Por Rodrigo Lima, médico de família e comunidade

Já estamos na sétima semana de funcionamento restrito na clínica. Quando decretaram a pandemia nós fechamos completamente, e ficamos uma ou duas semanas sem atender ninguém, andando feito baratas tontas pelos corredores enquanto tentávamos entender o que aconteceria, e fazíamos isso ainda sem achar o que deveria ser a tal “distância social”. Difícil distanciar quando se trabalha sob o paradigma da proximidade.


Depois começamos a tentar fazer alguma coisa. As pessoas com suspeita de Covid ainda não chegavam, mas a gente já tinha uma estrutura pronta para atendê-los. Avental, protetor de face, gorro, máscara, luva, higienização até das canetas a cada paciente. Estávamos cada vez mais distantes.


Mais uma semana se passou e nos demos conta de que a vida continuava. Muita gente precisava de nós independente de coronavirus. Resolvemos começar agendando as gestantes, retomando as consultas de pré-natal. Devagarinho elas foram chegando, assustadas. Máscaras. Cadeiras a um metro e meio de distância. Sem apertos de mão. As vidas que elas traziam, no entanto, nos deixavam mais próximos do trabalho que sempre fizemos.Hoje veio mais uma delas. As consultas acabam sendo mais rápidas porque há um sentimento de que aquele contato deve ser o mais curto possível, mas deu tempo de perguntar “e o seu companheiro, como está?”. Ela disse que ele nunca tinha conseguido ir numa consulta por causa do trabalho, mas que hoje estava lá. “Onde?”. “Lá fora. Disseram que não pode entrar acompanhante”. Sim, verdade, uma das regras criadas para diminuir a circulação de pessoas na clínica.


“Pois vá buscá-lo”.”E pode, doutor?” – Os olhos dela brilharam.”Hoje pode”.
Ela foi até a porta da clínica, fiquei na sala de espera, olhando de longe. Ela chamou o marido, ele veio desconfiado. Ninguém o impediu, e entramos novamente no consultório. “Que tal deitar na maca para ouvirmos o coração da Alice?”.


Posicionei o sonar e os batimentos daquele coraçãozinho ocuparam a sala. Pela primeira vez o pai estava ouvindo aquilo. “Tá ouvindo aí?”. “Tô, doutor”, me respondeu o pai, meio acanhado. A mãe tinha o sorriso mais lindo do mundo.


Descumpri outra regra ao dar a mão para ajudá-la a levantar, mas depois lavamos as mãos. Enquanto eu, já sentado na minha cadeira fazia as anotações finais no cartão da gestante, ela acariciou o rosto do marido e ele sorriu. E eu disfarcei bem, mas chorei. Nos despedimos, saíram de mãos dadas.


Agora à noite li uma das grandes médicas de família que conheço dizer que “não devemos sacrificar nossa humanidade diante desta infecção”. Foi a melhor coisa que li nos últimos dias, e agora posso dormir mais tranquilo. Amanhã tem mais.

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