Por Thaís Gonçalves Almeida, residente de Medicina de Família e Comunidade

Eu atendi uma paciente que estava com alguns sintomas inespecíficos, até poderia ser uma forma mais branda de COVID… Mas o que me chamou a atenção foi algo que ela disse em relação ao meu próximo paciente que eu iria atender:

-” É o meu marido… eu me preocupo porque ele é uber, né? Pega muita gente no aeroporto… ele não lava bem as mãos… se vc pudesse ensiná-lo o jeito certo… “

Eu fiquei em silêncio olhando pra ela.

– “Acho importante explicar pra ele todos os cuidados… ele não dá muita bola pra isso… Eu disse que a gente não pode ter muito contato, mas ele insiste em querer transar… ele não entende… se vc puder dizer isto a ele… “

Esta frase me doeu. Foi como se tivesse aberto um abismo no meio daquela sala isolada – era pras consultas ali durarem apenas alguns minutos visando evitar contaminação ao máximo, e agora?? É exatamente esse tipo de coisa que eu não consigo não ver!!!

Aquela não era uma frase simples, havia um iceberg enorme por trás dela! Eu podia sentir o peso dela naquele olhar…

Tentei estimular que falasse mais, como se eu não tivesse entendido.

Quando questionei diretamente se ela mantinha relações mesmo contra sua vontade, a reação dela foi bem defensiva.

– “Nããããooooo!!! Ele é ótimo! Só acho que ajudaria se você dissesse a ele…”

Foi difícil…

Por fim, eu acabei levando aquela história pra casa.
Infelizmente, não tenho um final legal pra contar pra vocês… Não foi aquela consulta inspiradora na qual eu consegui fazer a paciente perceber a violência por trás daquela situação…

Não consegui empoderar uma mulher, como gosto de pensar que faço às vezes…

Foi mais uma, dentre tantas que eu já vi ao longo desses anos na medicina…

Meu sangue chega a ferver quando lembro de situações nas quais ouvi pessoas falarem “ mas ela quis, era só dizer “não”. 

Será que eles não percebem as entrelinhas?? o olhar?? 

Será que eles não percebem toda construção, força e auto-estima que existe por trás do poder de dizer não?

A maioria das mulheres não tem isso, é difícil explicar e ao mesmo tempo parece óbvio… Na maioria dos casos o violentador ta dentro de casa, ele é o que toda nossa construção cultural nos ensinou a chamar de amor, marido, homem… como dizer não a ele? Depois de tudo que ele me deu…

É um sentimento extremamente ambíguo!

Elas (nós) aprendem a aceitar: tudo bem, não dói tanto assim… Eu só não sinto aqueeeele prazer, o problema deve ser comigo… Dura pouco tempo , já vai acabar…

NÃO!!!!

CHEGA!!!!

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