Por Maiara Conzatti, médica de Família e Comunidade

“Sábado, inverno de 2018, turno noturno. Chegou como quem não queria nada – embora parecesse precisar de tudo – só precisava levar o filho consultar, mas estava acompanhado da mulher, que logo no início entregou o paciente: “Não, ele também veio consultar. Está com febre desde terça-feira”. 

48 anos, taquicárdico, dispneico, temperatura axilar de 39,2ºc, hipertenso, 85% de saturação: “Mas não é nada, logo passa”, disse ele. Conhecido meu, sabe, cidade com pouco mais de 10mil habitantes; quase todo mundo conhece todo mundo. Jogava futebol com meu noivo, conhecido do meu pai.

Logo de cara pensei: pneumonia; vai ficar tudo bem. Exames e RX de tórax: pneumonia grave com derrame pleural de etiologia a esclarecer. Não vacinado para influenza, sem patologias prévias, sem alergias medicamentosas, não tabagista. O2 em cateter nasal, amoxicilina com clavulanato intravenoso; quase 96h dos sintomas, sem oseltamivir. Observação ao longo da noite. 

Pela manhã, melhora da dispneia e saturando 92% com O2 em cateter nasal. Passagem de plantão: ficar de olho no paciente da observação 1. Na madrugada de segunda para terça-feira, o telefone toca: “filha, fulano morreu”. Foi um soco no estômago, relembrado por mim praticamente toda semana desde julho de 2018 e todos os dias desde março de 2020.

Não teve uma saturação menor que 90% desde esse dia que não me fizesse reviver isso: foi o antibiótico, foi o oseltamivir já sem indicação após 96 horas de sintomas ou foi uma fatalidade? Disseram que não teve leito de UTI quando a insuficiência ventilatória, imortal, chegou. O médico regulador informou que havia dois casos na frente: mulher, 18 anos e mulher, 38 anos. Todos mais jovens, todos inseridos antes na lista de espera. 

Até hoje, não teve uma única consulta de qualquer pessoa da família que não me fizesse reviver novamente aquelas 11 horas, mesmo que por alguns segundos, aquele último instante em que ele sorriu na manhã de domingo e disse que estava melhor, e agradeceu. Não teve leito de UTI, mas tinha sepse, pneumonia grave, derrame pleural, insuficiência ventilatória, suspeita de influenza. Tinha tudo, menos leito de UTI e Covid-19.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s