Por Thaís Gonçalves Almeida, residente de Medicina de Família e Comunidade

Paciente mascarado, 23 anos, no final de um acolhimento em tempos de COVID (famoso sinal da maçaneta):

-Dra… só mais uma coisa: é normal sentir o próprio coração?

– Me descreve um pouco melhor o que tu sente.

– Quando eu fico em silêncio consigo perceber o meu coração batendo, inclusive até vejo minha barriga mexer um pouco. Isso é normal?

Confesso, naquele momento eu sorri (se tivesse vendo um filme, certo que eu teria soltado uma gargalhada). Até consegui ver um lado bom de usar máscara no atendimento – pq óbvio que não sorriria se ele estivesse vendo!

Depois de aprofundar um pouco mais a queixa e ter certeza que não era palpitação ou algo mais grave – afinal, nunca podemos menosprezar a queixa do paciente, não é mesmo?

Eu vi muito claramente: até mesmo a percepção corporal é um privilégio.

Quem consegue, no cotidiano, sentir o próprio coração?

Acordando cedo, pegando busão, trampo, lidando com frustrações, mais busão, comendo, jornal nacional, tentando estabelecer conexão com filhos e cônjuge… alguém tem tempo de parar e se sentir? Sentir que tem um coração gritando vida lá dentro?

Me sinto mal agora por ter sorrido (ainda bem que ninguém viu…).

Viramos máquinas pro sistema.

O nosso corpo não!

Ele tá dando sinais…

O que o teu coração está dizendo hoje?”

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