Por Camila Vescovi, médica de família e comunidade

O que é estar na linha de frente do coronavírus? Isso tem me intrigado. Trabalho como médica de família e comunidade na atenção primária da saúde suplementar. Atendo casos de síndrome respiratória, mas também atendo outros casos. As vezes paro para pensar que nem estou assim, tão na linha de frente. Não estou nas UTIs, não estou nos Pronto Atendimentos. Só que é aí que eu paro e consigo refletir. Como não estou mais atendendo consultas agendadas, liguei para os meus pacientes com mais necessidades para ver como estavam e se precisavam de algo. Uma delas senti que precisava de ver. Já fica um conflito enorme, devido a exposição que posso estar causando a ela, mas eu a convoquei. E foi o melhor que pude fazer. Ela me esperava sozinha na sala de espera. Já chorando. Assim ela permaneceu por toda a consulta. Foram muitas histórias contadas naquele momento. Uma família grande, disfuncional, com várias pessoas do grupo de risco. Ela trabalha no administrativo em um centro de saúde de referência para o coronavírus. Eu já sabia que ela precisava de ajuda. Ela não tinha nenhum dos sintomas clássicos, mas ela tinha falta de ar. Ela não conseguia mais respirar no meio desse caos. Ela não sabia mais como lidar com tudo aquilo. Não dormia a dias. Tomava banhos longos para tirar sua “sujeira”. Me olhava nos olhos pedindo ajuda. Ela também estava na linha de frente. Eu também estou. A gente não podia se abraçar, mas sabíamos que aquele momento tinha valido a pena. Eu percebi. Ela também.

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