por Manu Campíñez, médico de família e comunidade

(original em espanhol publicado em http://www.doctutor.es/2020/03/25/tocaste-algo-me-dijo-mi-companera/
Traduzido por Paulo Poli)

Liguei pra ele na quinta. Vieram de ambulância e me prescreveram uns comprimidos e inalação, mas não sei se poderei começar a tomar antes de amanhã, quando meu filho virá e irá à farmácia. Nunca utilizei inaladores, nem sei se saberei usar direito… Manel é um senhor de 85 anos que vive só. Nos conhecemos há treze anos. Faz um ano que perdeu a esposa, Concepción, depois de uma complicada demência. Ela havia chegado a me confessar em consulta seus maus-tratos psicológicos. Nunca soube se deveria dar crédito a suas palavras ou se faziam parte do delírio. Nunca me atrevi a aprofundar. Te ligo amanhã para assegurar-me de que já está usando os medicamentos. Na sexta ofegava ao telefone. Tomei o primeiro comprimido essa manhã. E as inalações? Não percebo nada diferente com elas. No sábado eu estava de plantão. Respirei por poder fazer o seguimento imediato e não deixar passar todo o fim de semana. No dia seguinte a febre havia baixado, a dispneia, porém, continuava. Tínhamos 24 horas de antibiótico, talvez muito cedo para conjecturas em uma pneumonia recém diagnosticada. Ao hospital? Não, aguentemos, será pior. Em todo caso ele não havia piorado. Cruzemos os dedos para que não se complique no domingo. Na segunda de manhã a falta de ar havia piorado. Decidi ir a sua casa. Minha companheira me disse que era um caso provável, que fosse protegido. Temos EPI? Não. Então? Usa tua imaginação… Deixei o capacete atado à moto para manter as mãos livres, enquanto saudava alguns vizinhos, também meus pacientes. Entrei no edifício, tirei a jaqueta e a blusa no hall de entrada e deixei-a no chão. Vesti o avental. Coloquei as luvas e máscara. Peguei uma sacola que havia resgatado debaixo de uma árvore, dos presentes de natal. Peguei o estetoscópio, o oxímetro e o álcool gel e deixei minha mochila. Subi os dois andares pelas escadas até o apartamento. A porta estava aberta. Manel, chamei. Após um tempo veio até à porta. Quando me viu, não me reconhecia. Tenho que fazer a consulta aqui, não posso entrar na sua casa, estou sem proteção. Vire-se e levante o pijama, por favor. Pus uma luva para cobrir o estetoscópio. Crepitantes bilaterais. Saturação 85%. Pode se vestir e volte pra casa. Expliquei dali de fora. Estás mal, Manel. Fotut, dizemos os catalães. Terá que ir ao hospital, aqui não posso ajudar. Quando voltar à clínica, ligarei para o serviço de emergência e pedirei uma ambulância. Está preparado? Me disse que sim. Não pude evitar tocá-lo, antes de girar e sair correndo. Pus a mão em seu ombro e apertei. Olhei em seus olhos. Sinto muito, lhe disse. Desci as escadas em silêncio. Limpei o estetoscópio e o oxímetro por algum tempo com álcool. Coloquei-os em uma sacola. Retirei o avental com muito cuidado para não tocar na parte interna e depositei-o na bolsinha de presentes de decoração natalina que trazia. Retirei as luvas e as coloquei em outra bolsa. Joguei tudo na mochila. Pus a jaqueta e a blusa e saí do edifício. Começou a chover enquanto vestia o capacete e arrancava com a moto. Na terça vi o resumo do serviço de emergência. Positivo para COVID. Olhei o raio-x: infiltrados bilaterais periféricos em vidro fosco. O informe concluía simplesmente: internação. Faz uma semana que não colocam nada sobre ele no sistema. Nem exames de laboratório, nem radiografias, nada. Às vezes acontece quando ficam muito tempo na UTI. Mas creio que desta vez não é o caso, que o próximo registro que verei escrito, se é que o farão, é a epícrise. Tocou em algo? Me perguntou minha companheira. Não, respondi. Mas não era verdade. O aperto no ombro era um adeus definitivo. Inexpugnável. Impotente.

Manu Campíñez é médico de família no Centro de Atención Primária Vallcarca em Barcelona, onde atua desde 2006. É mestre em atenção primária e doutor em medicina.

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