Por Ana Melodias, médica de família e comunidade

Primeiro dia no novo trabalho e junto com o sorriso de boas vindas dos novos colegas, recebo rapidamente uma máscara cirúrgica: “É importante usar em todas as consultas suspeitas…”. Felizmente, cheguei bem cedo, antes da chegada dos pacientes e, assim, tive a oportunidade de ainda ver as faces afetuosas por trás do branco mascaramento; um privilégio em tempos em que os abraços e apertos de mãos estão suspensos.


Desço para o consultório, testando diferentes linguagens corporais que substituam o toque, para cumprimentar as pessoas em meu caminho. Não estaria nos atendimentos de casos suspeitos hoje, por isso, poderia ainda flexibilizar o uso da minha máscara recém recebida. Ajeito algumas coisas em minha nova sala e, animada, vou à porta chamar a primeira pessoa: Janete.

Ofereço um sorriso afetuoso em substituição ao aperto de mão e aponto a cadeira. “Bom dia, Janete. Meu nome é Ana, nova médica da equipe. Em que posso te ajudar hoje?”. Janete conta, de forma objetiva e direta, que veio a unidade para realizar testes rápidos e se fecha em silêncio. Legitimo sua questão, afirmo meu entendimento com a cabeça e sigo com mais algumas perguntas abertas, a fim de entender um pouco mais a situação. Janete sofrera uma traição do atual companheiro, descoberta há um mês – “Justamente quando apareceu essa tal de pandemia, Doutora!”.

Com os olhos já marejados, conta como tem passado as ultimas semanas, imersa em muito sofrimento e solidão. Está afastada das duas filhas e do trabalho desde o início do isolamento recomendado – “Não durmo bem… quando deito, minha cabeça começa a se encher com todas as preocupações.”. Peço que me conte de suas preocupações, tentando lembrar em que ordem elas aparecem em seu pensamento, quando tenta repousar. Traição do companheiro; distanciamento da filha de 8 anos que está com o pai e da filha já casada de 21 anos; medo de ser demitida, por não ser mais útil nesse momento; privação do sono; falta de atividade física; “angústia”, “peito apertado”, “solidão”…

Ouço com ouvidos atentos e olhar afetuoso, desejando ser o melhor cuidado que poderia oferecer naquele momento. Minhas próprias dores e medos, por vezes, tentam elevar a voz, mas, com respeito, as silencio e volto minha atenção plena a Janete – “Tudo isso deve estar sendo muito difícil pra você…”. Um pouco de silêncio, lenços para enxugar as lágrimas que pareciam represadas há muito tempo, testes rápidos realizados, alívio, sorrisos… Um pouco da luz do sol entra na sala, que tinha suas grandes janelas abertas. Acredito que essa luz esteve ali o tempo todo, mas só a notei nesse momento final… Na despedida: “Queria te dar um abraço agora, Janete”, ela sorri: “Já me sinto abraçada, doutora…”.

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