Por Fabiane Bostelmann

Metade da tarde, agenda cheia. Na tela do computador, próxima paciente: Joana (nome fictício), 30 anos.

Era a terceira vez que ela consultava comigo no último mês.

No nosso primeiro encontro, final de tarde de sexta, na sala de emergência, queixava de dor nas costas que corriam para a perna, com palpitação no peito, formigamento no braço, queimação no estômago, dores de cabeça e uma tontura muito forte, olhar assustado, segurando um choro que não ia de sair tão cedo. Tento abordar as lágrimas escondidas com dificuldade naquele olhar, mas elas não queriam papo naquele fim de tarde. Medicamentos sintomáticos e um convite para voltar na próxima semana para reavaliação. 

Ela voltou, os sintomas ainda não haviam melhorado e as lágrimas coincidentemente ainda continuavam reféns daquele olhar firme e arregalado. Tento de novo conversar sobre as angústias e sofrimentos da alma que brotavam naquele corpo, formigavam os braços, queimavam o estômago e pesavam as costas, gritando naqueles olhos marejados. Mas ainda não era o momento e é preciso respeitar o tempo das marés dos olhares.

Mas ela voltou mais uma vez, estava ali na tela do meu computador. Dessa vez ela veio pronta pra falar, eu só ainda não sabia que eu é que não estava pronta para ouvir. Ela me contou mesmo assim, ninguém nunca esperou ela estar pronta, não era uma gentileza que ela devia aos meus ouvidos crus de mulher branca privilegiada. Joana era preta, nascida na Bahia, era muito feliz lá, apesar de sentir falta de amor de mãe, era criança e gostava de brincar, o que fazia muito nas terras baianas quentes.

Começou cedo a desenvolver corpo de mulher e, por consequência quase direta na nossa cultura, a chamar atenção dos homens, mesmo sem querer, ela queria mesmo era brincar com as outras crianças. Com apenas 5 anos começou a sofrer abusos do padrasto que lhe espremia os brotos mamários que mal haviam surgido. Os abusos só foram aumentando, à sombra do olhar da mãe – provavelmente outra vítima, o irmão do padrasto também entrou no jogo hediondo. O padrasto a obrigava a ouvir o que ele e a mãe faziam no quarto, lembrando que era o que queria fazer com ela quando fosse maior. Ele a acompanhava quando ia ao banheiro para avaliar a espessura das fezes e tirar conclusões na sua mente doentia, as quais fazia questão de compartilhar com a pequena. 

A família mudou-se para o Sul e mais dois namorados da mãe assumiram o protagonismo da cena bárbara até  os 13 anos.

Ela foi me contando com mais alguns detalhes sobre tudo que viveu até ali, ela não entendia o porque tudo isso tinha vindo a tona agora, ela acreditava já tinha dado conta de bloquear tudo aquilo muito bem nos últimos anos. Sem saber bem o que dizer, fiz o que pude, ouvi com toda a atenção e concentração para segurar a minha repulsa dentro do meu estômago, levantei da cadeira e com meus braços formigantes a abracei enquanto a maré dos meus olhos se transformavam em ressaca e as lágrimas rolavam sem censura. Quem olhasse de fora iria ver do meu lado do abraço uma mulher branca crescida num mundo de privilégios e do lado dela, uma mulher preta com uma infância sofrida que ela insistia em dizer ser feliz. Mas em verdade que aquele abraço não tinha lado, era uma coisa só se somando ao choro compartilhado simbolizando o início da cura de um feminino muito maltratado. Naquele abraço tinham muitas mulheres, sem cor, sem corpo, sem médica, sem paciente, só feminino, um feminino ferido ansiando por cura.

Hoje aos 30, ela rejeita suas curvas de mulher, tão cobiçadas para muitas na sociedade, é o seu carma. Ao fim da consulta, depois de pactuado que seria importante a terapia, Joana me fez um pedido cruciante (o qual me repetiu várias vezes nas consultas seguintes): ela queria uma cirurgia para retirar as mamas, queria tirar a fisionomia feminina das próprias mamas que só lhe trouxeram dor e sofrimento. Ela ansiava por uma mutilação na esperança que a cirurgia levasse a dor de um passado duradouramente amargo e lhe garantisse um futuro menos desgraçado. Eu só queria conseguir fazer a Joana entender que o problema nunca foram suas mamas precoces. Que mastectomia nenhuma é capaz de curar uma sociedade doente do nordeste ao sul. 

Há 2 anos não vejo mais Joana, mas ainda torço por marés melhores, daquelas que esvaziam olhos sofridos e enchem olhares alegres, para ela e para todas as outras Joanas que senti chorarem juntas naquele abraço

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