa idade, não existe mais sono natural, não, minha filha!”
Nesse ponto, entre dúvidas, a mente retorna a paciente atual. Nó na garganta – perco qualquer diagnóstico quando ela emenda: “A coisa tá difícil com a pandemia. Somos eu, meu velho e três filhos grandes. A menina era Uber, não consegue mais trabalhar. Os outros moços, também sem dinheiro. Mandaram embora faz pouco… É a minha aposentadoria, com a dele e só. Ainda descontam do empréstimo direto no banco: o que chega é bem pouquinho. O negócio apertou.”
Os olhos cansados marejam. Para bom entendedor, em tempos mascarados, meia expressão facial basta.
E eu, engulo a seco, examinando mentalmente se há algo a prescrever. Vasculho gavetas e me pergunto se a medicina me ensinou o que fazer. Se já há protocolo para lidar com a falta. Com o medo e com a dor. Com a cotidiana maternidade prolongada de avós que não podem cozinhar aos domingos e depois descansar. Avós que são para sempre mães, porque nunca pararam de sustentar. Alicerces antigos de construções que só crescem.
Com fissuras: aos trancos e barrancos, ou barracos.
Penso se, na dificuldade de prescrever, ao menos, eu consigo descrever. Transformar a minha angústia em palavras: assim, essa tristeza acumulada, de passar a semana toda escutando mulheres preocupadas, insones e abaladas. Com suas doenças físicas exacerbadas, listas de medicamentos alongadas e aposentadorias curtas.
Para assim, quem sabe, não ser eu a perder o sono hoje a noite.  

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