Por Jorge Esteves, médico de família e comunidade

Eram 8 horas. Bati o ponto e fui como um foguete abrir a sala de atendimento de sintomáticos de gripe, que também ganhou o apelido de Chernobyl. Quando se entra ali, é preciso se paramentar. Eu entendo nossa restrição de materiais, então raramente saio. É preciso ficar paramentado e não se deve andar contaminado pela unidade. Cada saída, um novo material. Entro 8 da manhã e saio quando é possível, em geral umas 5 horas depois. Comer, ir ao banheiro são importantes, mas gastam EPI. Hoje eu consegui duas saídas, uma para internar um paciente, outra para trocar o turno, próximo das duas da tarde. A troca seria 12:30 e essa demora foi por dificuldade deste colega em terminar seu turno, que sua vez atrasou mais pelo menos duas escalas, a da triagem da unidade e da referência para residentes e enfermeiros. Nossa vida tem sido cumprir as escalas. Tenho tentado fazer com a maior assertividade possível.

Volto ao início. Não estou certo se assertividade é uma boa palavra. Cheguei às 8 horas da manhã absolutamente hipervigilante. Logo que entrei em Chernobyl tinha dado alguns bons dias secos, além de respostas rápidas para vários pequenos problemas com soluções possíveis para cada. O que eu pude, fiz. Ouvi, mas intranquilo. Seco e hipervigilante. Não havia razão para estar alerta, não havia nenhum relato de paciente aguardando. Até 8:10.

A rotina do Chernobyl é cansativa. Coloca gorro, máscara, lava a mão. Protetor facial, capote. Lava a mão. Luva. Limpa mesa, teclado, mouse, carimbo, caneta. Limpa estetoscópio, termômetro, oxímetro, esfigmomanômetro, otoscópio com álcool 70%. A cada consulta, renova-se a desinfecção. Nessa manhã fiz isso doze vezes. Da janela aberta de Chernobyl, que prove a ilusão de nossa parca biossegurança, os pacientes nos veem fazendo o ritual de desinfecção. Não sei se isso acalma ou assusta. Mal sobram os olhos para nos ver. A janela aberta é o melhor que temos de biossegurança, a estrutura não é adequada para a circulação de bactérias. Nem de miasmas, caso fosse o caso.

Qualquer caso que possa ter algum indício de coronavírus deve ir para Chernobyl. O lema é não contaminar os outros espaços internos da unidade, nem outros pacientes, nem outros profissionais. A espera para Chernobyl é em área aberta, externa. Coberta, não se preocupe. 

A primeira paciente foi um aviso. Nossa vida de médico é muitas vezes um grande seriado. Tirando o fato de que eu não sou viciado em oxicodona e nem todo diagnóstico é Granulomatose de Wegener ou qualquer outra doença rara. A primeira paciente era na verdade tristeza. Tinha todo o sentido ela estar ali, juro. A descrição na entrada foi fraqueza, diarreia, enjoo, perda de peso e um pouco de tosse. Tosse antiga, mas tosse é sintoma perigoso, mais que nunca. Então, estava ali. Mulher negra, 60 e poucos anos, triste. Muito triste. Conflitos na família no meio da quarentena, distante de parte dela, morando com um filho adulto com deficiência intelectual. Quais eram os medos dela? Acredite, tentei usar minhas técnicas de comunicação, estava inteiramente interessado em sua história, mas saiu pouco. Empatizei com o sofrimento, tentando dizer com os olhos. Como seria o futuro dessa senhora daqui a alguns meses? Medo de morrer? Medo de não haver trabalho ou renda? Medo do filho adoecer? Não deu para compreender. Ela precisaria de muito mais apoio do que aquele cenário de ficção científica e as limitações da nossa organização no momento permitem. Ela saiu com um remédio de enjoo e sem saber a cara daquele médico que tentou lhe ajudar. Já tinham chegado ao menos mais 3 pacientes.

É previsível agora, não? …Lava a mão. Luva. Limpa mesa, teclado, mouse, carimbo, caneta. Limpa esteto, termomêtro, oxímetro, esfigmomanômetro, otoscópio com álcool 70%…Não se preocupe. Não vou escrever sobre os doze pacientes na ordem e na riqueza de detalhes. 

A próxima é uma mulher jovem com medo. Eu sei porque a conheço bem. Vamos chama-la de Olga. Falamos nas últimas duas semanas do seu medo de adoecer pelo whatsapp. Sim, tentei mante-la em isolamento social sem ir a clínica. Menos de 30, com um doença reumatológica rara e uma suspeita de câncer de mama. A biópsia sai amanhã. Deve ser ansiedade, né? Não. Além do medo de adoecer, seis dias de sintomas gripais e piora da febre da falta de ar nos últimos dias. Em uso crônico de corticoide e de hidroxicloroquina. Sim, essa mesma que você ouve nos jornais! Acabou na farmácia, ela não está conseguindo comprar. Sua família se sente culpada, acha que ela adoeceu pela falta do remédio. 

No início da consulta o que eu queria mesmo era acalmá-la. Mas foi difícil. Uma saturação de 93% e respiração acelerada. Em resumo, precisava de internação e oxigênio. Queria dizer “vai ficar tudo bem”, no entanto não tinha garantias, só uma enorme torcida. Foi a primeira internação do dia. Ainda faltam duas para acabarmos. 

Nossa unidade é vizinha a uma unidade de urgência, então é mais fácil chegar lá com os casos graves do que pedir uma ambulância para transferência. Na teoria. Olha, se ontem meu dia foi intenso eu imagino como foi o dia daqueles plantonistas. Já falaremos deles.

Não deu muito tempo para pedir a internação de Olga e preparar os cuidados para transferi-la, quando os colegas me alertaram que tinha uma criança com necessidades especiais chorando na sala de espera. Eu sabia, mas precisava resolver problema de nossa amiga com limitações da oxigenação.

Chamei a criança e a mãe para atendimento e tive pouco tempo com elas. Felizmente foi o suficiente para se chegar uma conclusão diagnóstica. Não o bastante para finalizar a consulta, que foi interrompida pela enfermeira. Vamos chamá-la de Rebeca, tudo bem? “Tem um paciente dessaturando aqui fora”, disse ela. Senti-me levemente constrangido por ter que tirar da sala às pressas a criança com necessidades especiais que havia aguardado chorando. No entanto, naquele momento esse senhor precisava mais. Sim, uma urgência médica.

A criança e a mãe saíram, o homem entrou. Saturando 87%, o bastante para ficarmos bem preocupados. “É meu tio”, disse Rebeca. Até então, eu não sabia. Melhor assim. Atenderia ele com a devida atenção independente de quem fosse. No entanto, admirei seu senso de justiça. Nem na urgência ela pensou em fazer diferente do que faz no seu dia-a-dia com seus pacientes. Entenderia se dissesse “é meu tio” na primeira frase, mas admirei sua postura, confesso. 

Então, próximo de 12h eu consegui tirar a paramentação a primeira vez. Para levar este senhor para a urgência. O cenário da urgência era desolador. Uma espera lotada, a sala de observação lotada, a enfermaria lotada. Quase pedi desculpas ao médico e a enfermeira que me receberam. Afinal eu trazia mais uma pessoa grave. Eu sei que o probema não sou eu, nem o paciente. É a pandemia, o contexto. 

Curioso que parecia um atleta. A gripezinha que, segundo dizem, não dá nada em atletas deu no senhor, apenas hipertenso, de uns 50 e poucos anos, um quadro grave. Falava normalmente, ainda que demonstrando sofrimento respiratório. Ficou na urgência, conseguiu sua vaga de oxigênio. Sentado numa cadeira de acompanhante, ao lado de outro senhor internado, dividindo um leito que não existia. O cenário era de guerra. Por microsegundos pensei se subitamente viveríamos Nova Iorque, Milão, Guayaquil ou…Manaus. Acho que está chegando perto de nós. Foi a nossa segunda internação.

Depois disso entrei no automático. Atendi mais alguns e consegui entregar o turno. Pensei em sair para almoçar, mas não dava. Já tinha que cumprir a próxima escala. Em tese, a próxima era para ser um pouco mais leve, atendendo casos não suspeitos de coronavírus, além de tirar dúvidas de outros médicos e enfermeiros. Um ponto de apoio.

Durou pouco tempo, mas consegui exercer essa função pela metade. Metade de um caso. A porta se abriu e uma enfermeira me disse: “Nem tudo é COVID. Me ajuda com um caso?” Concordei e discordei com ela ao mesmo tempo. Nem tudo é COVID, mas tudo é o contexto da COVID. Tratava-se de uma mulher que sofreu violência doméstica, sofreu agressão física grave há 2 dias. Onde ser atendida? Você entra no hospital com uma ferida na alma e sai com um vírus incerto. Ela optou por ir até nós. Seus olhos estavam roxos, sua esclera, ou seu branco dos olhos, eram vermelhos de sangue. O sangue nos olhos era a marca do que havia vivido recentemente. Era a marca das violências que as mulheres sofrem todos os dias, agravadas por terem que ficar mais tempo com seus companheiros na quarentena. É quando me dá vergonha do mundo e dos homens. Respirei fundo. A hipervigilância ainda não me permitiria chorar. Ainda dava para segurar. Pensei no nosso paciente que conseguiu a última vaga de oxigênio, se fazia sentido pedir uma ambulância para esta mulher, vítima de violência, grávida, para ir ao hospital com um problema oftalmológico grave (além de todas as outras repercussões física, psíquica, sociais), mas que não era COVID. E que possivelmente melhoraria com alguns medicamentos, se não houvesse mais violência. O atendimento nem terminou. Rebeca surgiu de novo pela porta e disse: “tem uma senhorinha rebaixada lá na frente. Não tá falando coisa com coisa.”

Larguei tudo para ir até lá. Fomos nós ver esta senhora, que estava numa cadeira de rodas ao lado do filho. Foi feita uma abordagem de suporte a vida inicial, com perguntas breves para o filho sobre o que aconteceu recentemente. “Ontem falei com ela, estava bem. Não tem nada de coronavírus”, ele disse. Ele estava possivelmente enganado, mas não sabia. Talvez seja, mas com certeza tem a ver com seu contexto. 

Correria. Uma senhora com seu nível de consciência alterado, uma senhora de 80 e poucos anos que morava sozinha até ontem, que fazia tudo sem auxílio, mas que hoje não conseguia responder perguntas básicas, que mantinha um olhar distante, que não se locomovia mais. E com o oxigênio a 85%, é claro. Corremos para a urgência. E sensação de Itália veio de novo. A história nos contará que temos mais do Equador do que de Itália, para não esquecermos que somos um país periférico, pobre, desigual e de que estamos numa favela carioca. O cotidiano não te deixa esquecer.

A mesma enfermeira que me recebeu das primeiras duas vezes me viu. Deve ter tido um frio na espinha, lá estava eu de novo com uma cadeira de rodas e um paciente. Se fosse ela, pensaria “mas que unidade básica é essa com tantos pacientes graves?” Ontem entendi que fomos todos promovidos. E não é uma boa promoção, dessas que o mundo corporativo fala como “sucesso”. A unidade básica foi promovida na gravidade dos seus pacientes, e a urgência aumentou a complexidade e o volume das suas urgências. Para alguns, antes da pandemia já atendíamos urgências demais, chamavam-nos de ‘UPA da família’, numa referência a uma unidade de urgência. Ontem não. Na nossa promoção mais pareceu ‘UTI da família’. 

E a mesma enfermeira me puxou num canto, me disse carinhosamente, num misto de afeto e desespero: “eu não tenho como te ajudar agora”. Entendemos que era hora de pedir ajuda da regulação, leva-la para outro lugar. Não havia oxigênio mais. Não havia leito. Nem cadeira. Acabou. Não havia tempo para chorar, nem para pensar muito. Voltei com a aquela senhora, que chamarei de Solange. Todos merecemos ser reconhecidos como únicos e indivisíveis. E Solange não pode ser diferente. 

Confesso que a essa altura, sem almoçar, sem sentar, sem ir ao banheiro, sem um copo de água, eu não tinha a menor pretensão de ser, nem de tentar ser, herói de nada. Em geral, somos mais peças de uma máquina complexa, mais um computador do que um relógio. Porque nós, componentes deste sistema temos alguma autonomia, limitada, mas relevante, mais para um sistema operacional do que para um relógio e suas engrenagens estáticas, limitadamente predeterminadas. 

Precisamos levar Solange para uma sala tipo a Chernobyl que você já conhecem, mas para observação clínica, uma Chernobyl para pacientes graves. Para tal sala, não esqueçam da nossa rotina. Coloca gorro, máscara, lava a mão. Protetor facial, capote. Lava a mão…Você sabem. Nosso oxigênio nesse caos, que também é logístico, não estava pronto ainda. “Só sexta-feira”, disse a empresa que vende o serviço. Isso seria daqui a dois dias. Então estávamos eu, Rebeca, Solange e vários personagens, que dificilmente conseguirei dar a devida importância de cada um. Você deve estar cansado de ler, como eu estive neste dia. Mas já passamos da metade.

Solange, que chegou com 87% de oxigênio estava agitada. Percebi que seus pulmões não estavam funcionando adequadamente, com diferentes ruídos. No contexto do COVID não se deve fazer nebulização, está proibida. Então fiz, a contragosto de Solange, agitada, vários jatos de uma medicação para seu alívio de seus pulmões. Em confusão mental, ela não entendeu porque daquela máscara conectada a uma medicação. Era para ajudar, certamente. E ajudou. Assim passamos algumas horas. A ambulância, que havia sido prontamente solicitada, não tinha previsão para chegar. 

Ressalto que essa história é só uma, mas poderia estar conectada a várias outras, porque sem dúvida havia sofrimento em todos os profissionais de saúde atendendo em todas as unidades cheias, com recursos escassos e escolhas difíceis. Parece a Itália, só que não.

A essa altura, havia chegado em nossa sala de observação, Roberta, jovem, magra, saudável previamente, mulher negra, sem comorbidades. Também como dizem alguns, com a tal ‘gripezinha’. Não consegui levantar, sentia dores intensas pelo corpo e é claro, nossa perigosa tosse.

Nesses dias, num certo momento o tempo passar rápido e devagar. Transporto-me para uma dimensão paralela, uma sensação de ter virado o personagem de Matthew McConaughey em Interestelar. Mas com gravidade habitual. Num certo momento, lá para às 17 horas, ouvimos tiros. Nos entreolhamos. Não era possível. Não era possível mais esta dificuldade. Não era possível que tinha uma operação policial no meio da quarentena. Não era possível que nosso temático dia de COVID ganharia estes contornos. Fiquei pensando que o universo queria nos lembrar que não somos Itália. Que somos mais Equador, somos sul. Que estamos numa favela. Que a política genocida, que mata pobres e negros não está de quarentena. Ao contrário.

Depois do entreolhar, que durou microssegundos, entendemos que precisávamos proteger a todos. Entenda, não queríamos ser heróis de nada. Mas não pensamos em nenhuma outra opção que não fosse proteger a todos nós. Nesse momento os tiros aumentaram. Eu, Rebeca, Roberta, Solange e Carla, técnica de enfermagem da sala.

O impulso de Roberta foi se jogar no chão, se jogar de uma maca alta. Ela olhou na janela e viu os tiros de muito perto. Os homens com arma correndo. Sim, lembrem-se que já disse que nossa biossegurança depende das poucas janelas que temos na unidade e esta sala tinha uma janela. E também era próximo de cenas frequentes de tiroteios. Por isso, Roberta nem pensou duas vezes e tentou se jogar de sua maca. Eu e Rebeca num contra impulso bloqueamos a queda, amparamos e a descemos para o chão. Ela deitou apoiou sua cabeça em Rebeca, suas pernas ficaram apoiadas em mim. Carla foi para o chão, mas manteve um braço levantado para segurar Solange, que estava agitada. Foram poucos minutos de enorme tensão.

Ficamos sabendo que duas pessoas morreram e foram para a mesma urgência que não tinha mais leitos ou oxigênio. Chegaram mortas, não disputaram suas necessidades com ninguém. No exato momento dos tiros, naquela cena, que uma colega de longe registrou com foto, vários dos nossos outros colegas de trabalho nos ofereceram ajuda. Eles precisavam correr para um lugar mais seguro, mas abdicaram dos seus medos para nos oferecer ajuda. Dissemos que não, que corressem para ficar em segurança. Do chão, olhei para a janela. Não vi nada. Vi o verde do capim alto e quis chorar. Chorei comedidamente, sem que ninguém percebesse. Uma lágrima foi o bastante. Não cabia mais naquele momento. O universo nos contava que não estamos na Itália, mas que o contexto do COVID e a desigualdade e a consequente violência que dela também se origina ainda estão entre nós. Eu poderia parar aqui a história pelo cansaço da escrita, da leitura, ou da desesperança que bateu. Mas não seria justo. Precisamos de um fim. Mesmo que o fim seja um novo começo. A energia incrivelmente renovou. Nenhum de nós pensou em sair da sala. Nenhum colega saiu do entorno da sala sem oferecer ajuda. O tempo todo tive apoio moral, mental, logístico de outros médicos. Não me senti sozinho ou desamparado por eles em nenhum momento.

Muito aconteceu até às 19:10, na chegada da ambulância. Toda a equipe se manteve junta, funcionários da limpeza (que precisam ser sempre lembrados), gerência, administrativos, enfermeiros, médicos, técnicos. A Clínica fechou às 18h e vários de nós estávamos lá. Não sei ao certo de onde veio a ideia ou as peças, mas o oxigênio surgiu. Meio como mágica na tempestade de caos. Fruto do esforço de todos. Uma demonstração em ato de trabalho em equipe com vários elementos das narrativas de superação que nos enchem de esperança. De fato, em tempos difíceis, tais narrativas são importantes. Não a esperança das propagandas ou das palestras de Youtube, frequentemente com o intuito de convencer as pessoas que você é dono e empresa de si. “Se não conseguiu, não foi disruptivo ou empreendedor o bastante”, diria um empresário a um entregador de aplicativos. Mas a narrativa que me vem é de que nem a Itália, nem o Equador explicam o que é o Brasil ou o Rio de Janeiro.

Às 19:10 saí na ambulância com Solange. Saturando muito bem a 97%, ainda confusa. Transferimos para uma UPA com poucos leitos e pouca estrutura. Lá era o fim da nossa história, não a da luta por sobrevivência de Solange. Certamente, um novo começo. Perdido, tonto, a energia baixou. Cheguei em casa reflexivo, certo de que deveria agradecer. Queria agradecer ao universo por ter chegado em casa com segurança. Por ter termos, nós equipe, feito o melhor possível. Por ter colegas maravilhosos. Por ter uma família que me receba com carinho no fim do dia. Eu não iria escrever este relato, mas a história virou notícia e no fim do dia as fotos começaram a surgir, o registro de um dia difícil de esquecer.

Com UPAs lotadas, pacientes com falta de oxigênio aguardam horas e enfrentam até tiroteio antes de transferência

RIO — Nesta quarta, três pacientes da clínica da família de Manguinhos, com suspeitas de Covid-19, começaram a apresentar falta de ar. A necessidade de intubação fez com que a equipe determinasse o encaminhamento para unidades de emergência, mas, o sistema da rede municipal de saúde acusava a falta de leitos. A saída foi bater na porta da UPA de Manguinhos, que fica próxima à clínica, e negociar que pelo menos duas fossem recebidas. Para a outra paciente, médicos precisaram instalar um equipamento de oxigênio para que ela aguentasse até a liberação de uma vaga, o que aconteceu quase uma hora após o horário de fechamento da clínica. No meio de todo o drama, pacientes e profissionais ainda precisaram passar minutos deitados no chão por causa de um tiroteio nas redondezas. O episódio ilustra o cenário de dificuldades e improvisos dentro de um sistema colapsado em meio à pandemia.

— Ficamos quatro horas aguardando uma vaga, enquanto elas estavam sem oxigênio suficiente. Uma paciente possui lupus e está com todo quadro de Coronavírus. Conseguimos que a UPA Manguinhos a entubasse. Outra é idosa, tem 85 anos, com sintomas de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e foi transferida para a UPA Costa Barros às 19h, sendo que a clínica só funciona normalmente até às 18h. Mandaram uma ambulância básica, então um médico nosso precisou acompanhar. Estamos com dificuldade enorme de levar para qualquer lugar, porque todos leitos estão ocupados. Ficamos quatro horas aguardando uma resposta — desabafou uma médica da clínica da família de Manguinhos, que pediu para não se identificar. — Se não bastasse, ainda fomos surpreendidos por um tiroteio aqui em frente. A situação é de caos total.

O registro do tiroteio – meio de tarde em Manguinhos

Crédito: Vasleka Antunes, médica de família e comunidade

Um comentário sobre “Colapso

  1. Obrigado a todos vcs, heróis, por terem uma coragem que eu não sei se teria,mas que para todos nós é a diferença entre ter uma chance de viver, ou morrer.Obrigado a todos vcs,por mim,por nós.
    Deus abençoe e proteja a todos vcs.

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