Por Natália Henke, médica de família e comunidade

A vida tem continuado. Não de uma forma poética, resistente, resiliente. A vida tem continuado com todas suas mazelas amplificadas. E desta vez, os abraços estão suspensos.


Homens continuam infartando, mulheres continuando parindo. Pessoas continuam sendo diagnosticadas com câncer. E os abraços estão suspensos. Dói dar a notícia, dói a impotência de não poder oferecer conforto nos próprios braços.


As pessoas estão cada vez mais fragilizadas, com mais medo. Meus colegas, assim como eu, oscilam entre a negação e o pavor. Buscamos uns aos outros, mas as fronteiras se impõem. Os abraços não podem ser dados. Não dá pra chorar num ombro amigo.


Nossos avós queridos reclusos em casa experimentam com a máxima potência o isolamento que a sociedade da promessa da juventude eterna lhe reserva há décadas. Sentimos saudades e, por amor, não podemos abraçá-los.


Não me recordo de ter vivido um tempo tão hostil quanto esse presente. Nunca foi tão necessário me sentir aconchegada e protegida. E justo agora, não podemos nos abraçar.


As pessoas morrem por coronavírus e os parentes não podem se despedir de seus entes queridos. Nos enterros, não podem se abraçar.

Ô doença caprichosa. Tem nos dado sofrimento de sobra sem abraços pra acalmar.

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