Por Arthur Fernandes da Silva, médico de família e comunidade

Seu Roberto? – chamei. Sem resposta. Falei mais alto. Nada ainda. Falei mais alto. Ele levanta os olhos e meneia a cabeça.
– Opa!
Havia chegado para consulta em demanda espontânea, no meio da pandemia de COVID-19, já com máscara caseira. Um chapéu retrô, parecido com o panamá, calça e camisa sociais, cinto e sapato preto com cara de confortável. Segurava um moletom cinza no colo, enquanto aguardava sentado no corredor. Setenta e muitos anos de vida, esperando sua vez.
Ao levantar, noto as limitações: o moletom passava de um braço com tremor leve para outro braço com tremor leve; a marcha, lentificada, era também hesitante. Adentrou o consultório, tirou o chapéu e sentou na cadeira. Achou algo estranho: a cadeira ficava a um metro da minha mesa. Precauções pandêmicas. Levantou, no seu tempo, puxou a cadeira para perto, determinado, sentou e arrumou o moletom no colo novamente.
– Agora sim.
– Como posso ajudar o senhor hoje?
– Hein?
– Como posso ajudar o senhor hoje? – repito mais alto.
– É uma dor na cabeça. Bem aqui, assim – e faz uma volta na cabeça cheia de cabelos brancos.
– A dor vem sozinha, ou com junto com outra coisa?
– O ouvido fica estalando. E tem um zumbido. É… o estalo e o zumbido – completa. Quase não dormi esses dias por isso.
– Tá bem! E tomou o que de remédio?
– Aquele mol, nol… – o rosto mostra o esforço para lembrar.
– Tylenol?
– Esse mesmo!
– Tá bem. Vou ver seu ouvido, pode ser? Dê licença, viu. Ao exame: rolhas de cera tapando ambos os lados quase completamente. – Descobri o que tinha nos ouvidos, viu? Era só cera.
– Pêra? Cabe não, doutor.
– Não, pêra não! 

 – ambos rimos. Cera! E muita!
– Ah, tá…
– O senhor vai precisar usar umas gotinhas no ouvido pra amolecer a cera. Depois volta aqui pra eu lavar seus ouvidos. A gente não tem esse remédio aqui. O senhor conseguiria comprar? Custa uns 10 reais.
– Que dia é hoje?
– 14.
– O pagamento do aposento sai amanhã. Aí eu compro.
– Combinado. E volta depois de 5 dias pra lavagem. Tudo bem?
– Tá bom.
Pega a receita devagar e coloca perto do chapéu, na cadeira ao lado. O tremor não ajuda a vestir o moletom de volta: passa de uma mão para outra tentando achar as mangas. Peço licença novamente, para ajudá-lo a vestir.
– O senhor vai de chapéu ou quer colocar o capuz?
– O capuz, doutor. Tem que proteger os ouvidos pro senhor lavar depois. Vou direto pra casa, porque o corona tá solto.
Seu Roberto levanta sem ajuda e vai, no seu passinho. Receita numa mão, chapéu na outra, máscara no rosto.
.
O corona tá solto.
E nós?
Aprendendo com ele a viver “presos”.

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