Por Giulia Parise Balbão, Médica de Família e Comunidade

A sexta-feira santa sempre foi silenciosa em casa. De uma família gaúcha, italiana e muito católica, minha mãe recolhia o salame e pedia silêncio ao meu irmão arteiro. Neste dia ela não saía para dar aulas na escola rural, e fazia omelete. 

Em quarentena na cidade de São Paulo, vinte anos ou mais depois dessas omeletes, divido hoje com meu companheiro um apartamento, uma manhã, um café, uma playlist de afrosambas e Vinícius de Moraes. 

“Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar 

É preciso cantar e alegrar a cidade”

Faz silêncio em minha rua, sempre tão movimentada. Faz barulheira na cozinha da minha avó, mandando áudios, enviando fotos dos doces que fez, ainda chateada porque não a verei nessa Páscoa.  

Expliquei repetidas vezes, não vou, permanecerei em casa, respeitando o isolamento social. Tenho atendido muitos pacientes sintomáticos respiratórios no hospital, no ambulatório e pelo telefone. No plantão de domingo passado, foram vários confirmados para coronavírus. Hoje é o quinto dia após atendê-los, não tive sintomas. De lá para cá, e antes disso, foram muitos outros. E serão muitos mais. A pandemia mudou o ritmo do mundo e é evidente que está mudando nossas vidas. 

Como parte do corpo clínico do hospital, recebo todos os dias o boletim médico contabilizando internados em UTI e enfermaria pelo vírus, e fluxogramas que se atualizam todos os dias. Estou longe de conseguir ler todos os artigos científicos que recebo. Saio de casa apenas para trabalhar, usando máscara no trajeto. Posso ser a essa altura uma portadora assintomática. O porteiro agora me cumprimenta de longe, não vem mais falar do Galo, nem abrir a porta para me provocar chamando de gremista ou cruzeirense. 

Um vizinho ligou pedindo uma prescrição de medicação controlada. Uma colega pediu uma visita domiciliar. E outro colega pediu que eu visitasse uma colega dele. Todos os dias recebo mensagens de amigos que não são médicxs desejando que Deus me proteja, perguntando se estou bem, dizendo que estão pensando em mim. E também querendo saber o que é uma dispneia, como identificar uma falta de ar, e se devem ou não usar Ibuprofeno. 

Uma paciente descobriu que está gestando e deseja iniciar seu pré-natal. Como agendar a consulta? Outra está agora sem médico, já ao fim da gestação – sim, os bebês continuam vindo ao mundo – e me procura porque seu médico é do grupo de risco e parou de trabalhar nestes dias. Uma paciente do ambulatório faleceu durante sua internação em decorrência de complicações da infecção por coronavírus e, desde então, seus colegas de trabalho, enlutados, adoecidos pelo medo do vírus e da morte, me procuram. 

“Eu não tenho nada a ver com isso
Nem sequer nasci em Niterói
Não me chamo João
E não tenho, não
Qualquer vocação pra ser herói”

O flanelinha atravessou a rua quando me viu carregando meu EPI, já lavado, aquela máscara face shield imensa que parece um aquário, ao sair do hospital. Chegando em casa, entro, após me despir e deixar as roupas na porta, e não beijo meu companheiro antes de tomar banho. Espero me perdoar se eu transmitir a ele. E espero que os vizinhos me perdoem ao se depararem comigo tirando a roupa. Todos os dias pergunto ao meu companheiro se tem coriza ou se a garganta está normal. Ele pergunta se está tudo bem quando espirro, mesmo sabendo que, em razão da rinite alérgica, eu espirro há anos, quase todos os dias. Estou com medo. O que será que eu vou sentir quando eu contrair? 

“Olha, benzinho, cuidado
Com o seu resfriado
Não pegue sereno
Não tome gelado
O gim é um veneno
Cuidado, benzinho
Não beba demais
Se guarde para mim” 

Pesquisadores, a quarentena, a Fiocruz. Os epidemiologistas, o Adolfo Lutz. O aviso de notícias insiste em aparecer em minha tela enquanto escrevo: a chance de morrer de Covid-19 é de 1 em 10000 para pacientes jovens. Brasil supera 20000 casos oficiais, e a cafeteira agora apita antes mesmo de terminar de passar o café. Que delícia essa broa de fubá. Meu companheiro aumenta o volume de Vinícius, sorrio angustiada. Minha mãe deve ter feito omeletes.    

“São demais os perigos desta vida 

Pra quem tem paixão, principalmente.”

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