Por Carolina Reigada, médica de família e comunidade

“Não é só o tal do Corona”

Estava eu novamente, totalmente paramentada, na porta da unidade básica de saúde, na triagem dos pacientes, separando aqueles com sintomas respiratórios para atendimento prioritário. 

Vejo chegando uma mulher cujo pré-natal eu acompanhei. Chorando. 

“Que aconteceu?”, eu perguntei. 

“Ele me bateu, ele me bateu”

Entramos no primeiro consultório que estava livre, conversamos com menos de um metro de distância, sem usar máscaras. Pegamos nas mãos uma da outra. Nos escusamos por uns minutos da pandemia de coronavírus para viver uma realidade tão antiga, tão presente e conhecida. Para falar da violência doméstica que ela vive, com um bebê de meses em casa. Para falar de como nos proteger, como sair do ciclo de violência. Para cuidar do dedo luxado. 

Para pensar: aonde vamos, se a casa não é segura?

Ela foi embora, eu me perguntando o que mais poderia ter feito – o que mais deveria ter feito. Amanhã vou procurar notícias. 

Assim que saiu da sala, recoloquei a touca, o óculos, a máscara, a luva. Voltei para o mundo pandêmico de coronavírus. Mas doente de tantas outras coisas. 

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