Luísa Chaves, residente de Medicina de Família e Comunidade pela USFJ

“É que falta ar lá fora, não dentro de você” – eu disse pra uma paciente hoje. Ela acordou com o despertador pra ir trabalhar, mas não tinha trabalho pra ir. Seu trabalho está de recesso, o marido está desempregado, os filhos estão em casa e sua mãe idosa mora na casa ao lado. Chegou hiperventilando na Unidade bem cedo. Queixou-se primeiro do medo que vinha sentindo, depois da falta de ar. Das notícias, dos grupos de whatsapp, das contas que vão continuar chegando e do dinheiro que vai diminuir. Não dorme bem desde o dia que o recesso do trabalho foi determinado.

Com cuidado e junto com a Enfermeira, fizemos o exame físico. Propositalmente contei a frequência cardíaca pelo pulso, segurando sua mão. Aos poucos a respiração melhorou. O toque transforma tudo. As lágrimas que estavam ali guardadas vieram.

Acho que o vírus faz faltar mais ar fora de casa do que dentro. E não foi difícil entender o que tirava o ar de verdade. A ameaça aos seus direitos trabalhistas, o desemprego do marido, a vulnerabilidade da mãe, o desmonte progressivo do sistema de saúde, as informações falsas e desesperadas na internet.

O ar que ela hoje sente falta, já vinha sendo tirado. O que sempre nos faltou foi fôlego. E o que hoje é o sinal de alerta de uma doença, demonstra o que há tempos deveria ter sido tratado. Não é falta de ar, é falta de muitas coisas. E respirar nunca foi tão necessário. Pra ela, pra mim, pra nós. Respirar nunca foi tão difícil. Oxigênio nasal não trata, clonazepam não resolve. Falta ar lá fora.

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