Por Manuela Chianca, residente de família e comunidade

Um causo sobre Coronavírus e pessoa em situação de rua

Eu cheguei e estava quente e silencioso. Quase totalmente eram os moradores de rua que transitavam naquela praça do setor comercial. Dentre bancos e lojinhas de bugingangas, todas as esquinas foram tomadas por cobertores, carrinhos de compras e pessoas com suas malas.

Eu cheguei e pensadora do Café com Histórias estava lá com mais dois estranhos de cheiro montando o café na mesa. Não sabia se já havia começado e fui apresentada. Os sacos de biscoitos foram abertos, os copinhos de café retirados do saco. A coordenadora disse que tínhamos ido falar do coronavírus. Mas que nada! Gente de rua não pega, a gente toma álcool que vai é matando por dentro, disse uma. Serviram-me café. Doce! Muito doce. É para acordar! Pega bolo, pega bolo, pega biscoito. Vai embora. 

Eu cheguei e me sentei. Explico: é porque senão eu suo. Eles estavam de pé. Eu não sabia se tinha começado. Vão chegando mais pessoas. Tu és da onde? Recife! Conheço demais. Cabrobó, um diz. Arcoverde e Limoeiro, o outro. Eu vivia em Olinda! Eles conheciam de cabo à rabo. Eram muitos homens. Eu cheguei mais.

As mulheres chegavam e saiam. A Índia, leoa de cara, pele penetrada, sem sobrancelha, queria era uma sonzeira para rebolar. Chegam cachorros lindos, “ÉMEU”, diz a leoa. Mulheres de batom, mulheres bem vestidas, transsexuais indo passar base, arrumando seu cabelo que era início de dia. 

Chegavam rostos leoninos cheios de brincos, um festival de hanseníase. Na minha cabeça, eu observava as unhas imunodeprimidas. Só pensava nunca vi tanto leão ao vivo em minha vida. Eu queria ouvir aquelas vidas de savana e foi quando finalmente me convidaram. 

Para ser convidada, já tinha entendido há muito que sentada que não dava. Era em pé anarquicamente me conectando que eu ia chegar. Um começou a me contar da vida, tomamos um café juntos. Peripateticamente, me emaranhei naquela caminhada de fios que conectavam os que vinham e saiam.

Nós chegamos, finalmente. Todos nos sentamos num círculo anárquico. Ela me explicou que pessoa de rua não pega esse vírus, que é de rico. Os de rua tão acostumados com sol, com chuva, com frio e com calor. Já viu pessoa de rua morrendo de tuberculose? Já viu pessoa de rua morrendo de pneumonia? Morre não. Pessoa de rua tem as células e elas são envolvidas por uma armadura. Já viu?. 

Vi não. Ou vi?

Ouvi

Ouvi dor

Ouvidor ouve 

Houve?

sorria

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