Por César Monte Serrat Titton, médico de família e comunidade

Ainda não me acostumei com isso de atravessar a sala de espera vazia para ter que chamar paciente lá fora da unidade de saúde – ainda mais quando isto é mais um desafio para estabelecer vínculo numa primeira consulta, além dessa máscara na cara.
– Cláudia Pereira!
Procuro algum sinal de reconhecimento entre os rostos mascarados dos que aguardam. Uma mulher começa a vir em minha direção, sorrio esperando que os olhos indiquem a mesma expressão de quando eu cumprimentava cada paciente estendendo a mão, aceno com a cabeça e peço confirmação:
– Cláudia Pereira? Bom dia! Venha por aqui.
Gesticulo com os braços, com um tanto de exagero teatral para indicar o caminho, e a conduzo até o consultório.
– Cláudia, meu nome é César. Em que posso te ajudar hoje?
– Tem esse exame no envelope aqui, doutor – e me estende o envelope.
– Certo, você veio para ver esse exame… – coloco o envelope na mesa, mas mantenho a atenção nos olhos dela
– …
– E mais alguma coisa?
– Bem… a minha irmã que marcou a consulta, ela disse que só o senhor pra me convencer a não parar de tomar o remédio que eu decidi que não vou mais tomar…
– Então temos que conversar sobre este remédio, o exame… – enumero e prolongo o olhar, o silêncio…
– É, doutor, é que eu tinha muita falta de ar, e uma coisa aqui na garganta, aí eu fiquei com medo de fazer o exame, demorei, se eu tivesse feito antes acho até não ia perder peso, mas eu tinha muito medo do exame, nem conseguia dormir, o outro remédio nem ajudava mas este até ajuda pra dormir, só que eu fico muito mal, o corpo todo dói, e ontem que eu decidi não tomar mais me deu uma paz que até dormi bem, e nem deu dor no corpo, só que minha irmã não aceita que eu fique sem tomar, ela diz que eu sou ansiosa, e eu sou ansiosa, mas eu sempre fui ansiosa e não incomodava com isso, só fiquei assim por causa da falta de ar e desse negócio na garganta, nem dava pra comer direito, e nem aconteceu nada pra eu ficar ansiosa, tá tudo bem, então eu nem preciso mesmo tomar esse remédio, eu não gosto de ficar tomando remédio, se bem que o omeprazol melhorou a garganta e pelo menos tô conseguindo comer direito, até quando que eu preciso usar o omeprazol pra tratar isso, doutor?
– Vou entender tudo o que está acontecendo com você e te respondo no final da consulta, certo? Me explica melhor essa falta de ar…

Ela segue com o relato entremeado e um pouco acelerado, sem tomar fôlego entre falar da falta de ar e das outras coisas, o olhar em geral angustiado – mas nem sempre, como quando ela disse “me deu uma paz”… Pra não me perder na história, começo a digitar no prontuário eletrônico enquanto sigo sustentando o olhar dela (agradecendo mentalmente o treino de datilografia tanto tempo atrás), direciono a conversa com uma pergunta aqui e ali (lembrando de falar mais alto por causa da máscara), verbalizo resumos de alguns trechos para checar se entendi certo, vejo o laudo da endoscopia digestiva alta que ela trouxe, confirmo se não tem mesmo algum outro sintoma que pudesse sugerir Covid-19 – afinal, tem a falta de ar…

Passo para o exame físico e sigo conversando, me coloco a par de que não tem doenças relevantes prévias, nem episódios de ansiedade marcante antes, descubro que mora com o esposo, tem uma filha única que mora na Bahia há anos, não tem emprego, não fuma, não costuma tomar bebida alcoólica nem quaisquer remédios, caminhava na esteira em casa diariamente até começar a tal falta de ar…

– Pelo que eu entendi você começou a não se sentir bem quando veio a falta de ar, não é?

– Sim, doutor, depois que veio esse ruim na garganta, e aí que comecei a tomar aquele remédio por conta pra acalmar, que depois o outro doutor trocou para este que eu tava tomando a noite, só que ele me assustou tanto que eu tinha que fazer esse exame, falou até que podia ser câncer!, por isso que fiquei com medo de fazer e demorei umas 3 semanas, e nesse tempo fui piorando tanto…

– Puxa, imagino o susto que a senhora levou! Que bom que conseguistes fazer o exame e o resultado não traz preocupações assim. Mas a senhora lembra se aconteceu alguma coisa na época em que começou a falta de ar?

– Não doutor, tava tudo bem, essa ansiedade não tem motivo não, meu marido tá bem, minha filha tá bem lá na Bahia, dá saudades mas ela vem esse ano, e eu falo com ela todo dia, e tem bastante gente da família que mora aqui por perto…

– Hum, começou mais ou menos um mês e meio atrás, pelo que a senhora disse, então foi ali pelo fim de fevereiro, começo de março, a senhora lembra como estava logo depois do Carnaval?

– Lembro sim, tava tudo bem…
– Parece que foi antes do novo vírus chegar por aqui…
– Foi antes mesmo, doutor, mas já tava aparecendo tudo que é notícia desse tal do vírus…

– É mesmo, já estavam falando disso, mas ainda não tinha por aqui…

– Aqui não tinha, mas lá onde minha filha mora, na Bahia, é lugar de turismo, vai tanto estrangeiro! E eu comecei a imaginar o perigo, umas ideias ruins que eu nem queria nem falar com ninguém…

****

Ao lado da tela do computador, tem um papelzinho com aqueles novos códigos de CID lançados para identificar Covid-19 – mas não tem código específico para o sofrimento de Cláudia….

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