Por Rogério Logrado, residente de Medicina de Família e Comunidade

Dia de equipe mínima, reunião da clinica, do mês do pico, do ano da pandemia do covid 19

Vou atender um paciente para renovar uma receita de uso controlado. Quando saio com o paciente, encontro a filha de um paciente oncológico que acaba de vir do interior e necessita iniciar acompanhamento e fazer encaminhamentos relacionados ao seu quadro. Chega uma preceptora e me ajuda, orienta os fluxos.

Neste momento surge uma pessoa que veio de retorno da semana passada, em crise de saúde mental.

No mesmo momento chega um caso suspeito de COVID que já havia sido atendido mas retornou, queria falar comigo.

Peço pra paciente de retorno aguardar brevemente. Corro, me paramento. Touca, máscara, faceshield, capote e luva. Acolho a paciente suspeita de covid, melhorou dos sintomas, mas a falta de ar continua. Deseja ser auscultada. Ausculta limpa, saturando 100% em ar ambiente. Crise de ansiedade? Acolho narrativa e histórico. Escuta breve. Paciente satisfeita.

Desparamentação. Higienização.

Volto para a paciente do retorno. Pessoa em sofrimento psíquico há mais de 5 anos, relacionado à trabalho insalubre, que evoluiu com um quadro grave de transtorno afetivo bipolar.

No computador, aparece uma pessoa querendo renovar receita, duas, três. A planilha começa a palpitar. Renovações urgentes, de medicações de uso controlado que já acabaram. “Inadiáveis”.

Eu tento focar no Método Clínico Centrado na Pessoa e busco entender o porquê da história de abuso de álcool que surgiu na conversa com a paciente que está na sala, e daí destrincham-se nós: as relações difíceis, a violência, os abusos de diversas naturezas.

Bate na minha porta alguém, algo aconteceu: reação vacinal, comum? Nem tanto, mas as vezes acontece. Precisamos preencher uma ficha de notificação (7 páginas). Preciso avaliar a reação pra passar uma medicação. Peço pra aguardar.


A ACS me vê, me entrega um papel referente a um caso complexo. Peço pra gente conversar no fim do turno, pq ta complicado.

Nesse momento peço pra paciente 2 minutos pra organizar a situação. Tinham 2 outros profissionais acolhendo e fazendo avaliação das suspeitas de COVID, que estão bombando.

Respiro fundo, peço desculpas, terminamos a consulta, pactuamos um plano, ela vai retornar, ela fica feliz porque falou coisas que não tinha falado há muito tempo.

Abro a porta e vejo que colegas ajudaram com outros casos marcados que chegaram. Ainda bem que MFC se faz assim, junto.

Nesse momento chega uma senhora idosa que caiu da própria altura. Na rua.

Estamos sorrindo pro abismo. Até ele sorrir de volta.

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